quinta-feira, 3 de junho de 2021

  

De Romance e Resedá

          


Nas dobras do tempo se perderam as sutilezas que romantizavam a vida, restando o atual momento de insípidos vazios espetáculos e explicitações. Mas no momento em que minha amiga Gracinha me envia uma foto das flores do resedá e conta uma historinha dos seus avós, o tempo se desdobra e me sinto tomada por suave ternura de encantamento que os pequenos quase nada da singeleza nos proporcionam.

Gracinha diz “essas são as flores do resedá, uma plantinha muito antiga. Tia Angélica me contou que na casa de Vó, no Catu, tinha um pezinho e que Vó tirava um galhinho e colocava no cinto de tecido na cintura pra estar perfumada quando Vô chegasse em casa. Ele era chefe do restaurante do trem e saltava no Catu, uma das estações, depois do trabalho. Delicadeza e muito amor!”

Sim, muito amor expresso de forma delicadamente sutil e que por ser assim, transcende aos amantes e enternece também a quem percebe. E minha amiga ainda complementa “Minha avó era muito doce. Quando ela e meu avô se desentendiam (os desentendimentos eram raríssimos), falavam baixinho, eu só ouvia ele dizer, baixinho mas zangado: Senhora! Que era como ele a chamava. E ela, Oscar! Era um barato!”.


Pura doçura até nas raras zangas. E tanta candura rescendendo o perfume de resedá me faz lembrar daquelas figuras antigas de enamorados em biscuit ou gravuras românticas em jardins de muitas flores. Ele oferecendo um ramalhete ou pequeno buquezinho a ela sentada num balanço também florido a olhá-lo ternamente. Ou, em outra cena, ela faceiramente prendendo uma flor nos cabelos ou no botão da blusa sob a fascinada contemplação dele. Era um tempo de poucas palavras, mas de altas significâncias dos pequenos gestos, longos silêncios, suspiros profundos, olhares furtivos, discretas declarações, insinuantes demonstrações de amor


Posso imaginar, uma cidadezinha com sua bela estação de trem, todas estações de trem são sempre muito belas, igreja num largo em torno da qual se distribuem algumas ruazinhas pacatas com seus ajardinados bangalôs de varandinhas aromadas de jasmins e outras flores antigas. Em um deles, no fim do dia, antes do alto-falante tocar a Ave Maria, uma jovem senhora, banho tomado, cabelos arrumados, vestido com enfeites de renda alvamente engomado, colhe raminho do balsâmico resedá e discretamente o põe no cinto para receber o marido, seu presente de todas as tardinhas, sendo também ela mesma o mimo cheiroso a dar-se a ele.

Tudo isso no tempo das sutilezas, no tempo de romantismo, no tempo de resedá, e outras flores antigas. Até as flores entram e saem de moda? Mas minha amiga tem jardim com flores antigas e delas ela fala desse jeito: “De resedá eu tenho dois pés. O primeiro foi comprado na mão de uma senhora, dona Alice, que morava perto da Igreja S. José, no centro. Ela mesma fazia as mudinhas de um pé que tinha e depois eu fiz uma muda e plantei no jardim. Na mão dela também eu comprei uma muda de jasmim estrela, aquele bem antigo e perfumado. Tenho dois pés enormes dele aqui. Um sobe pelo telhado da frente e perfuma a sala. O outro, é do lado da casa. Dona Alice já morreu e só vendia plantas antigas. Tenho também o jasmim bugari, parece uma rosa branca e super perfuma tudo em volta”.

Então eu me pergunto: será que o romantismo passou porque essas flores desapareceram ou foi o contrário, estas flores sumiram porque o romantismo terminou? Seja como for, o caso é que minha querida Gracinha é uma sensível romântica que cultiva flores antigas e me inspira crônicas assim.