sábado, 22 de maio de 2021


 

Matutando na Madrugada

 



Acordo no meio da madrugada com um ruido no forro. Ainda de olhos fechados penso que algum bichinho tenha entrado entre o telhado e o forro. Torço para que consiga sair logo. Ainda com muito sono vou adormecendo, mas ouço novo ruído, mais forte e percebo que é dentro do quarto. Abro os olhos a tempo de ver algo se bater no forro e cair na escrivaninha, atrás da impressora. Temo ter sido uma barata, apesar da   coisa ser bem grande.  Mas como estou debaixo do mosquiteiro me sinto um pouco protegida, na verdade, acuada. E se a bicha voar em direção da cama? Arrepio no corpo todo. 

Para piorar vem a necessidade de fazer xixi. Como sair do abrigo de filó, abrigo frágil, bem verdade, ainda sim uma proteção. Tento dormir. Cadê conseguir precisando ir ao banheiro e com uma possível barata no quarto? Encho-me de coragem, mesmo porque agora também o frio aumentou requerendo uma coberta. Levanto devagarinho, vou ao banheiro. Tudo bem, mas quando abro a porta do guarda-roupa para pegar o cobertor, escuto o barulho na escrivaninha. Corro pra baixo do mosquiteiro. Então vejo que é um passarinho que voa, mas se bate no teto.




Não é a primeira vez que isso acontece. Os pássaros entram pela janela sempre aberta e não conseguem sair. Feitos para voar no amplo espaço natural, eles não podem entender uma barreira ao voo. Afinal o mundo não tem teto e o coitado do pássaro, talvez um sabiá que cedo madruga, no escuro não dá pra distinguir, se debate na armadilha humana. Não sei como ajuda-lo, porque qualquer movimento meu o assusta fazendo se bater mais ainda. Insiste em passar por onde não pode e tomado pelo pânico não aceita ajuda. Nisto se iguala aos seres humanos que embora se gabem da inteligência que têm, continuam se batendo nas vidraças das impossibilidades e por medo ou cegueira da teimosia não veem as saídas nem as ajudas que lhes são oferecidas. E vão repetindo erros, criando um mundo caótico para si, para a sociedade em que vivem e para o lindo planetinha azul.


Querendo servir a dois senhores, colocando remendos novo em pano velho, querendo conciliar o inconciliável, vai-se atirando pedras para cima com a própria cabeça embaixo. Vai-se elegendo valores artificiais e o vírus da insensatez se alastra numa pandemia sem vacinas ou qualquer controle, mesmo porque a demência que este vírus causa não deixa ver o mal que é. Assim o vício da riqueza, do poder e fama embotam os sentidos a razão e a sensibilidade. Assim se queima e derruba florestas de onde vem o ar que se respira, polui-se rios da água que se bebe, mata-se manguezais e por ai adiante. Assim nascem projetos estapafúrdios como o de criar uma cidade com prédios de 30 andares num recanto paradisíaco, que poderia inclusive gerar dinheiro com o turismo sustentável.



Fico a pensar no que sente essa gente que manda destruir e os que executam a destruição. Como ter coragem de macular a alvura da areia daquela praia, cortar o coqueiral que alheio as intenções entoa longo acalanto ao passar da brisa? Como meter trator e motosserras naquela mata intensamente verde de clorofila e ar em desmedido arvoricídio e chacina dos animais?  Como não se comover com o cantar de passarinhos que sem razão alguma condenam à morte? Como não se extasiar com a sensação de límpida infinitude azul do mar e do céu? Tanta beleza em sossego não é suficiente para enternecer o coração e elevar a alma? A paz que ali se experimenta não plenifica o ser? Como então violentar os restos de paraíso que ainda resistem com empreendimentos questionáveis?

Procuro entender a falta de sensibilidade.  Será que a sensibilidade só chega para alguns, ou será que foi perdida na trajetória da humanidade deslumbrada com as parafernálias que inventa? Talvez a sensibilidade tenha sido perdida quando se pôs tetos no mundo, escondendo o navegar das nuvens no mar azul do céu e o estrelejar dos astros no veludo escuro da noite. Ao artificializar-se, ao distanciar-se da natureza os humanos esqueceram sua condição e, sobretudo, ao deixar de ver estrelas perderam a sua real dimensão em significância. Nada como um bom céu estrelado para criar o pasmo essencial, para nos fazer baixar a crista e nos botar em nosso lugar, mas também, como aos pássaros, nos fazer alçar voos extraordinários. Os tetos não só confundem as aves, mas também nos limitam e nos tornam ridiculamente presunçosos.

E por falar em pássaro, devo dizer que o que estava aqui felizmente achou a saída. Enquanto eu matutava o sol ergueu-se empurrando a noite para mais tarde. Na luz do novo dia a avezinha viu o seu caminho para espaço sem fim. Mas já era tarde pra voltar a dormir e sob o teto me pus a cumprir o cotidiano.