Vasto mundo, coração pequenino
Diante da mortandade que assola o país
entre a pandemia do virus e as queimadas; diante de toda destruição que os
corações duros e os miolos moles vêm propagando no país, meu coração se
confrange. Nele ressoa os choros, os
gemidos, os gritos, os urros, as dores de gentes, bichos, plantas, da vida
massacrada pela vã ganância de loucos endemoniados. Pobres coitados, que insaciavelmente
no afã de preencher o vazio existencial com riqueza e poder, tornam-se sádicos sociais e
estupidificam-se ao ponto de se infelicitar
e a matar a si mesmos.
Uma sociedade onde a crueldade impera é
uma sociedade gravemente doente e numa sociedade insalubre todos são afetados
de alguma forma, mesmo os ricos poderosos, nem que apenas pelo medo. Na terra
continuamente saqueada haverá de fatalmente faltar ar, água, alimento até para
os próprios saqueadores, que como Midas descobrirão tarde demais, que não se
come, nem se bebe nem se respira ouro. Meu coração se desmantela sob o peso das dores
todas, seja de pesar, de desgosto e da indignação.
Lembro do poema Mundo Grande de Carlos Drummond de Andrade e, como
ele, constato quão pequeno é meu coração, “nele não cabem nem as minhas dores”,
quanto mais as do mundo. “Sim, meu coração é muito pequeno. /Só agora vejo que nele não cabem os
homens”. Tendo visto “... as diferentes
cores dos homens / as diferentes dores dos homens”, sinto “...como é difícil
sofrer tudo isso, amontoar tudo isso /num só peito de homem... sem que ele
estale”. E o meu estala.
Mas eis que recebo
mensagem de um querido casal amigo dando notícias do festival da primavera realizado,
no final de semana, nos recônditos das montanhas de Piatã, Chapada Diamantina Dizem-me
que foram muitas radiações de positividade, de alegria e que queriam me
transmitir isso. Ressaltam que “Todas as notícias do mundo são noticias de
tristeza, de padecimentos coletivos, de violentações à natureza, mas o que
interessa é a positividade dos que confiam na vida, dos que confiam na
divindade.” Sim, entendo, porque a vida é maior que a humanidade e há uma
sabedoria plena, que não alcançamos, regendo o mundo.
Como a atestar,
junto à mensagem dos amigos, vem a do ventinho que entra pelas janelas a avisar
que começou a chover sobre as queimadas do pantanal. Ventinho ameno da
primavera que se inicia a me chamar para
ver as primeiras flores dos cajueiros, promissão de farta safra, o planar do gavião, os joões-de-barro a espiar da varanda da sua
casinha no poste, o ágil mergulho dos sabiás para pegar ração no prato dos
gatos, o voozinho de duas pequeninas borboletas amarelas, os leves alvos finos floquinhos de nuvens a
flanar no azul perfeito.
Volto ao poema de
Drummond, e leio os últimos versos: “Meus amigos foram às ilhas. / Ilhas perdem
o homem. /Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia /de que o mundo,
o grande mundo está crescendo todos os dias, /entre o fogo e o amor. /Então,
meu coração também pode crescer. /Entre o amor e o fogo, /entre a vida e o
fogo, /meu coração cresce dez metros e explode. /- Ó vida futura! Nós te
criaremos.” E ponho a sonhar com essa vida futura, renascida com o aprendizado
das cinzas dos erros atuais.
E já vejo todo
mundo tendo garantido renda básica, assistência à saúde, educação, moradia de
boa qualidade e oportunidades iguais. Vejo latifúndios divididos e
distribuídos; as monoculturas e agronegócios substituídos pela produção
diversificada e sem venenos. Vejo reservas indígenas, quilombolas, florestas e
demais biomas realmente preservados. Vejo a Terra sem ricos e nem pobres, sem
consumismos nem indigências, sem superproduções nem desperdiços,
sem posses nem escassez, sem
ostentações nem medos. Ninguém mais dá rasteira nos outros para sobressair-se,
pois todos estão cônscios do seu valor. Vejo a ambição pelo poder devidamente
substituído pela gratificação íntima e a ganância desaparecida na certeza de
que no planeta há o suficiente para todos.
Enfim, vejo
predominar a integração, o cooperativismo, a partilha, a solidariedade, o amor,
o equilíbrio, a harmonização do homem com a natureza, do homem com os outros homens
e dele consigo mesmo. Vejo a humanidade cantar feliz e me pergunto se tal sonho se concretizará? Tomara. Seja como for, os
botões das angélicas estão prestes a se abrirem para perfumar o jardim e a chuva
cai sobre as queimadas.




