segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

 

E por falar na Fatídica Ponte


 

O dia se fez macambúzio. Havia um estranho silêncio. Os passarinhos que costumam saudar festivamente as auroras, emudeceram. Apesar de toda bela luminosidade do alto verão havia uma certa invisível sombra que se sentia. Sem dúvida, havia um mau presságio no ar que logo se confirmou ao ver as primeiras manchetes do noticiário: “Concessionária começa obras da ponte Salvador-Itaparica...” “Iniciado trabalho de sondagem para identificar características do solo onde será montada a fundação da Ponte Salvador-Itaparica”.

Então a desgraça da Ilha de Itaparica vai mesmo se concretizar? Claro que a construção da ponte ligando Salvador à Ilha já fora anunciada como certa, mas como a esperança é a última que morre, esperava-se que não se concretizasse nunca, não apenas pelo bem da Ilha como da cidade da Bahia. Itaparica vai virar mais um bairro favelado e Salvador será mais ainda descaracterizada com a construções de mais viadutos e destruição de área emblemática da cidade baixa, da Calçada com seu belo histórico prédio da estação ferroviária até a Água de Menino. Tudo isso sem falar do impacto ambiental no mar.

Terrível o que acontece por aqui. Toda cidade antiga que se preza, procura conservar ao menos seu centro histórico. Paris, Amsterdã, Roma e tantas outras, inclusive as brasileiras Ouro Preto, Tiradentes e, até a baiana Mucugê são famosas, são atrativas porque souberam se conservar históricas e formosas. Será que teriam o mesmo encanto se tivessem se enchido de arranha-céus e viadutos? O que se fez e se continua fazendo por aqui é crime porque se destrói a cultura e burrice desmedida porque se enfeando mata o turismo. 


 

Salvador é a primeira cidade do país. Uma cidade medieval fortificada, planejada e fechada por algumas portas, construída numa escarpa sobre o mar, tendo uma topográfica maravilhosa. Até hoje é espetacular quando vista do mar com suas muradas de pedras ladeando ladeiras que descem em direções opostas, se sobrepõem e se encontram em alguns pontos. Além disso pode-se dizer que a cidade da Bahia é o local exato onde nasceu a nacionalidade brasileira e portanto, não deveria ter sido tão transfigurada. Foi aqui que nasceram os primeiros mestiços, filhos da nativa Catarina (provavelmente oriunda da Ilha de Itaparica, já que era filha do cacique Taparica, o maioral da Ilha) e do português Diogo Alves Correia, Caramuru, o primeiro casal oficialmente casado. Como pode uma cidade tão significativa ser hoje essa horrível mistura de ruínas, viadutos, edifícios altos e favelas? E não satisfeitos ainda querem piorar mais ainda.


 

Já a Ilha, apesar das adulterações sofridas, ainda salvaguarda um pouco da sua história, tradições, patrimônio arquitetônico, praças arborizadas, áreas verdes, modo de vida comunitário, algum sossego e certo fascínio. Mas tudo está agora com dias contados, pois juntamente com a ponte virá a multiplicação da população e devastação das áreas verdes ainda restantes, construção de casas, puxadinhos, prédios sem critério, aumento da violência, do barulho e da poluição da terra e do mar... Se com toda dificuldade de travessia, hoje, a ilha já fica superpovoada e insuportável no verão e feriadões, é fácil imaginar o que vai acontecer com a facilidade da ponte. Logo a demora de embarque será transplantada para os engarrafamentos na ponte e muita gente, ao se espremer dentro dos ônibus superlotados, terá saudade dos ferrys e lanchas. Bem disse um antigo pescador da Ilha de Maré numa entrevista: “Onde o progresso chega, a desgraça vem atrás”.

    Sim, o dia se fez sorumbático. Como admitir a existência de um tremendo corpo estranho feito de aço e concreto a macular a bela histórica Baía de Todos os Santos? Como aceitar que os corações continuem empedrados e os ouvidos moucos após tantos alertas quanto às malignas consequências dessa ponte? Não só alertas, mas também desesperadas súplicas como as feitas pelo escritor João Ubaldo Ribeiro, além das sensatas alternativas apresentadas por altamente qualificados urbanistas. Para onde vai esse mundo em que os governantes desrespeitam os mais sábios e simplesmente ignoram os protestos, os apelos, as contribuições oferecidas pela sociedade? Até quando seguirão desprezando o bom senso, passando por cima de tudo e fazendo o que bem querem, sempre priorizando o dinheiro em detrimento à qualidade de vida das pessoas e mesmo a preservação do Planeta e a sobrevivência da espécie humana?

    É, lamentavelmente o dia se fez soturno e assim continuará sendo por outro e muitos outros dias enquanto durar a construção e depois, mais ainda, quando os olhos se depararem com a monstrenga anomalia sobre a ex-bela Baía de Todos os Santos e quando a sedutora Itaparica, como a Itabira de Carlos Drummond de Andrade, for apenas uma fotografia na parede, ou computador, a doer na alma de quem a conheceu outrora.