quarta-feira, 20 de dezembro de 2017



DOCE DE ABACAXI E CANTO DE SABIÁ

 

A imagem pode conter: comida

Enquanto à beira do fogão Noêmia vigia o ponto, o cheiro do doce de abacaxi impregna a casa toda. E a casa já não é esta casa, ainda que seja tão antiga quanto àquela. E o tempo já não é este tempo. E a menina toda em festa, inebriada pelo aroma do doce, saltita de um lado pro outro, mal podendo esperar pelo fim do cozimento, ansiosa e feliz. Aquele era um tempo de impressões fortes e felicidades fáceis. A calda encorpa, as rodelas douram-se, o cheiro acentua-se e a menina quer saber se já pode provar.
Ainda teria de esperar esfriar. “Doce quente faz mal”, lhe dizem. Aquele era também o tempo em que as coisas “faziam mal”, e sem que se soubessem bem qual e porque, as pessoas se resguardavam. Abacaxi era uma destas coisas malignas, como a manga com leite, o passar debaixo de escada, vestir roupa pelo avesso, guarda-chuva aberto dentro de casa, derramar sal. E o pai não permitia que se comesse abacaxi ou tomasse suco ou sorvete. Só o doce era consentido. Inda bem, porque aquilo era um manjar dos deuses que a mãe, agora à beira dos 102 anos, naqueles idos fazia com maestria.
Sem saber de química ou alquimia, ela não entendia como a fruta brava deixava de “fazer mal” quando virava doce. Chegava a duvidar de tamanha malignidade, ainda mais ao passar, no fim de ano, pela Rampa do Mercado, ou alguma outra feira livre, sendo envolvida pelo aroma agridoce do abacaxi maduro misturado aos das outras frutas da época, manga, caju, umbu; ainda mais quando via pessoas, inclusive amigas, comendo a fruta sem que nada lhes acontecesse. Duvidava, mas, por via das dúvidas, não se arriscava a experimentar nem longe da vigilância dos pais. Naquele tempo, os pais sabiam das coisas e não era nada fácil fazer por detrás deles aquilo que não fariam nas suas presenças. Desobedecer, enganar, causar decepção provocavam inquietação de espírito, davam remorsos. 

Precisou ficar adulta para poder se deliciar à vontade com o fruto que tem cheiro, gosto e o frescor de verão, embora agora dê o ano inteiro. Mas os temporãos não são tão balsâmicos e gostosos. O cheiro vindo da cozinha chega também à varandinha lateral com vista para as altas velhas mangueiras. Como a menininha de outrora, não vê a hora de provar o doce de abacaxi. Enquanto aguarda, na imobilidade que a forte crise do nervo lhe obriga estar estirada na espreguiçadeira, vai devaneando ao vagar dos sentidos.  Além do cheiro do doce, o recital de um sabiá, ou seria uma sabiá, que já dura um quarto de hora, conduz a outro divagar por momentos menos remotos, porém também já idos quando a espreguiçadeira ou a rede cabia mais de um.

No avançado da primavera os sabiás cantam a partir da madrugada, por volta das quatro horas. Ainda hoje, ouvindo o concerto matinal lembrou-se de uma conversa de sabiás, que certa feita ouviu, numa ocasião como aquela, junto à janela do quarto.  Interrompendo o recital entre as ramagens do pau-brasil, o  laranjeira indagou da parceira:

— Esta não é a mesma janela de dias atrás?

— É sim

— Mas cadê aqueles dois, que acordados cedinho ficavam a se mimar e a nos ouvir?

— Acho que agora, dos dois, restou apenas um.

— O que terá havido em tão pouco tempo? Pareciam tão passarinhos!...

— Talvez só a típica inconstância humana.

— É, não vale a pena entender os humanos. Cantemos.

E cantaram louvando a beleza do amanhecer. Cantaram acalentando o coração solitário. E a cantoria continuou, como a de agora à tarde que já dura cerca de meia hora e acentua a gostosura do doce de abacaxi, enfim servido por Noêmia.

 

Itaparica, 9 de nov. 2017

A imagem pode conter: comidaA imagem pode conter: pássaro

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário