domingo, 27 de janeiro de 2019



COISAS DA ILHA 1 – ALGUMAS NOTA



No Ferry-boat Zumbi dos Palmares apinhado, ar condicionado sem funcionar, um calor dos infernos e de repente alguém em alto e bom som anuncia ventilador ecologicamente correto. A voz se aproxima e surge o vendedor de leques. No rosto  o sorriso e nas mãos vários coloridos leques abertos. Ao notar a curiosidade de uma senhora, para diante dela e a abana com o leque dizendo que era um “teste driver”. E o mau humor dos suarentos passageiros se desfaz em risos. Como diria Fernando Pessoa. “Assim a brisa / nos ramos diz, / sem o saber,/ uma  imprecisa,/ coisa feliz”.

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O céu estava cinzento, mas não o suficiente para reter os raios do sol de modo que assim que chegamos à praia dos tamarindeiros – na baixa-mar ali era o melhor lugar para o banho – nos aboletamos nas cadeiras debaixo de um sombreiro. Pedimos o de beber ao menino da barraca, nos dispondo a exercitar a nobre arte de não fazer nada, tão glorificada por João Ubaldo Ribeiro.  Ficamos bestando, conversa mole, olhando o entorno. Dois meninos bem pequenos disputavam uma bola, o tempo todo dominada pelo o de sunga azul, restando ao outro apenas as malogradas tentativas de alcançá-la. 
Apareceu uma menina oferecendo acarajés. Logo outra mocinha chegou também oferecendo acarajés, quase atropelando a concorrente. Não gostamos do modo dela e confirmamos o pedido com a primeira. Bebemos, tomamos banho, catamos alguns plásticos da areia da praia, os acarajés chegaram. Ainda não tínhamos acabado de comer a porção dos mágicos bolinhos de feijão quando a segunda vendedora reapareceu trazendo num pratinho uma amostra do seu produto, dizendo que era para a gente experimentar a qualidade dos acarajés  e numa próxima vez dar preferência a ela.
Provamos e aprovamos e quando ela voltou novamente não podemos dispensar o elogio. Os acarajés dela eram melhores sim. A cabocla sorriu e entabulamos longo bate papo. Eficiente na jogada de marketing e do empreendedorismo, ela também se revelou mulher de garra, que cuida de marido, filho, casa, vende acarajés, faz faculdade de gastronomia e ainda executa esporadicamente serviços de soldagem. Apesar da pouca idade tem grande experiência profissional como soldadora, tendo trabalhado para algumas empresas terceirizadas da Petrobrás. E além de tudo é uma boa contadora de história, nos deliciamos com os casos do seu velho pai forte, teimoso e mulherengo.

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Belíssima manhã de janeiro. Agora sozinha chego ao Jardim dos Veranistas, ou dos Namorados, como queiram. O mar está naqueles dias em que se excede em beleza, como diria o Sr. Vital. Verde azulado, transparente e calmo. Só no meu coração as ondas crescem, ondas de amor que sempre se formam diante do bem e do belo. Aproximo-me da beira do cais. A maré está vazando, mas a coroa e a praia ainda estão cobertas, água chegando até a base da murada. Olho a escadinha dupla. De dentro do mar, um homem que comanda a brincadeira de três meninos me alerta para descer pelo lado direito, o mais seguro, onde os degraus estão em bom estado e tem corrimão.
Digo-lhe que estava apenas procurando lugar para deixar a saída de praia.  Então ele fala para eu pôr a roupa na bicicleta dele, ali encostada. “Ninguém bole não”.  Prontamente atendi e entrei no mar. Andei, andei, procurando maior fundura, mas a água não passava da cintura. Mergulhei, boiei mirando o azul celeste mais-que-perfeito. Felicidade. Mais uma vez a constatação de quão pouco se precisa para se ser feliz. A vontade era ficar, ficar, ficar, porém com o sol quase a pino era preciso sair. Sempre é preciso sair de algum lugar ou de algo. E andei de volta. O dono da bicicleta estava agora ao pé da escada. Comentei que embora o desejo fosse de continuar ali gozando daquela maravilha, tinha de ir porque estava sem protetor solar.  E com a mais gentil boa vontade do mundo, ele propõe.
— A senhora quer ficar? Posso mandar o meu neto buscar o protetor solar, moro logo ali na rua detrás.
— Não, precisa não, muito obrigada. — Agradeci maravilhada com tamanha espontânea delicadeza.  Ele ainda insistiu dizendo que era rapidinho, mas afirmei que já curtira bastante. Conversamos um pouco, contou que estava com 28 pessoas em casa, falamos sobre saúde, modo de viver e Itaparica. Segui meu caminho e após primeiros passos encontrei uma senhora que com a mesma espontaneidade puxou conversa, falando sobre filhos, netos, educação e filosofia de vida.  O dia estava ganho, mas teve mais. Despedindo-me dela sentei num banco sombreado para ainda contemplar o mar. E aí, mais uma dádiva, que fica para a próxima crônica.
19.01.2019










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