quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

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Cantoria na UTI


        Amanheceu ainda na UTI cantando baixinho. Afinal eram muitas as razões para cantar naquela manhã. A claridade que se infiltrava entre as frestas das cortinas nas janelas altas era indício de que o dia estava belíssimo naquela antevéspera da primavera e em dias assim cantar é um imperativo. Após meses e meses de conturbadas esperas e apreensões, apesar dos penosos transtornos antes do procedimento cirúrgico, ela estava bem, sem dores, esperando a hora de ir embora. Era um renascimento e para celebrar a vida cantava. Além disso, as desconhecidas e invisíveis vizinhas de um lado e do outro, precisavam de alento. Então cantava.
      Cantava em surdina cantigas que falavam de volta das flores e da esperança, da beleza da vida, do sol que ilumina passos e faz esquecer dores e tristezas, da beleza do amanhecer. Estava sem comer há mais de 30 horas. O jejum de oito horas se estendeu com o atraso advindo da pane do aparelho para realização do exame imprescindível. Entre providências e ditos, uma funcionária do hospital muito profissionalmente compenetrada explicou que o aparelho não estava quebrado, apenas não funcionava. Marcada para às 13 horas, a cirurgia só começou no início da noite e o café dia seguinte só chegou na UTI depois das 9h.
      Além da fome, a perna onde entrara o cateter ainda estava imobilizada embora já tivesse passado do tempo de ser liberada. Mas ela cantava. Àquela altura, descobrira que não tomara um medicamento importante prescrito para meia-noite. Deixaram de dar, sem nada dizer, simplesmente porque tal remédio não era disponibilizado na farmácia do hospital. Questão só resolvida quando a médica chegou e assim mesmo com a ajuda da boa vontade de uma técnica de enfermagem. Tinha dois acessos na mão e outro no pescoço que limitava o movimento da cabeça e incomodava. Só no momento da retirada viu que estava com um cateter de 20cm enfiado na jugular, tendo levado três pontos para segurá-lo ali. Mas logo ia se livrar de tudo isso, sobretudo das arritmias que a levaram àquela situação. Diante desta perspectiva, após tanta apreensão, percebendo que o dia lá fora era azul, sentindo vontade de confortar as companheiras de UTI que ainda ficariam, só podia cantar, relevando totalmente os últimos incômodos. “Manhã, tão bonita manhã / Na vida, uma nova canção”.
       Sua voz não tinha nada de especial e cantava baixinho, para si mesma. Mas cantava vendo as flores desabrochando, as nuvens passando e bordando o céu muito azul com formas primorosas. Cantava vendo “os pingos da chuva do dia anterior ainda brilhando, ainda bailando ao vento alegre”. Cantava andando por veredazinhas iluminadas pelo sol. Cantava ouvindo passarinhos, crianças rindo, rios fluindo, mar murmurejando. Cantava incorporando em si a pacificada beleza do amanhecer. Cantava com o coração feliz e a alma elevada. E a vibração dos sons assim entoados reverberava no ambiente e na própria cantora. As outras pacientes aquietadas pareciam dormir confortavelmente e logo apareceu uma fada madrinha na figura da técnica de enfermagem Graça, que se pôs a cuidar da cantora com carinho e alegria e até penteado fashion improvisou usando a touca enrolada como prendedor de cabelo, que realmente deixou-a com melhor aparência. Entre gracejos e beijinhos ia e vinha tudo fazendo para melhorar a condição. Também outras, com o mesmo astral, se juntaram em certos cuidados como na retirada dos acessos. No final, o clima era de festa numa célula da UTI naquela manhã do Dia da Árvore. E até à saída do hospital foi tratada com mimos pela moça que a levou na cadeira de roda, pelo porteiro ajudando-a a entrar no carro.
    Enfim, lisonjeada, gratificada, feliz, mentalmente continuou cantando: “Vê o sol iluminando / por onde nós vamos indo”. E “porque são tantas coisas azuis/ e há tão grandes promessas de luz/ tanto amor para dar/ de que a gente nem sabe”. “Canta meu coração / alegria voltou / tão feliz na manhã deste amor”.

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