Itaparica Revisitada
Acabei de chegar e já vi arco-íris iluminando a Ilha do Medo, vi um pescador a se encapotar apressado, em pé na canoa, se preparando para o vento que vinha levando tudo. E agora chove na enseada. Veleiros enfumados passam com velas arriada levados só por motores. Invisível, o galo continua cantando desde a madrugada, sem se dar conta, entre a nublação, de que o dia há muito começou.
E principalmente, especialmente, particularmente, sobretudo — da varanda de muitos arcos onde tomo o bom café do hotel — vejo o mar. O sereno mar da Baía, que passado os rápidos ventos das chuvas de fim de verão, se desarrepia, se estira, vira espelho e livre da névoa infinitiza-se. Vinda do meio dos verdes da APA onde agora moro, comparo. Mata é acolhimento, abrigo, espaço tempo delimitados, o aqui agora. É chegada. Mar é voo, abertura, chamamento dos longes, é o eterno recomeçar como observou o poeta, o infinito, o sem limites a provocar buscas. É partida. E o contemplando se atende aos chamamentos e às provocações, se levanta âncora e se vai, ainda que sem sair do lugar. Vai a alma seguindo o olhar.
Mas eis que uns sanhaços vindos da castanheira de defronte se interpõem entre o olhar e o mar, interrompendo a navegação da alma. Bem azuizinhos como risquinhos do céu ou mar, atravessam a varanda e entram no restaurante. Saciados os humanos, é a vez deles tomarem o café da manhã. Pulam sobre os espaldares das cadeiras, passam às mesas, bicam migalhas e, fazendo jus ao nome, assanhadamente voam do salão à árvore e voltam ao salão, e de novo à árvore, às vezes, no caminho, dando paradinhas nos móveis da varanda, assuntando a vida. Tempo que os olhos param de pingueponguear.
Finda a refeição eles tomam outras direções no ar e retomo
a contemplação do mar, agora totalmente claro. A paisagem já não é a mesma de há
pouco instante. A paisagem muda muda. A cada minuto, silenciosa, quase
imperceptivelmente, inexoravelmente, muda. Muda no deslocar das nuvens levadas
pelo vento criando claros e escuros sobre os morros e o mar. Belo trabalho fazem o vento e as nuvens!
Mas não só eles. Outros elementos costumam chegar, aparecer, ficar ou desaparecer. Um veleiro que vem do horizonte, passa e vai pra onde não se sabe e some; o voo solitário de um pássaro que risca o céu, ou o demorado plainar do urubu ou o avoejar do bando de andorinhas, ou o barquinho a remo do pescador costeiro, ou a canoa de duas velas coloridas, ou homem que desce da bicicleta com vara de pescar e samburá ao ombro ou ainda o outro pescador andando à beira d’água a prescrutar as profundezas e em dado momento joga a tarrafa que se abre em forma de fonte luminosa antes de cair sobre o cardume.
Bem poderia ficar assim, me exercitando, como João
Ubaldo Ribeiro, na difícil arte de não fazer nada, apenas acompanhando as
mudanças da paisagem no decorrer das horas, mas os amigos me esperam e é
preciso rever a cidade, rever cada cantinho querido, reviver as sensações experimentadas
em cada parte. Se bem que, fico um tanto apreensiva, afinal se passaram três
anos. Nem sei como pude ficar tanto tempo longe daqui! Grande parte culpa da
pandemia, outra, culpa das dores resultante do efeito dos anos sobre o
esqueleto. Mas passou e aqui estou e saio a conferir com a esperança, bem maior
que a apreensão, de que tudo esteja como estava ou que as alterações havidas tenham
sido para melhor sem descaracterizar, sem macular o cerne.
Logo de cara vê-se que a orla está cuidada. Ponto positivo para retiradas das mesas e cadeiras do calçadão, bem como para reforma dos passeios e colocação de bancos para os apreciadores da paisagem, e das lixeiras tão indispensáveis. Mas para que aqueles enormes vasos com buganvílias entre os bancos? São plantas trepadeiras, que precisam de espaço ou caramanchão para se espalhar e florir plenas e cheias de espinhos, nada adequado para área de circulação. Melhor seriam se plantassem coqueiros ou aroeiras, no chão mesmo. Mas para que aquela profusão de postes modernosos nada condizentes com centro histórico e ainda mais colocados no cais a beira mar. Desse lado bastavam as coloridas luzes rasteiras. E ainda se tratando de iluminação, outro ponto negativo são as luzes nas árvores a perturbarem o sono das aves e a desnortear animais noturnos. Por questão estética, bastava iluminar os pés das árvores, por questão de segurança, bastavam o policiamento e a colocação de câmeras.
Muito bom ver os muros transformados em painéis
artísticos, assim como as casas pintadas, mas é lamentável a ausência de um
ordenamento do uso do solo e de preservação do patrimônio arquitetônico do
centro histórico, de modo que de repente,
se leva um choque ao se deparar com umas chamativas casas modernas em meio ao
casario antigo. Muros de vidros, às vezes sem nenhum sentido já que as cadeiras
do jardim estão colocadas de costa para o mar. Se não interessa ver o mar, para
que o muro transparente?
Bem, eles podem ignorar o mar, eu não. E para o mar olho e ele convida. Logo estou mergulhando naquelas claras, calmas, mornas translúcidas. Boio no azul, mirando o passar das alvas nuvens no azul de cima. Dentro d’água também dá para ou admirar o contraste do verde escuro da mangueira do Forte e do verde claro das folhas novas dos velhos tamarindeiros sob o azul do céu. Fico feliz em ver a resistência desses tamarindeiros plantados, segundo Ubaldo Osório, na época da Guerra do Paraguai. Mas sinto dorida falta do araçazeiro nascido na praia, um desses inusitados de Itaparica, assassinado não sei por quê. Besteira que digo, pois qual razão pode haver em qualquer assassinato? Motivo, até pode ter. Razão, nunca.
Vou ao encontro dos amigos. Conversamos, comemos,
bebemos, rememoramos, trocamos notícias, rimos, fazemos novos planos, damos
vasão aos afetos. O que de melhor na
vida se não a amizade? O que mais exato do que esse convívio, inda mais em meio
a tal panorama, quando cenário e cena se harmonizam? Pura felicidade. Nada mais
precisaria ser dito. Contudo ainda tenho reparo a fazer. O sol bate de tal
maneira sobre o mar, que as águas parecem ferver. Em meio a essa efervescência
que encandeia, um único barquinho pousado. Tento guardar o instante numa foto,
mas a lente do celular não capta igual. Então fixo a imagem no coração para me
fazer voltar de novo a esse meu lugar.
Indo ao quarto pegar a mala encontro um casal de
andorinhas nos basculantes do banheiro. Vou devagarinho. Eles não se assustam
comigo e lá ficam a me dizer adeus ou, quem sabe, esperando eu regressar. Que assim seja.




.jpg)

