sexta-feira, 17 de março de 2023

 

Itaparica Revisitada


Acabei de chegar e já vi arco-íris iluminando a Ilha do Medo, vi um pescador a se encapotar apressado, em pé na canoa, se preparando para o vento que vinha levando tudo.  E agora chove na enseada. Veleiros enfumados passam com velas arriada levados só por motores. Invisível, o galo continua cantando desde a madrugada, sem se dar conta, entre a nublação, de que o dia há muito começou.

E principalmente, especialmente, particularmente, sobretudo — da varanda de muitos arcos onde tomo o bom café do hotel — vejo o mar. O sereno mar da Baía, que passado os rápidos ventos das chuvas de fim de verão,  se desarrepia, se estira, vira espelho e livre da névoa infinitiza-se. Vinda do meio dos verdes da APA onde agora moro, comparo. Mata é acolhimento, abrigo, espaço tempo delimitados, o aqui agora. É chegada. Mar é voo, abertura, chamamento dos longes, é o eterno recomeçar como observou o poeta, o infinito, o sem limites a provocar buscas. É partida. E o contemplando se atende aos chamamentos e às provocações, se levanta âncora e se vai, ainda que sem sair do lugar. Vai a alma seguindo o olhar.

Mas eis que uns sanhaços vindos da castanheira de defronte se interpõem entre  o olhar e o mar, interrompendo a navegação da alma. Bem azuizinhos como risquinhos do céu ou mar, atravessam a varanda e entram no restaurante. Saciados os humanos, é a vez deles tomarem o café da manhã. Pulam sobre os espaldares das cadeiras, passam às mesas, bicam  migalhas e, fazendo jus ao nome, assanhadamente voam do salão à árvore e voltam ao salão, e de novo à árvore, às vezes, no caminho, dando paradinhas nos móveis da varanda, assuntando a vida.  Tempo que os olhos param de pingueponguear.        

      


Finda a refeição eles tomam outras direções no ar e retomo a contemplação do mar, agora totalmente claro. A paisagem já não é a mesma de há pouco instante. A paisagem muda muda. A cada minuto, silenciosa, quase imperceptivelmente, inexoravelmente, muda. Muda no deslocar das nuvens levadas pelo vento criando claros e escuros sobre os morros e o mar.  Belo trabalho fazem o vento e as nuvens!

Mas não só eles.  Outros elementos costumam chegar, aparecer, ficar ou desaparecer. Um veleiro que vem do horizonte, passa e vai pra onde não se sabe e some; o voo solitário de um pássaro que risca o céu, ou o demorado plainar do urubu ou o avoejar do bando de andorinhas, ou o barquinho a remo do  pescador costeiro, ou a canoa de duas velas coloridas,  ou homem que desce da bicicleta com vara de pescar e samburá ao ombro ou ainda o outro pescador andando à beira d’água a prescrutar as profundezas e em dado momento joga a tarrafa que se abre em forma de fonte luminosa antes de cair sobre o cardume.



Bem poderia ficar assim, me exercitando, como João Ubaldo Ribeiro, na difícil arte de não fazer nada, apenas acompanhando as mudanças da paisagem no decorrer das horas, mas os amigos me esperam e é preciso rever a cidade, rever cada cantinho querido, reviver as sensações experimentadas em cada parte. Se bem que, fico um tanto apreensiva, afinal se passaram três anos. Nem sei como pude ficar tanto tempo longe daqui! Grande parte culpa da pandemia, outra, culpa das dores resultante do efeito dos anos sobre o esqueleto. Mas passou e aqui estou e saio a conferir com a esperança, bem maior que a apreensão, de que tudo esteja como estava ou que as alterações havidas tenham sido para melhor sem descaracterizar, sem macular o cerne.


Logo de cara vê-se que a orla está cuidada. Ponto positivo para retiradas das mesas e cadeiras do calçadão, bem como para reforma dos passeios e colocação de bancos para os apreciadores da paisagem, e das lixeiras tão indispensáveis. Mas para que aqueles enormes vasos com buganvílias entre os bancos? São plantas trepadeiras, que precisam de espaço ou caramanchão para se espalhar e florir plenas e cheias de espinhos, nada adequado para área de circulação. Melhor seriam se plantassem coqueiros ou aroeiras, no chão mesmo. Mas para que aquela profusão de postes modernosos nada condizentes com centro histórico e ainda mais colocados no cais a beira mar.  Desse lado bastavam as coloridas luzes rasteiras. E ainda se tratando de iluminação, outro ponto negativo são as luzes nas árvores a perturbarem o sono das aves e a desnortear animais noturnos. Por questão estética, bastava iluminar os pés das árvores, por questão de segurança, bastavam o policiamento e a colocação de câmeras.


Muito bom ver os muros transformados em painéis artísticos, assim como as casas pintadas, mas é lamentável a ausência de um ordenamento do uso do solo e de preservação do patrimônio arquitetônico do centro histórico, de modo que  de repente, se leva um choque ao se deparar com umas chamativas casas modernas em meio ao casario antigo. Muros de vidros, às vezes sem nenhum sentido já que as cadeiras do jardim estão colocadas de costa para o mar. Se não interessa ver o mar, para que o muro transparente?

Bem, eles podem ignorar o mar, eu não. E para o mar olho e ele convida. Logo estou mergulhando naquelas claras, calmas, mornas translúcidas. Boio no azul, mirando o passar das alvas nuvens no azul de cima. Dentro d’água também dá para ou admirar o contraste do verde escuro da mangueira do Forte  e do verde claro das folhas novas dos velhos tamarindeiros sob o azul do céu. Fico feliz em ver a resistência desses tamarindeiros plantados, segundo Ubaldo Osório, na época da Guerra do Paraguai.  Mas sinto dorida falta do araçazeiro nascido na praia, um desses inusitados de Itaparica, assassinado não sei por quê. Besteira que digo, pois qual razão pode haver em qualquer assassinato?  Motivo, até pode ter. Razão, nunca.


Vou ao encontro dos amigos. Conversamos, comemos, bebemos, rememoramos, trocamos notícias, rimos, fazemos novos planos, damos vasão aos afetos.  O que de melhor na vida se não a amizade? O que mais exato do que esse convívio, inda mais em meio a tal panorama, quando cenário e cena se harmonizam? Pura felicidade. Nada mais precisaria ser dito. Contudo ainda tenho reparo a fazer. O sol bate de tal maneira sobre o mar, que as águas parecem ferver. Em meio a essa efervescência que encandeia, um único barquinho pousado. Tento guardar o instante numa foto, mas a lente do celular não capta igual. Então fixo a imagem no coração para me fazer voltar de novo a esse meu lugar.



Indo ao quarto pegar a mala encontro um casal de andorinhas nos basculantes do banheiro. Vou devagarinho. Eles não se assustam comigo e lá ficam a me dizer adeus ou, quem sabe, esperando eu regressar.  Que assim seja.

 


segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

 

Corneta na madrugada


        Estava eu no bem bom braços de Morfeu, quando um toque de corneta a toda altura bem na lateral do quarto me fez quase pular da cama. Pela janela da frente vi que o dia mal principiava, caprichando nos dourados sobre o azul entre nuvens brancas com que acenderia o mundo. Belo espetáculo que o sono não me deixava apreciar. Novamente a buzina soou forte. Que diabo será isso? Me perguntei relutando em me levantar. Abri um olho e espiei o celular na mesinha ao lado da cama. Quatro horas. Isso é hora de acordar? então eu sou lá o Zé Marmita? Apesar do sono e da curiosidade em saber que corneta impertinente era aquela, lembrei da marchinha de carnaval:

Quatro horas da manhã

Saí de casa o Zé Marmita

Pendurado na porta do trem

Zé marmita vai e vem

Também não estava em quartel e muito menos me encontrava na Idade Média para ser acordada por corneta de soldado ou por arauto de rei trazendo nova proclamação. Nem o que eu ouvira era toque de despertar de tropa nem de um arauto. A fresca aragem e a serenidade da madrugada vagavam também dentro do quarto.  Voltei a me aconchegar ao lençol, esperando adormece novamente. Mas, quem disse? A buzina soou ainda mais forte e uma outra, um pouco mais longe, respondeu. O jeito foi mesmo me levantar.



        Olhei pela janela do lado, não vi ninguém nem nada que pudesse produzir aquele som. Aproveitei para admirar pela milionésima vez, os longos e grossos tentáculos do cajueiro da vizinha a se espalhar no terreno todo e também o brilhozinho das folhas da aroeira. Lembrei que precisava tirar umas folhas dessa abençoada planta para fazer chá com que tratar o esporão. Mas não seria agora. Não era hora de fazer outra coisa que não fosse dormir.

Nisto a corneta soou novamente. Apurei as vistas. Ainda não estava claro bastante para distinguir qualquer coisa na vegetação apagada, do alto em que eu me encontrava. Tive a impressão de que algo se movera do outro lado da cerca, já na casa vizinha. Algo volumoso demais para ser um gato dos que por aqui vivem. E aquilo não era miado de gato nem no mais caloroso namoro ou briga. Alguém mal intencionado? Quem tivesse uma má intenção não viria fazendo tal alarde. Alguém voltando de um estádio de futebol tocando uma daquelas cornetas de torcida, ou uma criança com brinquedo semelhante? Mas a essa hora?  Pelo visto eu ainda devia estar dormindo, tendo sonhos delirantes. E continuava a tresvariar. Ou seria um bicho selvagem? já que temos uma matinha preservada no fundo do quintal.  Uma onça? Bem, a matinha é só mesmo uma matinha, não daria para tanto. Dava para teiú, jabuti, cobras diversas, tamanduás, mas onça seria um pouco demais. E, embora não estivesse acostumada a ouvir onça, achei que o esturrar dela, apesar de parecido com que eu ouvira, seria mais abafado, menos esganiçado.

       Novo movimento indistinto e novo buzinar. Resolvi descer para descobrir de uma vez por toda que som era aquele. Assim que abri a porta da frente, me deparei com um pássaro gigante pousado no cajueiro. Recuei no susto. O bicho também se assustou e deu um fabuloso voo, por sobre a cerca e a rua indo parar no vizinho de defronte a cornetar. No mesmo instante, do oitão da casa soou outra trombeta como em resposta a anterior, seguido de outro voo espetacular. E mais espetacular ainda, por que indo em direção ao nascente, o metálico verde-azul pavônico rebrilhou no ar à luz da aurora, agora mais intensa. Sim, eram pavões, um casal criado pelos vizinhos, que resolveram nos visitar. Mais uma das inusitadas visitas que recebemos aqui. Seriam benvindos se o horário não fosse impróprio e não viessem tocando corneta de madrugada. Já os ouvíramos de longe, a gente cá e eles lá. Na distância não soavam tão desagradáveis... Como se diz, nada é perfeito. Aves tão exuberantes com voz tão esdrúxula, tanto quanto a própria palavra esdrúxula. Só espero que eles não façam hábito dessa barulhenta visita fora de hora.