FLANANDO E SONHANDO EM ITAPARICA
Uma
das coisas boas da vida é flanar, flanar, por exemplo, à noite pelas perfumadas
ruas sossegadas da cidade de Itaparica. Itaparica tem disso sim, ruas quase
desertas, onde muitas vezes só se ouve o ruído dos próprios passos, ou até, se
não se duvidar, o pisar flanelado dos fantasmas; tem castanheiras nas calçadas e jasmineiros nas
varandas das casas de muros baixos com suas flores a incensarem o sereno.
Houve época em que não havia casa
sem jasmineiro para perfumar os serões nas varandas ou nos passeios. Nas
movimentadas e ou perigosas ruas da metrópole tais costumes desapareceram, mas
Itaparica ainda conserva os jasmineiros nos jardins e cadeiras nas calçadas,
assim como as aconchegantes praças, as simpáticas casas antigas cheias de
personalidade e caráter forte, além de muitas outras peculiaridades, a começar
por ser a maior ilha do Brasil e a única estância hidromineral à beira-mar.
Bastava
apenas uma característica para ser um polo de turismo famoso no mundo todo, mas
Itaparica, num só município é cidade histórica, é estância hidromineral e um
dos mais belos balneários que há no mundo, com mar de calmas águas
transparentes, paisagem estonteante em Porto dos Santos, Manguinhos, Ponta de
Areia e a orla da sede. Teve a primeira armação de baleia das Américas, uma
Santa heroína nas lutas da Independência, mulheres que venceram homens de
guerra com simples galhos de cansanção, solar que abrigou três reis; Tem
tamarindeiros seculares plantados em homenagem aos filhos da terra que foram
lutar na Guerra do Paraguai e araçazeiro na areia da praia. Tem reserva ecológica
com águas milagrosas do beato que tinha bem-te-vi a lhe seguir. Tem tanto que desperdiça.
E enquanto vou flanando pelas noturnas ruas cheirosas,
entrego-me ao devaneio e vejo tudo muito limpo e bem cuidado, vejo lixeiras em
todo canto, areia da praia sem copos, pratinhos e sacos plásticos. Vejo pintores
com cavaletes nas calçadas tentando reproduzir os magníficos pores-do-sol; Vejo
quarteto de cordas, corais, cantadores,
grupos de samba de roda se apresentando nas praças arborizadas e
floridas. Vejo turistas entrando no Forte de São Lourenço, transformado em
interativo Museu do Mar com seções de embarcações do recôncavo, de conchas e
búzios, das baleias e golfinhos, tendo lojinhas vendendo livros de Ubaldo
Osório, Xavier Marques e João Ubaldo Ribeiro, guia Turístico, postais, camisas
e outras lembranças da terra. Vejo leitores nos jardins e nas salas da
Biblioteca reformada sem mais telhado calorento. Vejo a Casa de João Ubaldo,
onde ele nasceu, sendo frequentada por
estudiosos e curiosos do mundo todo. Vejo o Museu da Independência funcionando
no Solar dos Reis. Vejo vários festivais artísticos culturais acontecendo o ano
todo na cidade e também no melhor mar para navegação do planeta. Vejo as ruas
centrais sem carros, substituídos por veículos não motorizados. Vejo a orla sem
os monstrengos prédios de três andares ou modernosas casas em meio ao conjunto
arquitetônico tradicional, sobretudo, vejo as casas sem muros altos. Vejo
agradáveis bares e restaurantes defronte do mar com música suave e baixa,
condizente com o ambiente. Vejo a Fonte da Bica sem poluição, tendo chafarizes
no mesmo estilo da fonte original. Vejo a população laboriosa satisfeita com
suas atividades econômicas, orgulhosa da sua cidade, feliz com a qualidade de
vida que levam. E de tanto ver em devaneios, um dia hei de ver em tempo e
espaço real.
