Mas as flores nascem
Há pouco estávamos em março.
As três amigas aproveitavam os últimos dias de verão na bem amada Itaparica. E
eram banhos naquelas claras, mansas, mornas águas da Praia do Forte. E eram
cervejinhas acompanhando os petiscos de Simone e Mario. Eram intermináveis
conversas. Eram caminhadas e contemplações e jantar na calçada do cais com
Betinha e Antônio entre muitas risadas,
alegria solta.
Veio abril, veio maio, junho,
e agora julho. Veio o outono e passou, chegou o inverno e vai passando, vai
passando sem que a gente confinada perceba essa passagem. Desde março, quando a pandemia do coronavírus
chegou por aqui, os dias parecem todos iguais nesta quarentema que já dura 120
dias. Parecem, apenas parecem, porque estamos em estado de suspenção e espera
vivendo de maneira diferente.
No entanto tanta coisa tem
acontecido! Ontem, por exemplo, foi um dia pródigo de novidades. À tarde descobri
o menor beija-flor do mundo. Até então achava que o menor era um verdinho, de
verde metalizado com rabo curto (Chlorostilbon
lucidus, se não me
engano), mas eis que estando na varanda após almoço, vimos a
criaturinha marrom, minúscula, quase só bico, colibriando entre as flores do
clerodendro vermelho, ou lágrima de cristo. E foi muito bom ficar olhando
aquele serzinho, ir pra lá, ir pra cá, voar pra frente, voar pra trás, parar no
ar, refestelando-se de néctar, dando encanto a uma tarde trivial.
Pouco depois do jantar, a
novidade ficou por conta do apagão, revelando a noite verdadeira. Fazia frio,
havia brisa a embalar as folhas adormecentes sob o acalanto do mar distante. No
céu, sobre o silêncio, algumas estrelas espiavam por entre o esgarçamento das nuvens
clareadas por um resto de lua minguante semicoberta. Mas, havia mais. Na
escuridão, por toda parte acendiam-se pontos de luz como fagulhas. Eram os
vagalumes pisca-piscando a nos deixar felizes. Logo havia violão, cálices com
vinho do porto e cantoria até a energia elétrica voltar e apagar a noite com
suas luzes artificiais.
E hoje, ao meio dia, mais
outro acontecimento inusitado. De repente um grito e um susto de fazer pernas
tremer por horas. A gata Tuca atacava uma grande cobra verde, obviamente com
risco de ser picada. Grita daqui, chama de lá até a gata sair do alcance da
serpente. Ufa! Mas a cobra continuava no quintal, bem perto da casa. Era
grande, talvez um metro e meio, toda verde, belo verde lustroso. E não dava
mostras de querer ir embora. Assustada quando nos viu, subiu numa árvore.
Ficamos acompanhando o rápido deslocamento dela nos galhos. Às vezes perdíamos
de vista. De novo a víamos esticar-se, ficar dependurada, dar pequenos saltos.
De galho em galho, passando do pau pombo pra o cajueiro e deste para piaçavas
se dirigia à matinha atrás da cerca. A essa altura, já sabíamos que era a ágil cobra
cipó, que embora tendo veneno não envenena. Mas mordida de cobra sempre é
mordida de cobra e faz algum estrago com a boca suja que elas têm.
Quando pensávamos que já tinha
ido embora, eis que a vimos voltar. Nisto um mico anunciou perigo na área e
logo o bando todo, uns 10 que vivem aqui, partiu contra a cobra. Mais que
depressa ela desceu, foi pra o chão e novamente se aproximou da casa, se meteu
por debaixo do degrau, se enfiou num buraco na areia e sumiu por instante, para
aparecer adiante já na raiz da árvore. Ou seria outra? Dizem que cobras andam
em pares. Percebendo a relutância dela de se afastar, suspeitamos que ali tinha
algo que a prendia, talvez um ninho. Mais tarde, lendo as notícias do dia, achei
a explicação para a insistente visita. 16 de julho é o Dia Mundial da Cobra e
ela ou elas ou o casal vieram comemorar
conosco que já recebemos várias visitas destas e não as matamos.
Bem verdade que vivemos um
período trágico entre a pandemia do vírus e as loucuras do endemoninhado
presidente e seus asseclas. Mas, um amigo
realizou um velho acalentado sonho e ficou feliz; o segundo se curou do covid 19 e festejou
igualmente feliz; o terceiro avisou que estava vendo a chuva e me lembrava que um dia de chuva é
inspirador e tão belo quanto um dia de sol; uma amiga viu as belas velas das
embarcações do Recôncavo e me mandou as imagens também para me inspirar; a outra
aprendeu valiosas lições com a solidão. E os bulbos da angélica brotaram
viçosamente, poucos dias depois de plantada, a dizer que a beleza da vida
persiste para além das feiuras espalhadas por insensatos humanos. Sim, as
angélicas nasceram e logo estarão perfumando os ares daqui e comovendo os olhos
dos que as virem com o coração.




