DAS PEQUENAS FELICIDADES NO HOSPITAL
O outono chegou, mas o verão ainda
não se deu conta disso, ou simplesmente resiste em ceder lugar à nova estação.
E os dias continuam longamente azuis, tanto que até após a ‘hora do ângelus’ a
clara luminosidade permanece. É bem verdade que já se percebe o deslocamento do
sol e da lua ao nascer, mas o calor é o mesmo, talvez um pouco mais abrasador
com a diminuição dos ventos, de modo que a epidêmica preguiça assola entre os
habitantes desta denodada cidade de Itaparica. Levantar-se da rede ou da
espreguiçadeira, só mesmo para cair nas águas do mar. Portanto, veio a calhar a
recomendação médica para que continue a repousar após passar os oito dias
hospitalizada.
Deitada na rede, que também
embalança cálidas lembranças, repasso as pequenas felicidades experimentada
durante o internamento. Uma das primeiras lições da arte de viver é aprender a
tirar leite das pedras. A primeira felicidade foi transformar o repetitivo som
do monitor cardíaco em voz de curiango, sendo transportada para chácara de
Monte Gordo, onde na varanda à noite, ouvia-se o curiangar dos bacuraus no meio
da escura estrada de barro entre matos que dava acesso à quinta de mil saudades.
A segunda felicidade, ainda na UTI, também na base da transcendência do real, aconteceu
quando o constrangedor banho-de-gato virou banho de lagoa, ao mentalmente
cantar “ela tomou um banho de água fresca/ no lindo lago do amor/
maravilhosamente clara a água/ no lindo lago do amor”.
A terceira felicidade, foi a chegada
da amada filha e do querido amigo depois de quase 12 horas de solidão na fria
UTI. Que bom, receber o carinho deles! Qualquer coisa assim como a vinda da
primavera, até pude ver flores e ouvir cantar de passarinhos. Tal efeito fez
com que no anoitecer deste mesmo dia eu fosse transferida para o apartamento. As
persianas estavam fechadas, mas no amanhecer, foram suspensas e pude contemplar
uma celestial nesga azul entre dois altos prédios e novamente pude ser feliz. Da
cama podia ver as nuvens virem e passarem naquele estreito céu. Bojudas, aos
flocos, esgarçadas como asas, alvas, brancas acinzentadas, róseas ao
pôr-do-sol, elas passavam e era muito bom ficar assim olhando-as. Senti, parafraseando
Alberto Caeiro, que só
para ver passarem as nuvens, valia a pena ter nascido. A impressão terminou
virando poema sobre nuvens viajeiras. Era a confirmação da influência que a
natureza exerce no psiquismo e na disposição d’alma dos enfermos, o que deveria
ser considerado pelos hospitais, levando-os a pôr claridades (de preferência
naturais) e cores nas instalações, cercando-as de árvores e tendo a janelas dos
quartos voltados para elas.
Não se pense com isso, que tudo
correu a mil maravilhas, que me encontrei num mar de rosas. Ninguém permanece
num hospital por tantos dias impunemente. Houve momentos de apreensões e
tristeza relativas ao problema de saúde e às questões de foro íntimo. Mas
tristeza é coisa pra se afugentar e não pra acolher, portanto melhor voltar às
pequenas felicidades. Outro momento de especial contentamento se deu quando
depois de três dias, o acesso colocado na jugular foi retirado e, com o pescoço
livre, pude tomar um maravilhoso banho da cabeça aos pés. O chuveiro de jato
muitíssimo forte era uma cascata a massagear o corpo com choquinhos vibratórios.
Que felicidade, o contato com aquela deliciosa água, a sensação de libertação e
de volta à vida!
Não era a liberdade total, fiquei lá
por mais três dias aguardando o laudo do holter
e avaliação final do arritmologista, quando, enfim, pude receber alta. As
pequenas felicidades já experimentadas e leitura das aventuras de Alice Através
do Espelho, o primor do nonsense de Lewis Carol, tornaram esta espera
suportável embora tendo leves crises de arritmia, motivo de alguma preocupação.
Por acréscimo, no caminho de volta para casa, deparei-me logo ao desembarcar da
lancha, com o pé do abricó-de-macaco florido e já com alguns frutos, na praça
de Mar Grande. Belíssima visão que tomei como saudação de boas-vindas. Mais uma
pequena felicidade como foi ainda a seguida gentileza do motorista da topic que
de longe veio pegar minha sacola e me deixou na porta de casa, além do bom
astral dos demais passageiros que compreenderam e tiveram paciência com a
mulher que encheu o veículo com materiais de construção, inclusive alisares de
portas e janelas. Estava de volta e a minha alegria parecia contagiar a todos.
Aos poucos vou voltando às minhas atividades normais com a satisfação de
ter experimentado todas estas pequenas
felicidades, através das quais se chega à
felicidade plena e ao domino
da arte de viver.

