quarta-feira, 2 de março de 2016

A BORBOLETA AZUL


                             

O sol brilhava, as folhas do pau-brasil rebrilhavam, os sanhaços cantavam à cata das derradeiras frutinhas nos galhos mais altos da pitangueira. Era uma manhã luminosa, mas o dia nada prometia. Havia até certa melancolia no ar. Melancolia advinda talvez do arrefecer da esperança ante as absurdas notícias do mundo, ou da falta que o amado deixara, ou da saudade dos antigos serões com os filhos, ou da sentida solidão que acompanha aqueles que fogem dos padrões instituídos, ou de um monte de coisas ou de coisa nenhuma, talvez sendo apenas um dos muitos inexplicáveis que residem nas almas.
Ensaiou cantar, mas o canto soou triste, embora a canção tratasse de céu e mar. Saiu ao jardim para pôr bananas e alpiste sobre o muro coberto de hera, onde os passarinhos já costumeiramente procuravam o de comer. E foi por ali que o esplêndido inesperado aconteceu. Voltava para dentro de casa, andando sobre a grama, um tanto alheada. Talvez estivesse num raríssimo instante em que nada se pensa (vixe, quanto talvez!). Aí de repente, não mais que de repente, como diria o poeta, tal qual uma aparição, uma borboleta azul passou. Uma borboleta azul do tamanho dum palmo de mão média, voando baixo, bem próxima, sem pressa, serenamente solitária.
Era de um perfeito azul metálico fluorescente, uma borboleta quase extinta de tão caçada para virar paisagens em suvenires de turistas.  Mais surpreendente ainda era ser espécie típica de floresta e, portanto, não comum por estas bandas litorâneas. No entanto por ali passara, vinda não se sabe donde, indo para não se onde, como afinal todos nós apesar das várias conjeturas sem certezas. Como, por que aquela borboleta viera parar, ou melhor, passar por ali? Esta era típica indagação que ficaria no rol das perguntas sem reposta. Não importava.
No rastro do voo azul, como que espargido por varinha de condão, o mundo todo foi ficando azul e uma cantiga muito antiga ecoou: “Voa,/ minha linda borboleta/ Voa,/ Procurando a ilusão! / Voa, / Pois a vida é tão boa / Quando se tem / Um amor no coração!” Ecoou no jardim e mais efetivamente no coração, tal qual acontecerá naquela longínqua tarde no teatro enquanto uma borboleta azul voava pelo palco. Ele não se lembrava de quase nada da peça, que nubladamente lhe parecia ter sido um teatro de bonecos, se bem que se passasse no palco principal. Deste detalhe lembrava-se, assim como do encanto que sentira também ao subir a majestosa escada com tapete vermelho, especialmente se comprazendo com o tinido que sua pulseira fazia ao bater no corrimão de metal dourado. Sabia que ficara embevecida, mas não recordava das cenas, a não ser a do voo da borboleta acompanhado da canção que agora, além do refrão, lhe sobrevinha o começo: “Certa manhã, / Dessas manhãs cheias de luz, / Por entre as rosas do jardim, / Eu vi passar/ Gentil borboleta de asas azuis, / E o seu voo incerto / Me fez pensar .....”
E ela acabara de ver passar uma gentil borboleta de asas azul nesta manhã cheia de luz e se punha a pensar. A singular beleza, realçada pela surpresa, mistério e raridade, encantara, intrigara e transformará o dia, bem nos conformes da simbologia atribuída às borboletas azuis. Sendo lagarta que se transforma em borboleta, inseto que rasteja por um bom tempo e se torna alado e ascende ao espaço, a borboleta é associada aos processos de metamorfose, viagem, libertação, morte e renascimento, à ascensão espiritual.
A larva cumpre estágio ninfal em crisálida, antes de poder voar por sobre onde antes se arrastara. O ser que se dispõe a ascender espiritualmente precisa, com humildade, passar por período de ensimesmamento, de exercitar a paciência, de ter a mesma coragem para romper o casulo, os casulos das convenções, complexos, traumas, preconceitos, ressentimentos, melindres, apegos, medos, e, como a borboleta, ter força para desenrugar as asas e enfim, elevar-se liberto. E voando livre, vai vendo o mundo e a vida de jeito mais sensível, com encantamento, ternura e compaixão. O processo para chegar-se a isso é longo e exaustivo, mas naquele instante, em que uma surpreendente borboleta azul passou num cantinho de jardim bem junto de quem a viu, fez-se instantâneo, ainda que sem garantia da definitiva permanência do estado de graça.



3 comentários:

  1. Lindo Gilka! Visualmente mágico, instante de paz!

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  2. Lindo Gilka! Visualmente mágico, instante de paz!

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  3. Fico contente por ter transmitido sensação de paz. Muito obrigada Barbara

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