Numa certa manhã joalheira
A manhã se revela em
lápis-lazúli. Por ordem dos mistérios dos processos criativos, esta frase é a
primeira coisa que me vem à cabeça ao acordar. E o mais intrigante, vem como
início da crônica que teria de fazer. Antes de pegar no sono, tinha levado bom
tempo tentando encontrar um tema. Muitas ideias ocorreram, sem se sustentarem
ou se desenvolverem. Mas em momento algum pensei em pedras preciosas, muito
menos em lápis-lazúli. Para falar a verdade, pouco sabia sobre esta rocha gema.
Nem da sua cor característica estava segura, apenas intuía ser azul. Então por
que a sentença surgiu assim, direcionando a crônica para joias, cores, luzes e
agudas reflexões?
Cedo ao que chega.
Com o prazo se extinguindo não há como me fazer de rogada ou demorar em
especulações. E para evitar leviandades, corro a pesquisar. Logo nas primeiras
garimpagens, encontro o que seria uma resposta à minha indagação. No artigo, “A poesia na óptica da Óptica”, a escritora
portuguesa Maria Estela Guedes explica:
“Tal como o pintor escolhe as tintas, e o jardineiro
as flores segundo o seu colorido, também o poeta visa a beleza com os mesmos
elementos. Porém as tintas do poeta não são substâncias vermelhas ou azuis, e o
poeta pode gostar do lápis-lazúli sem saber qual exatamente a cor do
lápis-lazúli, porque os sons da palavra têm um colorido especial ao ouvido: é a
própria palavra "lápis-lazúli" que o encandeia e transporta para os
domínios do maravilhoso, se bem que nenhuma cor seja mais profundamente bela
que o lápis-lazúli — e esta observação merecia um capítulo próprio na questão
do método, acerca da individualidade de cada olhar sobre as cores”.
Realmente, os sons desta palavra
têm colorido especial ao ouvido, encanta e conduz ao reino do maravilhoso. A
própria frase, “a manhã se revela em lápis-lazúli” poderia ser considerada um
verso. Então, no meu inconsciente residiria um poeta? Ou, tão só, fazendo as vezes de médium, teria captado o sopro de algum espírito
desencarnado?
Sem dúvida é uma palavra poética, tanto pela sonoridade (cabe observar a
pronúncia correta de lazúli, com acentuação no zú e não no lá),
como pela beleza da pedra azul escura, cambiando para o violeta, da
lazurita, tendo, mais ou menos, salpicos
brancos da calcita e grãos dourados da pirita. Não havia, pois, como
deixar de ser presença marcante na literatura universal. “Muita poesia sumeriana e acadiana faz referência ao
lápis-lazúli como uma gema própria de esplendor real.” Diz a enciclopedia.
Um
dos mais famosos poemas do irlandês William Butler Yeats, ou simplesmente, W. B. Yeats, como costumava assinar, intitula-se
justamente “Lápis-lazúli”. A partir da escultura chinesa do século XVIII em
lápis-lazúli que recebeu de presente do amigo Harry Clifton no seu septuagésimo
aniversário, o autor medita sobre o papel da arte em um mundo essencialmente
trágico.
Também o poeta
português Antonio Nobre emprega a fascinante pedra
azul (significado literal do termo em latim) para acentuar as magnificências do
seu quimérico palácio de fidalgo provisório, assim exclamando na primeira
estrofe no poema “O meu Condado!”: “No campo azul da alada fantasia / Edifiquei outr´ora, por
meu mal, / Castelos de oiro, esmalte e pedraria, / Torres de lápis-lazúli e
coral.”
Voltando à manhã,
não há como negar que ela se revela em lápis-lazúli. Afinal esta é uma das
pedras do mês. A outra, é a turquesa, também azul, mas em outro tom. Embora
nesta história de pedras do mês e dos signos não haja unanimidade (basta
consultar umas duas fontes diferentes pra constatar), fico com o velho “Novo
Tesouro da Juventude”, que sustenta esta versão. Ao menos nesta nossa latitude
e longitude, dezembro é adequadamente o mês de intensos azuis, Azuis com que o
verão se reinaugura; azuis com que se fazem os ânimos na estação da luz; azuis
com que se revestem as lições do mestre festejado neste momento.
Os azuis descansam,
confortam, pacificam, relaxam, elevam a alma e induzem à contemplação. Os olhos
estendidos nos azuis se entregam aos devaneios e, mesmo estando em terra firme,
mesmo dentro de uma rede numa varanda, eles
vãos de barquinho a vela viajando por mundos insuspeitos.
Os sacerdotes
egípcios acreditavam que meditando na profundidade das tonalidades dos azuis,
conseguiam penetrar nos mistérios da vida, estabelecendo contato com os deuses.
Como se pode ler num site da Internet, “o
azul assinala a entrada nos domínios mais profundos do espírito e uma das suas
qualidades mais sutis é a aspiração. Essa cor faz parte do espectro frio e, por
sua quietude e confiança, promove a devoção e a fé. O azul é uma cor popular associada ao dever, à beleza e à habilidade. A
serenidade dessa cor traz consigo paz, confiança e sentimentos curativos
agradavelmente relaxantes”.
Daí que para os
adeptos da cristalologia terapêutica, a lápis-lazúli é uma gema de contemplação
e meditação por excelência, “atraindo a mente para o interior à procura de sua
própria fonte de poder. Dispondo de grandes propriedades de cura e purificação,
estimula a clareza mental e o senso de força, vitalidade e virilidade. Aumenta
habilidade psíquica e revigora o corpo durante o crescimento espiritual.
Expressa o verdadeiro Eu.”
Vejo que ao sair do
sono, minhas pálpebras abriram a arca do tesouro, pois dei de cara com uma
manhã joalheira. Muitas são as gemas, sobretudo jades e esmeraldas das
folhagens e algumas pérolas em forma de nuvens, mas todas incrustadas no imenso
cabochão azul de lápis-lazúli, que assinala a
entrada nos domínios mais profundos do espírito.
Dez. 2009






