COISAS DA ILHA 2 – VISÃO MÁGICA
Após ganhar o dia com um maravilhoso banho de mar numa
belíssima manhã de janeiro e com a gentil espontaneidade de pessoas
desconhecidas, sentei num banco sombreado para ainda contemplar o mar. E aí,
fui ainda mais agraciada com a visão dos saveiros de vela de içar.
Os magníficos saveiros entravam no canal. Provavelmente viam
de Salvador, rumo a Cacha Prego ou Maragogipe ou Maragogipinho ou
Jaguaripe. Dois de uma só vez, quando
ver apenas um hoje em dia é o mesmo que achar trevo de quatro pétalas, ou um
cavalo marinho. Garantia de sorte. No caso, sorte de ver a poesia viva.
Sim, o saveiro — esteticamente perfeito nas linhas do casco determinadas pelo
graminho e no formato das velas de sensuais ondulações — é poesia
materializada. Poesia largada ao vento e à destreza dos mestres saveiristas de
tantos causos, como os contados por Jorge Amado no romance Mar Morto, recém
lido.
Como Álvaro de Campos na “Ode Marítima” deixo-me levar pela
visão das embarcações com suas sedutoras velas pandas e também entro no delírio
que as coisas do mar provocam quando longamente observadas. Entrego-me ao devaneio e vivo histórias.
Enfrento tempestade. Como o Mestre Memeu, passo a noite toda agarrado ao que
sobrou do saveiro naufragado, esperando por socorro. Ponho-me no lugar da
mulher que de olhos fitos no mar aguarda seu homem chegar. Com esforço hercúleo
iço a grande vela com a carangueja. Sou
viúva do mestre que Janaína levou a percorrer mundos sem fim. Vejo os cabelos
de Janaína estendidos no rio em noites de lua cheia. Amo e sou amada sobre o
tijupá sob o céu estrelado. Canto cantigas praieiras para ninar o meu homem ou
estimulá-lo a vencer a corrida de saveiros. Vejo o cavalo assombrado que em
certas noites escuras cavalga pelas margens do rio. E também conto causos da
gente do mar, vistos, ouvidos, inventados, tal e qual Francisco, personagem do
“Mar Morto”, um velho mestre aposentado que a mãe d’água deixou escapar.
Também me entrego às lembranças das viagens feitas nos
saveiros de vela de içar. Somente duas, mas determinantemente inesquecíveis. Uma no Nuvem Azul, saveiro de Bitonho que
dividia a cana do leme com Tuzinho, na
década de 70, indo pelo mar, do cais da feira do jardim Cruzeiro para Mutá. Era
bela tarde de verão de vento farto. O Nuvem Azul deslizava. Em dados momentos,
rápidas manobras de velas a nos fazer mudar de lado para contrabalançar peso.
Para completar tinha as conversas dos homens do mar, caninha em canequinha de
esmalte e feijoada preparada a bordo em fogareiro de carvão. Tinha a nossa
juventude achando tudo maravilhoso. Daquela vez só faltou o café que
curiosamente eles preparam sem coar, bastando jogar uma brasa dentro do café pronto
para decantar o pó.
A segunda viagem, mais
recente, foi no famoso Sombra da Lua (patrimônio cultural brasileiro tombado
pelo Iphan), indo do Porto da Pedra a São Roque do Paraguaçu pelo Rio Guaí, com
mestre Jorge no comando. Ao contrário da
outra, a tarde era nublada e de soareia, obrigando o bordejo em ziguezague na caça
de vento e até mesmo varejadas em alguns trechos. O saveiro indo lentamente
parecia se espreguiçar sem nenhuma pressa em chegar. E um percurso que
normalmente dura duas a três horas, durou seis. Até bom, dando tempo para se
ver bem a paisagem passante, para conversa fiada, para sonhar, para aprender a não ter pressas e a se deixar
reger pelos ventos. O sol se pôs deixando laivos alaranjados a se extinguir. O
friozinho veio trazendo a lua a fazer caminho pro saveiro avançar. Neste
momento foi servido o aipim cozido que havia sido colhido na hora do embarque.
E a nave ia, ia bordejando dentro da noite. Como agora ia minha alma nas
esteiras daqueles dois saveiros passantes, já distantes, nesta manhã de verão
no canal de Itaparica.
19.01.2019





