sexta-feira, 19 de março de 2021

 

         Porque as folhas luzem


        Ontem, no final da tarde as primeiras cigarras anunciaram a aproximação do outono. Hoje, sob o sol dos últimos dias de verão, as folhas luzem e reluzem, espargindo luz a consolar e acalentar os corações confrangidos neste tempo de dores e desesperanças. Quem dera que todos tivessem assim, uma janela aberta para aroeira, cajueiro, coqueiro, pau-brasil, qualquer planta refratora.  Por certo teriam novo alento para essa difícil travessia.

Sim, verdade que a luminosidade não devolve as perdas, mas mitiga a dor e transmite sutil recado de Deus para quem crê, ou simplesmente da natureza: Vejam. Enxerguem de verdade. A luz está a clarear os caminhos, deixando distinto as curvas, as subidas e descidas, os atalhos fáceis que dão em abismos, as estradas de terra e pedregulhos que levam a campos floridos. É tempo de saber ver e saber escolher para que não hajam outras pandemias nem o fim da espécie humana.

A Terra está aí linda, exuberante, indistintamente generosa a conclamar simplicidade, comedimento, cooperação, respeito, referência, tolerância, inteligência, harmonização de todos e tudo, enfim sabedoria amorosa para bem ser e fazer. A luz está aí deixando tudo às claras. O Luzir não deixa dúvida de que no Planeta cabem todos desde que não haja ganância, como bem disse Ghandi. A luz revela que o Paraíso não foi perdido, tão só os humanos nublaram as vistas e se perderam.


O luzir também diz que basta desanuviar os olhos para se estar de novo no Jardim do Éden. E desnuviar-se significa livrar-se do grande equívoco dos apegos, da vaidade, da gana pelo poder, fama e riqueza que leva às disputas, concorrências, desigualdades, explorações desmedidas, poluição. É da natureza da Terra ser boa e bela, a ruindade e feiura é obra dos humanos. Os exemplos são inúmeros e acontecem a todo instante, fiquemos no rasteiro mais trivial. Alguém chega num recanto ainda primitivo e se encanta com as lagoas, ou rio, ou mar, a vegetação, se diz no paraíso. Mas logo, tem ideia de um loteamento, divide a área em lotes, abre estrada, derruba árvores,  aterra nascente, joga esgoto no rio. Enfim, trata de transformar o seu paraíso no inferno poluído e barulhento a que se acostumou.

E que dizer do uso dos agrotóxicos? das derrubadas e queimadas de florestas inteiras para atender a desenfreada superprodução com que se insiste manter o regime econômico dos gananciosos, geradores das desigualdades e injustiças sociais, da destruição do próprio habitat  ou da cavação da própria sepultura.  Chegará um tempo que se sentirá horror pelas violências cometidas contra a belíssima e generosa Gaia e seus próprios semelhantes. Quisera que já fosse agora, ainda a tempo de eu poder ver o povo cantando seu canto de paz e felicidade.

O calor se intensifica na virada de estação com a certeza de que dentro em breve se arrefecerá, tal como se o verão quisesse deixar sua marca, ou como na dialética, chegar ao ponto máximo para gerar a sua antítese. Assim, a minha teimosa esperança faz crer que o atual acirramento de pandemia é o auge que a levará ao fim. Que assim seja com a virose e também com a insensatez humana.  Navegando na irradiação das ondas luminosas também chegam notícias alvissareiras. O anúncio do possível retorno do estadista agregador e mais maduro ao posto de comando e as ações do papa, verdadeiramente cristão, que faz jus ao santo de quem adotou o nome e ao Cristo Jesus a quem serve. Seres iluminados varando as trevas, abrindo caminhos para harmonização e instalação do reino do céu na Terra.

As folhas brilham, as cigarras cantam, o calor aumenta, os iluminados atuam, as vacinas chegam, a pandemia passa.  E os homens, afinal aprendem que bom mesmo é amar em paz e descobrem que para isso de bem poucos objetos se precisa, mas  que a plena e genuína felicidade pessoal só é possível com o bem estar coletivo  assegurado; quando não mais houver miseráveis, quando não mais houver necessidade de caridades, quando se produzir apenas de acordo com as reais necessidades e não para lucratividade de alguns, quando a relação com a natureza for de harmonia e não de exploração, quando a sensibilidade do amor preponderar, quando se construir uma sociedade saudável.

Utopia? Desvarios? A culpa é do brilho das folhas ao ritmo do vento quente de fim de verão.

14 de março 2021, um ano sem sair de casa



quinta-feira, 4 de março de 2021

 



Mundo Novo

                Os dias vão passando implacavelmente, cada vez mais rápido para quem já acumulou muita idade. O sol continua, com participação primorosa das nuvens e ventos, estreando um novo espetáculo de luz e cor a cada amanhecer e entardecer. E a gente há mais de um ano estagnada nos adiamentos e nas esperas. Adiando planos, consertos, consultas, viagens, encontros, abraços e beijos. Esperando a pandemia passar, a vacina chegar, o governo mudar, a humanidade se transformar.

                E neste compasso a gente busca compensações e nesta busca a gente se entrega ao devaneio. Abre-se a cortina e emerge um mundo resplandecente. Cenário mais que perfeito com muitas árvores, flores, pássaros, águas límpidas, céu azulíssimo. Tudo sem menor sinal de agressão ou poluição. E as cenas se desenrolam. E tudo surpreende e encanta e nos engrandece e nos torna felizes. Cumpre-se o dizer de que após a tempestade vem a bonança. Cumpre-se o axioma de que só se aprende com o sofrimento, coisa que há bem pouco se duvidava vendo-se a contínua reincidência.

                Pela primeira vez cenário e cenas se casam. No belíssimo e dadivoso Planeta azulzinho as encenações humanas já não destoam do pano de fundo. As ações estão em perfeita harmonia com ambiência. Plenamente conscientes da interdependência de tudo que há, convencidos que são servos e não senhores da natureza, os humanos mudaram. Sim, as lições dadas pela pandemia do covid 19, enfim surtiram efeitos. E já não existem pobres e ricos, nem explorados e exploradores, nem raças, nem estrangeiros, nem imigrantes, nem enjeitados, relegados, esquecidos, nem luxo nem miséria nem isso nem aquilo que discrimina, separa, conflitua, infelicita. Divisão, só de bens e de recursos, de partilha. Diferenças, só a diversidade que enriquecem culturalmente.

                As cidades não são mais ilhas de concretos, onde cada um se esconde do medo para viver o individualismo egocêntrico no ilusório conforto da caverna atapetada. Nem o cimento dos viadutos são cinzas lençóis dos sem nada. Os campos não são mais vastos latifúndios nublados de venenos do agronegócio nem espremidas e ressequidas roças familiares de gatos pingados deserdados da sorte. Não há mais grandes fortunas, nem acúmulos de capital, nem especulações, nem consumismo, nem superprodução com seus desperdícios, encarecimentos e exaurição dos recursos da Terra.




Não,  no novo mundo tudo é diferente. As cidades são jardins, onde as pessoas, conhecidas ou não, se veem, se cumprimentam, se sorriem, festejam a alegria, celebram a vida. Os campos são trechos conservados do Paraíso, onde se produzem alimentos sadios para todos em regime de cooperativismo. O mundo é de todos os viventes e não de apenas alguns equivocados gananciosos privilegiados aproveitadores do Planeta. O uso de tudo é comum, dentro da compreensão de que não é preciso reter para dispor. A ordem vigente é o respeito a tudo e a todos, à lei universal. É a harmonia entre os diferentes dentro de Gaia, essa pequena bola sem fronteiras, cheia de vida animal, vegetal, mineral, em que de modo fatal entrelaçadamente vivemos viajando no espaço sideral. 

Sim, enfim, chegou-se à compreensão da interdependência de tudo e de todos, de modo que a real felicidade pessoal depende dos outros indivíduos, sejam esses insetos, plantas e doutores.  A começar pela dependência que os humanos têm das árvores, dos rios, das fontes e das abelhas, sem os quais não têm o oxigênio, água e alimentos de que precisam para existir. A natureza pode dispensar os seres humanos, mas estes não podem viver sem a natureza.  E numa sociedade doentia, na qual predominam as discriminações, o abismo entre escassez e o supérfluo, o desamor, o isolamento, a falsidade, a esperteza, a violência, as poluições, as devastações as doenças,  ninguém consegue ser feliz de verdade, mesmo os ditos “aquinhoados da sorte”. Sobre todos paira a insegurança, o medo a intromissão de um vírus letal a pegar todos de surpresas, fazendo tudo parar e ser repensado.

Após muita relutância, perdas e sofrimentos, a humanidade, afinal aprendeu e construiu o mundo novo.  Passou-se a viver em outra condição com menos coisas e mais serenidade e alegria, tendo por base a simplicidade, a compaixão, a solidariedade, cooperação, a partilha, a fraternidade o amor. “E povo cantando seu canto de paz”.

Mas eis que o telefone toca e o devaneio se interrompe. A gente se dá conta de que sonhou, sonhou demais. Antes que a decepção vire tristeza a gente lembra do documentário assistido há poucos dias, sobre uma comunidade rural em Minas Gerais, que vive nos moldes do que se devaneou aqui. Talvez mero reflexo ampliado do que foi visto e ouvido no filme. Seja como for, a constatação de que tal comunidade existe de verdade, serve de alento à esperança. E a gente continua sonhando com o Mundo Novo que poderia ou poderá vir a ser.

25 de fevereiro de 2021