Corneta na madrugada
Estava eu no bem bom
braços de Morfeu, quando um toque de corneta a toda altura bem na lateral do
quarto me fez quase pular da cama. Pela janela da frente vi que o dia mal
principiava, caprichando nos dourados sobre o azul entre nuvens brancas com que
acenderia o mundo. Belo espetáculo que o sono não me deixava apreciar. Novamente
a buzina soou forte. Que diabo será isso? Me perguntei relutando em me levantar.
Abri um olho e espiei o celular na mesinha ao lado da cama. Quatro horas. Isso
é hora de acordar? então eu sou lá o Zé Marmita? Apesar do sono e da
curiosidade em saber que corneta impertinente era aquela, lembrei da marchinha
de carnaval:
Quatro horas da manhã
Saí de casa o Zé Marmita
Pendurado na porta do trem
Zé marmita vai e vem
Também não estava
em quartel e muito menos me encontrava na Idade Média para ser acordada por
corneta de soldado ou por arauto de rei trazendo nova proclamação. Nem o que eu
ouvira era toque de despertar de tropa nem de um arauto. A fresca aragem e a
serenidade da madrugada vagavam também dentro do quarto. Voltei a me aconchegar ao lençol, esperando
adormece novamente. Mas, quem disse? A buzina soou ainda mais forte e uma
outra, um pouco mais longe, respondeu. O jeito foi mesmo me levantar.
Nisto a corneta
soou novamente. Apurei as vistas. Ainda não estava claro bastante para
distinguir qualquer coisa na vegetação apagada, do alto em que eu me encontrava.
Tive a impressão de que algo se movera do outro lado da cerca, já na casa
vizinha. Algo volumoso demais para ser um gato dos que por aqui vivem. E aquilo
não era miado de gato nem no mais caloroso namoro ou briga. Alguém mal
intencionado? Quem tivesse uma má intenção não viria fazendo tal alarde. Alguém
voltando de um estádio de futebol tocando uma daquelas cornetas de torcida, ou
uma criança com brinquedo semelhante? Mas a essa hora? Pelo visto eu ainda devia estar dormindo, tendo
sonhos delirantes. E continuava a tresvariar. Ou seria um bicho selvagem? já
que temos uma matinha preservada no fundo do quintal. Uma onça? Bem, a matinha é só mesmo uma
matinha, não daria para tanto. Dava para teiú, jabuti, cobras diversas,
tamanduás, mas onça seria um pouco demais. E, embora não estivesse acostumada a
ouvir onça, achei que o esturrar dela, apesar de parecido com que eu ouvira, seria
mais abafado, menos esganiçado.




