O Mistério dos Peixes
Praia da Coroa, local do caso
Estes
meus amigos!... Um dia ainda vou escrever um livro, que ficará enorme,
descrevendo cada um e suas peripécias. Já me disseram que tenho vocação para
atrair doidos, talvez por sina ou porque os iguais se atraem. Seja como for, eu
digo que ainda bem, porque os que são absolutamente normais costumam ser chatos
de galochas. E a doidice é mansa, tendo a ver com jovialidade, com criancice,
com elã. Coisa que fez meu filho concluir que, independente da idade acumulada,
as pessoas continuam as mesmas com incertezas, paixões, em estado de constante experimentação,
portanto sujeitos a erros, acertos e atitudes infantis ou loucas, ‘aprontando
todas’.
Vejam
vocês e tudo isso para contar a última façanha do meu amigo Roberto, o Beto da
Coroa de Vera Cruz e das coroas. Amante dos bichos, das plantas, das
brincadeiras e de também da esbórnia, como ele mesmo denomina a bebedeira de
fim de semana, quando realiza a Caminhada Alcoológica. Agora restrita
aos sábados e domingos, conforme ele explica: “As sextas-feiras já tirei do Curriculum há quase dois anos. Estou
ficando veínho. A saúde ainda está boa, não vou estragá-la”
Na semana
passada a Caminhada Alcoológica de domingo, resultou no mistério dos
peixes. A peregrinação etílica começou de leve no Bar do Gege com três cervejas pequenas. O esquentamento
continuou na Barraca Buraco Doce com duas cervejas grandes.
No Bar da Fátima (Gaga) mais duas cervejas, completadas com Jatobá
gelada (cachaça com casca de jatobá). No Bar de Leo, mais cervejas e duas
salinas. pequenas. Salinas é uma
cachaça “especial” de Minas Gerais.
E a romaria prosseguiu com muita conversa fiada e paradas nas Barracas de
Dinho e de Sonia para mais jatobá e
cerveja e, por fim, em Osnir e Nalvinha para os vários cafezinhos, ou
seja, mistura de café, erva-doce, cachaça,
pau pereira, pau tenente ( “não do tenente, viu.” Ele adverte) e outros
ingredientes, que Nalvinha, não revela de jeito nenhum. Bem, depois de cumprir
tamanha missão etílica, lá seguiu Beto pra casa, ao entardecer, contando com
amparo do seu anjo-da-guarda para não tropeçar nem perder o rumo ou o prumo.
Nem deu pra entrar em casa, escornou na rede da
varanda. Gata sobre a barriga e o cão debaixo da rede. Enfim, bem protegido. Lá
para as tantas se levantou decidido a ir para cama. Antes de entrar em casa notou
um volume sobre a mesa. Oxente, o que era aquilo?, surpreso, se perguntou. Ao tocar no saco plástico, sentiu que estava
gelado. Abriu. Lá estavam alguns peixes de cerca de 20 cm, limpos e tratados.
Ele não tinha a menor ideia de como aqueles peixes foram parar ali. Não era do
seu feitio comprar peixes quando em farra. E vieram as conjecturas. Teria
comprado por insistência de algum pescador?
Teria encontrado o saco dependurado na grade do portão e ele, meio bebum,
levou pra dentro quando chegou? E se
tivesse afanado de alguém com quem estivera bebendo? Ficou preocupado. Já era
muito tarde para sair e investigar.
Colocou os peixes no congelador para não estragar, resolvido a esclarecer no
dia seguinte.
Logo cedo saiu para desvendar o mistério dos peixes
aparecidos em sua varanda. Voltou aos
mesmos bares, fazendo perguntas. Não, ninguém o tinha visto com saco de peixe
na chegada ou na saída. Cada vez ficava mais intrigado. De repente avistou um
pescador seu conhecido. Resolveu sondá-lo e disse:
— Olá, os peixes estavam ótimos!
— Que peixes? — O pescador indagou.
Xiii, não, fora o pescador que lhe dera ou vendera
os peixes; E agora? Já tinha perguntado a tanta gente!... Teria esquecido de
alguém? Não poderia mesmo lembrar de todas as pessoas que encontrara e batera
papo nas barracas de praia movimentadas nos finais de semana da Ilha. Depois de
muito pensar, achou que o jeito era esperar que alguém, chegasse para ele e
perguntasse: “Aí, gostou dos peixes”. Mas até o meio da semana, quando ele me
contou essa história, ninguém lhe tinha feito tal pergunta e o mistério dos
peixes continuava.
Só lhe restava esperar pelo próximo fim de semana,
quando com certeza, segundo ele, iria aparecer quem lhe fizesse a tal indagação
reveladora durante a sua habitual Caminhada Alcoológica. Enquanto isso
os peixes permaneciam no congelador, que ele não ia correr o risco de comer
peixes de procedência desconhecida. Mas o fim de semana veio e passou e ninguém
perguntou pelo peixe e a quem ele indagava,
não sabia de nada. Nem os peixes no congelador falavam. O enigma parecia insolúvel.
Foi aí que ele lembrou de dona Zizi, velhinha de 98
aninhos para quem ele fazia um favor. Certo dia ele conseguiu bem mais barato um remédio que ela comprava todo
mês. Daí em diante ela sempre muito agradecida pede para ele comprar. Por mera intuição, ligou para a filha da
velhinha. E enfim, o mistério se desfez. Fora a Dona Zizi que mandara o bisneto
levar os peixes de presente, entregando-o na porta de sua casa, por volta das 19 hs, quando ele regressava
da Caminhada Alcoológica.






