domingo, 23 de fevereiro de 2020


O Mistério dos Peixes

                                                                                                                  Praia da Coroa, local do caso  

Estes meus amigos!... Um dia ainda vou escrever um livro, que ficará enorme, descrevendo cada um e suas peripécias. Já me disseram que tenho vocação para atrair doidos, talvez por sina ou porque os iguais se atraem. Seja como for, eu digo que ainda bem, porque os que são absolutamente normais costumam ser chatos de galochas. E a doidice é mansa, tendo a ver com jovialidade, com criancice, com elã. Coisa que fez meu filho concluir que, independente da idade acumulada, as pessoas continuam as mesmas com incertezas,  paixões, em estado de constante experimentação, portanto sujeitos a erros, acertos e atitudes infantis ou loucas, ‘aprontando todas’.
Vejam vocês e tudo isso para contar a última façanha do meu amigo Roberto, o Beto da Coroa de Vera Cruz e das coroas. Amante dos bichos, das plantas, das brincadeiras e de também da esbórnia, como ele mesmo denomina a bebedeira de fim de semana, quando realiza a Caminhada Alcoológica. Agora restrita aos sábados e domingos, conforme ele explica: “As sextas-feiras já tirei do Curriculum há quase dois anos. Estou ficando veínho. A saúde ainda está boa, não vou estragá-la” 
Na semana passada a Caminhada Alcoológica de domingo, resultou no mistério dos peixes. A peregrinação etílica começou de leve no Bar do Gege com três cervejas pequenas. O esquentamento continuou  na Barraca  Buraco Doce com duas  cervejas grandes. No Bar da Fátima  (Gaga)  mais duas  cervejas, completadas com Jatobá gelada  (cachaça com casca de jatobá). No Bar de Leo, mais cervejas e duas salinas.  pequenas.  Salinas é uma cachaça “especial” de Minas Gerais.
E a romaria prosseguiu com  muita conversa fiada e paradas nas Barracas de Dinho e de Sonia para mais  jatobá  e  cerveja e, por fim, em Osnir e Nalvinha para os vários cafezinhos, ou seja,  mistura  de café, erva-doce, cachaça,  pau pereira, pau tenente ( “não do tenente,  viu.” Ele adverte) e outros ingredientes, que Nalvinha, não revela de jeito nenhum. Bem, depois de cumprir tamanha missão etílica, lá seguiu Beto pra casa, ao entardecer, contando com amparo do seu anjo-da-guarda para não tropeçar nem perder o rumo ou o prumo.
Nem deu pra entrar em casa, escornou na rede da varanda. Gata sobre a barriga e o cão debaixo da rede. Enfim, bem protegido. Lá para as tantas se levantou  decidido  a ir para cama. Antes de entrar em casa notou um volume sobre a mesa. Oxente, o que era aquilo?, surpreso, se perguntou.  Ao tocar no saco plástico, sentiu que estava gelado. Abriu. Lá estavam alguns peixes de cerca de 20 cm, limpos e tratados. Ele não tinha a menor ideia de como aqueles peixes foram parar ali. Não era do seu feitio comprar peixes quando em farra. E vieram as conjecturas. Teria comprado por insistência de algum pescador?  Teria encontrado o saco dependurado na grade do portão e ele, meio bebum, levou pra dentro quando chegou?  E se tivesse afanado de alguém com quem estivera bebendo? Ficou preocupado. Já era muito tarde para  sair e investigar. Colocou os peixes no congelador para não estragar, resolvido a esclarecer no dia seguinte.


Logo cedo saiu para desvendar o mistério dos peixes aparecidos em sua varanda.  Voltou aos mesmos bares, fazendo perguntas. Não, ninguém o tinha visto com saco de peixe na chegada ou na saída. Cada vez ficava mais intrigado. De repente avistou um pescador seu conhecido. Resolveu sondá-lo e disse:
— Olá, os peixes estavam ótimos!
— Que peixes? — O pescador indagou.
Xiii, não, fora o pescador que lhe dera ou vendera os peixes; E agora? Já tinha perguntado a tanta gente!... Teria esquecido de alguém? Não poderia mesmo lembrar de todas as pessoas que encontrara e batera papo nas barracas de praia movimentadas nos finais de semana da Ilha. Depois de muito pensar, achou que o jeito era esperar que alguém, chegasse para ele e perguntasse: “Aí, gostou dos peixes”. Mas até o meio da semana, quando ele me contou essa história, ninguém lhe tinha feito tal pergunta e o mistério dos peixes continuava.
Só lhe restava esperar pelo próximo fim de semana, quando com certeza, segundo ele, iria aparecer quem lhe fizesse a tal indagação reveladora durante a sua habitual Caminhada Alcoológica. Enquanto isso os peixes permaneciam no congelador, que ele não ia correr o risco de comer peixes de procedência desconhecida. Mas o fim de semana veio e passou e ninguém perguntou pelo peixe  e a quem ele indagava, não sabia de nada. Nem os peixes no congelador falavam. O enigma parecia insolúvel.
Foi aí que ele lembrou de dona Zizi, velhinha de 98 aninhos para quem ele fazia um favor. Certo dia ele conseguiu  bem mais barato um remédio que ela comprava todo mês. Daí em diante ela sempre muito agradecida pede para ele comprar.  Por mera intuição, ligou para a filha da velhinha. E enfim, o mistério se desfez. Fora a Dona Zizi que mandara o bisneto levar os peixes de presente, entregando-o na porta de  sua casa, por volta das 19 hs, quando ele regressava da Caminhada Alcoológica.



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