segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

 

Corneta na madrugada


        Estava eu no bem bom braços de Morfeu, quando um toque de corneta a toda altura bem na lateral do quarto me fez quase pular da cama. Pela janela da frente vi que o dia mal principiava, caprichando nos dourados sobre o azul entre nuvens brancas com que acenderia o mundo. Belo espetáculo que o sono não me deixava apreciar. Novamente a buzina soou forte. Que diabo será isso? Me perguntei relutando em me levantar. Abri um olho e espiei o celular na mesinha ao lado da cama. Quatro horas. Isso é hora de acordar? então eu sou lá o Zé Marmita? Apesar do sono e da curiosidade em saber que corneta impertinente era aquela, lembrei da marchinha de carnaval:

Quatro horas da manhã

Saí de casa o Zé Marmita

Pendurado na porta do trem

Zé marmita vai e vem

Também não estava em quartel e muito menos me encontrava na Idade Média para ser acordada por corneta de soldado ou por arauto de rei trazendo nova proclamação. Nem o que eu ouvira era toque de despertar de tropa nem de um arauto. A fresca aragem e a serenidade da madrugada vagavam também dentro do quarto.  Voltei a me aconchegar ao lençol, esperando adormece novamente. Mas, quem disse? A buzina soou ainda mais forte e uma outra, um pouco mais longe, respondeu. O jeito foi mesmo me levantar.



        Olhei pela janela do lado, não vi ninguém nem nada que pudesse produzir aquele som. Aproveitei para admirar pela milionésima vez, os longos e grossos tentáculos do cajueiro da vizinha a se espalhar no terreno todo e também o brilhozinho das folhas da aroeira. Lembrei que precisava tirar umas folhas dessa abençoada planta para fazer chá com que tratar o esporão. Mas não seria agora. Não era hora de fazer outra coisa que não fosse dormir.

Nisto a corneta soou novamente. Apurei as vistas. Ainda não estava claro bastante para distinguir qualquer coisa na vegetação apagada, do alto em que eu me encontrava. Tive a impressão de que algo se movera do outro lado da cerca, já na casa vizinha. Algo volumoso demais para ser um gato dos que por aqui vivem. E aquilo não era miado de gato nem no mais caloroso namoro ou briga. Alguém mal intencionado? Quem tivesse uma má intenção não viria fazendo tal alarde. Alguém voltando de um estádio de futebol tocando uma daquelas cornetas de torcida, ou uma criança com brinquedo semelhante? Mas a essa hora?  Pelo visto eu ainda devia estar dormindo, tendo sonhos delirantes. E continuava a tresvariar. Ou seria um bicho selvagem? já que temos uma matinha preservada no fundo do quintal.  Uma onça? Bem, a matinha é só mesmo uma matinha, não daria para tanto. Dava para teiú, jabuti, cobras diversas, tamanduás, mas onça seria um pouco demais. E, embora não estivesse acostumada a ouvir onça, achei que o esturrar dela, apesar de parecido com que eu ouvira, seria mais abafado, menos esganiçado.

       Novo movimento indistinto e novo buzinar. Resolvi descer para descobrir de uma vez por toda que som era aquele. Assim que abri a porta da frente, me deparei com um pássaro gigante pousado no cajueiro. Recuei no susto. O bicho também se assustou e deu um fabuloso voo, por sobre a cerca e a rua indo parar no vizinho de defronte a cornetar. No mesmo instante, do oitão da casa soou outra trombeta como em resposta a anterior, seguido de outro voo espetacular. E mais espetacular ainda, por que indo em direção ao nascente, o metálico verde-azul pavônico rebrilhou no ar à luz da aurora, agora mais intensa. Sim, eram pavões, um casal criado pelos vizinhos, que resolveram nos visitar. Mais uma das inusitadas visitas que recebemos aqui. Seriam benvindos se o horário não fosse impróprio e não viessem tocando corneta de madrugada. Já os ouvíramos de longe, a gente cá e eles lá. Na distância não soavam tão desagradáveis... Como se diz, nada é perfeito. Aves tão exuberantes com voz tão esdrúxula, tanto quanto a própria palavra esdrúxula. Só espero que eles não façam hábito dessa barulhenta visita fora de hora.