A BORBOLETA AZUL
O
sol brilhava, as folhas do pau-brasil rebrilhavam, os
sanhaços cantavam à cata das derradeiras frutinhas nos galhos mais altos da
pitangueira. Era uma manhã luminosa, mas o dia nada prometia. Havia até certa melancolia
no ar. Melancolia advinda talvez do arrefecer da esperança ante as absurdas
notícias do mundo, ou da falta que o amado deixara, ou da saudade dos antigos serões
com os filhos, ou da sentida solidão que acompanha aqueles que fogem dos
padrões instituídos, ou de um monte de coisas ou de coisa nenhuma, talvez sendo
apenas um dos muitos inexplicáveis que residem nas almas.
Ensaiou
cantar, mas o canto soou triste, embora a canção tratasse de céu e mar. Saiu ao
jardim para pôr bananas e alpiste sobre o muro coberto de hera, onde os
passarinhos já costumeiramente procuravam o de comer. E foi por ali que o
esplêndido inesperado aconteceu. Voltava para dentro de casa, andando sobre a
grama, um tanto alheada. Talvez estivesse num raríssimo instante em que nada se
pensa (vixe, quanto talvez!). Aí de repente, não mais que de repente, como
diria o poeta, tal qual uma aparição, uma borboleta azul passou. Uma borboleta
azul do tamanho dum palmo de mão média, voando baixo, bem próxima, sem pressa,
serenamente solitária.
Era
de um perfeito azul metálico fluorescente, uma borboleta quase extinta de tão
caçada para virar paisagens em suvenires de turistas. Mais surpreendente ainda era ser espécie
típica de floresta e, portanto, não comum por estas bandas litorâneas. No
entanto por ali passara, vinda não se sabe donde, indo para não se onde, como
afinal todos nós apesar das várias conjeturas sem certezas. Como, por que
aquela borboleta viera parar, ou melhor, passar por ali? Esta era típica indagação
que ficaria no rol das perguntas sem reposta. Não
importava.
No
rastro do voo azul, como que espargido por varinha de condão, o mundo todo foi
ficando azul e uma cantiga muito antiga ecoou: “Voa,/ minha linda borboleta/ Voa,/ Procurando a ilusão! / Voa, / Pois a vida é tão boa / Quando se tem / Um amor no
coração!” Ecoou no jardim e mais efetivamente no coração, tal qual acontecerá naquela longínqua tarde no
teatro enquanto uma borboleta azul voava pelo palco. Ele não se lembrava de
quase nada da peça, que nubladamente lhe parecia ter sido um teatro de bonecos,
se bem que se passasse no palco principal. Deste detalhe lembrava-se, assim
como do encanto que sentira também ao subir a majestosa escada com tapete vermelho,
especialmente se comprazendo com o tinido que sua pulseira fazia ao bater no corrimão
de metal dourado. Sabia que ficara embevecida, mas não recordava das cenas, a
não ser a do voo da borboleta acompanhado da canção que agora, além do refrão, lhe
sobrevinha o começo: “Certa
manhã, / Dessas manhãs cheias de luz,
/ Por entre as rosas do jardim, / Eu vi passar/ Gentil
borboleta de asas azuis, / E o seu voo
incerto / Me fez pensar .....”
E ela
acabara de ver passar uma gentil borboleta de asas azul nesta manhã cheia de
luz e se punha a pensar. A singular
beleza, realçada pela surpresa, mistério e raridade, encantara, intrigara e transformará
o dia, bem nos conformes da simbologia atribuída às borboletas azuis. Sendo
lagarta que se transforma em borboleta, inseto que rasteja por um bom tempo e se
torna alado e ascende ao espaço, a borboleta
é associada aos processos de metamorfose, viagem,
libertação, morte e renascimento, à ascensão espiritual.
A larva
cumpre estágio ninfal em crisálida, antes de poder voar por sobre onde antes se
arrastara. O ser que se dispõe a ascender espiritualmente precisa, com humildade,
passar por período de ensimesmamento, de exercitar a paciência, de ter a mesma coragem
para romper o casulo, os casulos das convenções, complexos, traumas,
preconceitos, ressentimentos, melindres, apegos, medos, e, como a borboleta,
ter força para desenrugar as asas e enfim, elevar-se liberto. E voando livre,
vai vendo o mundo e a vida de jeito mais sensível, com encantamento, ternura e
compaixão. O processo para chegar-se a isso é longo e exaustivo, mas naquele
instante, em que uma surpreendente borboleta azul passou num cantinho de jardim
bem junto de quem a viu, fez-se instantâneo, ainda que sem garantia da definitiva
permanência do estado de graça.

Lindo Gilka! Visualmente mágico, instante de paz!
ResponderExcluirLindo Gilka! Visualmente mágico, instante de paz!
ResponderExcluirFico contente por ter transmitido sensação de paz. Muito obrigada Barbara
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