ALUMBRAMENTOS
Os dias estão
lindos, lindos como soem ser os dias de certas raras primaveras. A vida
pulula. A pujança se manifesta nos
movimentos das marés chegando aos máximos extremos, mais até que as marés de
março, tanto nas baixas quanto nas preamares, com a lua cheia em máxima
aproximação da Terra. Nas coroas de areias, extensas como nunca, os rala-cocos,
as marias-prestas, sambás, peguaris, navalhas, mapés, tapus, carangodés, chumbinhos,
toda imensa variedade de mariscos desta baía fazem a festa dos marisqueiros. As
mangueiras, os cajueiros, as acerolas e pitangueiras cobertas de flores,
algumas já com frutos, prometem safras fartas. Há a alegria no ar. É tempo de
ser feliz só por existir. Tempo de bom tempo. Tempo de milagres. Tempo propício
para o nascer de um novo amor. Tempo de celebração da vida.
Então há uma
sincera vontade de se ser um ser pacificado e pacificador e sair por aí a
apaziguar os corações conturbados, a desarmar os tomados de iras e equívocos, a
neutralizar todas as querelas, a semear concórdia. Ser amorável e amoroso, e
amar infinitamente tudo e todos indistintamente, como Cristo, e perdoar os que
de alguma forma deixaram de corresponder à amizade, aqueles que por falta de
coragem e relutância em admitir os próprios sentimentos fizeram sofrer, a todos
que não sabem o que faz e por isso fazem mal. Ser terno, gentil e agradecido à
gatinha que nos adotou e agora dorme enrodilhada aos nossos pés; ao galo que anunciando
o alvorecer de um novo dia, lembra que mais uma oportunidade está sendo dada,
ao solitário mico, aos sabiás, às rolinhas fogo-pagô e caldo-de-feijão, aos bem-te-vis, aos
cardeais, aos sanhaços, aos casacas-de-couro, aos canários da terra, a todos
irmãozinhos alados que vêm comer banana e alpiste, fazendo a festa diariamente.
Ser como a luz que não se ofende com coisa alguma, que se conserva pura não se
contaminando jamais e ainda irradia iluminando.
Ser sábio o suficiente para deixar o coração sempre leve e puro, livre de
ressentimentos e mágoas.
E no meio da
tarde do lindo dia, há um solo de berimbau muito bem tocado, logo acompanhado
por pandeiros, palmas e vozes. Os meninos que tocam na porta do colégio
próximo, nem de longe desconfiam a remissão que sua roda de capoeira provoca.
Inicialmente remete ao pátio da Escola de Comunicação, à Taba dos Orixás, ao
final de uma manhã de sábado no Mercado Modelo, às Festas de Largo, em toda
parte, em que na década de 70, se reuniam os estudantes de Jornalismo, os
farristas de quase todas as unidades da UFBa e outros agregados, inclusive nas
ruas das cidades por onde passava a embaixada ao Festival de Inverno de Ouro
Preto. Histórica e aventureira viagem que dentro do inusitado Fumacê, o ônibus,
tipo marinete, cujo escapamento furado jogava o monóxido de carbono pra dentro
e, que com gerador defeituoso levou quatro dias que chegar ao destino, sendo obrigado
a fazer paradas constantes, as quais se aproveitava para apresentação da
capoeira, samba de roda e o
impressionante maculelê de facão
comandado pelos irmãos Márcio e Aristides Mercês. Remete também a reencontro
recente de velhos jovens amigos de 1970. Os meninos continuam a tocar sem nada
disso saber, criando, provavelmente, suas próprias reminiscências futuras.
E há uns olhos cor
das águas. A cor das águas do mar. A cor das águas do mar num dia de sol. Num
dia de sol de rara primavera. Na transparência calma destas águas passam
cardumes, passam canoas, passam veleiros, passam nuvens, embora os mistérios da
alma, retidas nas regiões abissais, não se revelem. Nos olhos oceânicos é
possível navegar. É possível navegar por
mares nunca dantes navegados, ou dentro da baía e lagamares, por entre
ilhas, de preferência desertas, surpreendendo quietas enseadas e esquecidas
capelas entre matos à beira d’água, ou um mosteiro inteiro, ou ruinas de um
outrora opulento engenho ladeado por imponentes palmeiras imperiais.
Nos olhos d’água cessam as
tempestades. Os bons ventos vêm de volta repondo aleluias onde havia nostalgia,
espalhando brejeirice onde havia sisudez e doçura na aridez da amargura. Há
promissão de sossego, descanso, serenidade e segurança, ainda que em meio à instabilidade
inerente à condição das águas que não param de passar; mas se peraus existirem
que fiquem bem escamoteados sem perigo oferecer, ao menos iminentemente. Quem
tem o coração posto nas águas de Kirimurê-Paraguaçu, não refuga uma boa quimera. Quem tem a alma posta nos
saveiros que deslizam na Baía com insufladas velas de içar, não perde a
oportunidade de navegar ainda que seja em águas de miragem. Quem tem o
pensamento nos ventos indo à deriva daqui dali e acolá, vive a fuçar motivos de
alumbramentos nas coisas mais simples que há: numa pequenina flor silvestre, no
perfume do jasmim, no cheiro das algas, na vela solitária que passa no
horizonte incendiado ao crepúsculo, no popopó do barco invisível dentro da
noite, no som do berimbau, até nas metafóricas águas dos olhos cor das águas.