segunda-feira, 13 de junho de 2016



O GRANDE SUSTO DE NOÊMIA


Lua cheia no mês de março, já se sabe, é tempo de maré de extremos. No dia anterior, a maré alta tinha chegado a se esparramar de ponta a ponta em alguns trechos da rua. De manhãzinha a baixa-mar descobrira todas as coroas de areia, promessa de fartura. Para completar a alegria das marisqueiras, era véspera da Sexta-Feira Santa, garantia de vendagem fácil, quando ninguém na Ilha dispensa uma boa moqueca ou frigideira de chumbinho, ou de maria-preta, ou de siri, ou de peguari, e se na casa houver uma Noêmia não será de apenas um ou outro, será de todos, além do peixe, camarão e bacalhaus, porque para ela o muito é pouco.
Noêmia, ou Lourinha como é mais conhecida, é uma dessas pessoas especiais que encontrei em Itaparica.  Gente assim é rara, mas tenho tido a sorte de ter encontrado várias destas raridades, ao longo da vida. Cem por cento itaparicana, Noêmia conhece todo mundo, sabe de tudo que acontece e trabalha como ninguém. Com seus 56 anos de idade é mais forte que muito homem e centenas de jovens juntos. Depois de passar a manhã toda agachada sob sol forte mariscando, põe o balde cheio de conchas na cabeça e sobe ladeira, anda quilômetros pra chegar em casa e depois volta para pegar igualmente pesado saco cheio dos mariscos refazendo todo o trajeto. Parece não se cansar nunca, muitas vezes após a maratona da mariscagem ainda lava roupa de casa, preparar almoço (adora cozinhar e o seu pirão do escaldado de siri simplesmente divino), limpa a casa dela e do filho  etc e tal. 
Certo dia, chegando aqui em casa e vendo as mangas verdes que alguém implorou para eu comprar, ela disse “estas mangas só prestam para umbuzada!” Surpresa eu pergunto: “umbuzada de manga, Noêmia?, umbuzada é de umbu”. Sem perder a certeza ela afirmou: “É sim, mas também se faz com manga, ora”. Diante da minha risada, completou a receita: “faz sim com leite condensado”. Doutra feita  eu aventava a possibilidade da baixa de pressão ser a causa das vertigens que vinha sentindo, e contei que já mediu 10 por 4,5. E ela, sem se dar conta do que dizia, falou: “Se chegar a zero, morre. Foi assim com o finado...” Rindo, eu nem ouvi o nome do finado.  
E tem os resguardos, as comidas reimosas, as superstições...  É muita coisa pra contar desta grande figura humana, solidária, dedicada, engraçada, mas o tema dessa crônica é o aperreio que ela passou há poucos dias. Bem, era tempo bom para mariscagem. Logo cedo Noêmia, sua irmã Neuza, dona Dita e Nanada chegaram ao Porto dos Milagres e encontraram a canoa de Tiúta com lotação completa. A intenção era ir a Ilha do Medo, mas para não se arriscarem com a superlotação, a turma de Noêmia resolveu ficar na Coroa do Limo. Tiúta, que também ia catar peguari no Dourado, seguiu com as outras marisqueiras, ficando de pegá-las na volta.
As horas passavam, o sol esquentava. De cócoras, ou ajoelhadas, ou mesmo sentadas sobre a areia úmida com fina camada de lodo, mudando de lugar de tempo em tempo, elas se entretinham, no silencioso sossego que reina nas coroas marinhas, a raspar o chão com colher de pedreiro ou algo similar, e a recolher os chumbinhos (molusco bivalve, também conhecido como papa-fumo, burdigão, vôngoli e outros nomes), que com a força da lua, praticamente brotavam, quase não precisando se cavar. Enquanto isso, a maré começou a encher, de inicio quase imperceptível. Mas sorrateira e decididamente avançava engolindo pedaços da coroa, indo na direção delas. Mas cadê Tiúta?
Logo elas já não podiam mariscar, porque as águas tinham coberto tudo. E nada da canoa. Começaram a se inquietar. A água de beber havia acabado bem como o lanche. O sol escaldava e o mar continuava a subir. E nada de Tiúta. Quando as águas invadiram os baldes com os mariscos  catados desconfiaram que estavam em apuros e quando sentiram o mar nos  joelhos, a desconfiança virou certeza. A aflição se instalou,  menos para dona Zita, que sendo evangélica, dizia que Jesus as salvaria. Já em pânico Neuza, Nanada e Noêmia disseram: “fique aí esperando Jesus e não grite não. Esqueceu que Deus disse faça sua parte que lhe ajudarei?” e se puseram a gritar e acenar com panos.
Após muitos gritos e acenos desesperados, enfim foram vista por alguém que estava no cais da antiga fábrica de envasamento da famosa água mineral. Em breve foram resgatadas pelos barqueiros Corante e Ferrugem.  É bem verdade que a coroa fica perto da costa, daí terem sido vistas. É perto, mas não havia como elas atravessarem o fundo canal sem uma embarcação. Quando o canoeiro Túita apareceu elas já estavam em segurança no Porto dos Milagres.
 Abr. 2016