quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

CRÔNICA NATALINA



PITANGAS E PRESÉPIOS

A manhã ainda estava no começo quando soou o já desusado pregão, “Olha a pitanga!” Então, à mesa do desjejum, o homem se deu conta de que estava no dia 24 de dezembro e que o vendedor mercando na rua não oferecia as frutas, mas sim galhos de pitangueiras, no afã de não deixar morrer uma das mais singelas tradições natalina, aquela que dava um cunho tropical ao nosso Natal, que o abrasileirava.
Ele não esquecera, o Natal tinha cheiro da nativa pitanga, de tanto que, neste período, as suas folhas recendiam por toda parte. Nas casas eram espalhadas pelo chão coberto de fina areia branca, e distribuídas nos diversos jarros. Nas ruas, os aromáticos ramos, além de passarem úmidos pra lá e pra cá dentro das latas dos vendedores, eram amarrados em postes e nos ônibus. O pitangueiro novamente mercou já mais distante e ele, ainda na mesa do café, ficou no devaneio.
Entendia, agora, que a mesma apregoação ouvida nos tempos idos, se constituía numa versão sonora da Estrela Guia, a conduzir o menino-homem ao menino-deus. O antigo anúncio de venda das folhas, soando em vozes distintas e não no hodierno solo de hoje, era o sinal de que havia chegado a hora de armar o presépio. Presépio onde o deus-menino renascia a cada ano a elevar o humano coraçãozinho encantado com a própria arte e a proximidade do divino.  
No seu tempo de Zezinho — vivendo no lugarejo afastado da capital, entre a ingenuidade, a improvisação e a simplicidade — o presépio se constituía no centro da festa, armado nos lares e nas igrejas. Com a criatividade à solta, não se armavam dois presépios iguais. Se num ano havia morros feitos de pedras, no outro, usava-se papelão ou jornais cobertos de crepom verde. Empregavam-se os mais variados materiais: gessos, madeira, palha, barro, a fim de criar cenários diversos, às vezes rochosos, às vezes campestres, às vezes citadinos, sem nenhum compromisso com a escala de tamanho ou perspectiva.
Neles um mundo de coisas era incorporado, misturando cenas e figuras que nem sempre tinham a ver com a história retratada: pedras, brinquedos, conchas, areias vindas das praias e ou dunas, cessada para ficarem bem branquinha, casinhas de papelão e de caixa-de-fósforos, bonecos de celulóide, patos, galinhas, carneirinhos, o boi, a vaca e o burro, os pastores e pastorinhas A variedade de feição era enorme. Alguns presépios mais engenhosos exibiam cascatinhas, riozinhos correntes, pontes, moinhos e outras invenções de hábeis artistas ou artesãos. No geral prevalecia a singeleza, bem ilustrada pelo, quase obrigatório, caco de espelho formando lago. Em todos, só não podia faltar os ramos de pitanga, a manjedoura, os três reis magos, Nossa Senhora, São José, e claro, o menino Jesus.
Os preparativos começavam dias antes, com o planejamento, recolhimento de materiais e confecção das figuras e objetos. Mas tudo era festa: sair em busca de musgo, das  florzinhas agrestes e das indispensáveis pitangas; ir às dunas pegar areia; catar conchas e búzios nas praias, ou pedras e argila nas beiras de rios; modelar bichinhos de barro; fazer bonecos de palhas ou de saco de aniagem; forrar caixas de fósforo ou papelão, colando telhados portas e janelas, tudo coloridinho.
Ainda não havia sido importado o espalhafatoso e caro Natal americano e, a tradição européia, que havíamos herdado, passara por adaptação, ganhando característica nacional. Assim, além das pitangas e dos presépios, faziam parte da comemoração: as recíprocas visitas aos presépios e ou as casas dos amigos, parentes e vizinhos; a ceia, com bacalhau (não com peru) presunto, queijos, roscas e frutas secas; a missa do galo seguida dos folguedos populares: reisados, ternos de reis ou de pastorinhas, auto de natal, bumba-meu-boi, rodas, boca de forno e demais brincadeiras infantis. Como a epidemia do consumismo ainda não se alastrara, não havia trocas de presentes nem a febre das compras e da pompa.  O Papai Noel foi chegando aos poucos nas cidades grandes, mesmo assim, trazendo os presentes somente para as crianças, normalmente brinquedinhos simples. Então, o homenageado não ficava tão distante.
A esta altura, o antigo Zezinho se lembrou de um episódio daquele tempo, quando seu tio paterno, conhecedor da sua cachaça por presépio, o levou à capital para cumprir a tradição de percorrer várias igrejas para ver os respectivos presépios no dia de Natal. Aproveitava para instruir o sobrinho quanto à arquitetura barroca e às artes sacras. O menino boquiaberto girava em si mesmo para ver tudo, enquanto o tio, orgulhoso chamava atenção para o fausto e os detalhes. Porém, já com seus onze anos, freqüentador da humilde capela da sua aldeia e um tanto quanto familiarizado com os evangelhos, Zezinho perguntou ao seu cicerone, se aquela era mesmo a casa de Jesus e se tudo aquilo dourado era ouro de verdade. Ante a confirmação do tio, o menino realmente perplexo inquiriu, procurando entendimento: “Então toda aquela riqueza era para Jesus? para o carpinteiro pobre que aconselhava a não se juntar tesouros na terra, que até condenava os ricos por se ocuparem em amealhar bens materiais em lugar dos bens espirituais? Será que o Cristo, que nasceu num estábulo, que viveu sem nada possuir, se sentiria bem num ambiente tão luxuoso assim? por que querer homenageá-lo justamente com coisas e modos que o mestre desaprovaria?
Seu tio bem que se esforçou para explicar, mas o aplicado aluno do catecismo interiorano teve dificuldade de compreender e na sua cabecinha as interrogações permaneceram no fundo da memória, sob as muitas outras que foram surgindo e se acumulando no caminhar dos anos. E agora, na manhã da véspera de Natal, no instante em que um vendedor mercava pitanga, elas afloravam junto às boas reminiscências. Constatou que as suas perplexidades só fizeram aumentar. Todo o conhecimento amontoado nas suas seis décadas de existência não fora suficiente para elucidar o ser nem para explicar as incongruências humanas, tais como a transformação da comemoração do nascimento do humilde amoroso sábio de Nazaré em fantástico negócio. Uma ponta de desencanto se insinuou, contudo foi salvo a tempo, pela voz do netinho que vinha correndo com galhos de pitanga na mão a dizer: “vovô veja o que vovó comprou, vamos armar o presépio agora?”
Mais uma vez a versão sonora da estrela guia cumprira a missão. E lá se foram os dois meninos, o grande e o pequenino, ao encontro do menino Deus.  A esperança se refez. Então, o antigo Zezinho teve resposta para uma das suas muitas interrogações: não importava o que os homens fizeram do Natal e de tudo mais, a essência sempre se conserva, até se revela, para quem de coração leve vai ao encontro do divino.