quarta-feira, 23 de setembro de 2020


 

Vasto mundo, coração pequenino


 

 

Diante da mortandade que assola o país entre a pandemia do virus e as queimadas; diante de toda destruição que os corações duros e os miolos moles vêm propagando no país, meu coração se confrange.  Nele ressoa os choros, os gemidos, os gritos, os urros, as dores de gentes, bichos, plantas, da vida massacrada pela vã ganância de loucos endemoniados. Pobres coitados, que insaciavelmente no afã de preencher o vazio existencial com riqueza  e poder, tornam-se sádicos sociais e estupidificam-se ao ponto de  se infelicitar e a matar a si mesmos. 

Uma sociedade onde a crueldade impera é uma sociedade gravemente doente e numa sociedade insalubre todos são afetados de alguma forma, mesmo os ricos poderosos, nem que apenas pelo medo. Na terra continuamente saqueada haverá de fatalmente faltar ar, água, alimento até para os próprios saqueadores, que como Midas descobrirão tarde demais, que não se come, nem se bebe nem se respira ouro.   Meu coração se desmantela sob o peso das dores todas, seja de pesar, de desgosto e da indignação. 

Lembro do poema Mundo Grande de Carlos Drummond de Andrade e, como ele, constato quão pequeno é meu coração, “nele não cabem nem as minhas dores”, quanto mais as do mundo.  “Sim, meu coração é muito pequeno. /Só agora vejo que nele não cabem os homens”. Tendo visto  “... as diferentes cores dos homens / as diferentes dores dos homens”, sinto “...como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso /num só peito de homem... sem que ele estale”. E o meu estala.



Mas eis que recebo mensagem de um querido casal amigo dando notícias do festival da primavera realizado, no final de semana, nos recônditos das montanhas de Piatã, Chapada Diamantina Dizem-me que foram muitas radiações de positividade, de alegria e que queriam me transmitir isso. Ressaltam que “Todas as notícias do mundo são noticias de tristeza, de padecimentos coletivos, de violentações à natureza, mas o que interessa é a positividade dos que confiam na vida, dos que confiam na divindade.” Sim, entendo, porque a vida é maior que a humanidade e há uma sabedoria plena, que não alcançamos, regendo o mundo.

Como a atestar, junto à mensagem dos amigos, vem a do ventinho que entra pelas janelas a avisar que começou a chover sobre as queimadas do pantanal. Ventinho ameno da primavera que se inicia a  me chamar para ver as primeiras flores dos cajueiros, promissão de farta safra,  o planar do gavião,  os joões-de-barro a espiar da varanda da sua casinha no poste, o ágil mergulho dos sabiás para pegar ração no prato dos gatos, o voozinho de duas pequeninas borboletas amarelas,  os leves alvos finos floquinhos de nuvens a flanar no azul perfeito.

Volto ao poema de Drummond, e leio os últimos versos: “Meus amigos foram às ilhas. / Ilhas perdem o homem. /Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia /de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias, /entre o fogo e o amor. /Então, meu coração também pode crescer. /Entre o amor e o fogo, /entre a vida e o fogo, /meu coração cresce dez metros e explode. /- Ó vida futura! Nós te criaremos.” E ponho a sonhar com essa vida futura, renascida com o aprendizado das cinzas dos erros atuais.  

E já vejo todo mundo tendo garantido renda básica, assistência à saúde, educação, moradia de boa qualidade e oportunidades iguais. Vejo latifúndios divididos e distribuídos; as monoculturas e agronegócios substituídos pela produção diversificada e sem venenos. Vejo reservas indígenas, quilombolas, florestas e demais biomas realmente preservados. Vejo a Terra sem ricos e nem pobres, sem consumismos nem indigências, sem superproduções nem  desperdiços,   sem posses nem escassez, sem ostentações nem medos. Ninguém mais dá rasteira nos outros para sobressair-se, pois todos estão cônscios do seu valor. Vejo a ambição pelo poder devidamente substituído pela gratificação íntima e a ganância desaparecida na certeza de que no planeta há o suficiente para todos.

Enfim, vejo predominar a integração, o cooperativismo, a partilha, a solidariedade, o amor, o equilíbrio, a harmonização do homem com a natureza, do homem com os outros homens e dele consigo mesmo. Vejo a humanidade cantar feliz e me pergunto se  tal sonho  se concretizará? Tomara. Seja como for, os botões das angélicas estão prestes a se abrirem para perfumar o jardim e a chuva cai sobre as queimadas.

 




sábado, 5 de setembro de 2020

 

A roseira da casa velha



A roseira da casa velha

 

Triste sina das belas casas de outrora, perdidas nas medrosas acimentadas cidades verticais de agora. Tanto fausto, tanto esmero já não formoseiam as ruas. Atrás dos gradis enferrujados, debaixo dos estuques quebrados, elas quedam sem risos, lágrimas, festas, dramas, vozes ou movimentos. Guardam segredos, viram mistério e apenas restam de pouso aos discretos fantasmas. 

Agora, silenciosas, escuras, descascadas só suscitam dó de olhares sensíveis como os da minha amiga Gracinha que me confessou: “Tenho pena de casas assim e do fim que têm.  Aqui no centro da cidade tem umas. Algumas abandonadas, outras demolidas. Uma delas, perto do prédio onde tenho a minha sala, virou arquivo. Fico olhando, olhando. Nesses tempos de pandemia não sei como está”.

Nem sempre tudo é somente ausências e fim. Às vezes, numa casa decrépita, aparentemente sem vida, uma roseira permanece a ornar a velha escada de pedra e a perfumar os ares. Flores florescem sobre túmulos em homenagem ou simplesmente para atestar que a vida continua e bela.  E Gracinha continuou a me contar: “Mas, uma vez eu pedi a um segurança um galhinho de uma roseira antiga que tem lá. Cuidei, cuidei, ela pegou, dá umas rosas lindas, antigas, perfumadas. Por esses dias ela, que sempre dá uma rosa só, deu um buquê com seis! Hoje Zé levou pra Beatriz junto com o almoço que preparei pra eles e ela ficou encantada com a beleza e o perfume. Fiquei muito feliz!”



E eu também fiquei feliz e vou passando essa felicidade através “dessas mal traçadas linhas”. As mãos que plantaram a roseira na casa antiga provavelmente já não existem, mas ainda promovem alegria numa triste manhã de pandemia. Vão no mimo que a mãe confinada envia à filha, firma-se no encantamento de quem recebe a beleza perfumada, prossegue na felicidade que espalha. Sem o saber, essas mãos desconhecidas, e agora invisíveis, cumpriram o dizer de Cecília Meireles: “É bom deixar/ um pouco de ternura e encanto indiferente/ de herança, em cada lugar.”  Assim dá-se a permanência para além das vistas, para além das existências.

No escondido e encadeados das coisas faz-se o milagre. Num dia que não se sabe, alguém plantou uma roseira para mais embelezar casa já bela.  O tempo passou, o alguém se foi, a casa abandonada, envelheceu sem cuidados até parecer morta na mudez da decadência. Mas, ali estava a roseira como coração da casa ainda a pulsar.  E minha amiga Gracinha a viu e levou um galhinho para seu jardim. E o galinho virou roseira. E a roseira deu rosas rosadas, mimosas e perfumadas com soluços, suspiros, sorrisos, sussurros, rumores, impregnadas com todo âmago da casa de outrora. E as rosas fizeram a gente feliz e a casa continuar viva.