DOCE DE ABACAXI E CANTO DE SABIÁ

Enquanto
à beira do fogão Noêmia vigia o ponto, o cheiro do doce de abacaxi impregna a
casa toda. E a casa já não é esta casa, ainda que seja tão antiga quanto
àquela. E o tempo já não é este tempo. E a menina toda em festa, inebriada pelo
aroma do doce, saltita de um lado pro outro, mal podendo esperar pelo fim do
cozimento, ansiosa e feliz. Aquele era um tempo de impressões fortes e
felicidades fáceis. A calda encorpa, as rodelas douram-se, o cheiro acentua-se
e a menina quer saber se já pode provar.
Ainda
teria de esperar esfriar. “Doce quente faz mal”, lhe dizem. Aquele era também o
tempo em que as coisas “faziam mal”, e sem que se soubessem bem qual e porque,
as pessoas se resguardavam. Abacaxi era uma destas coisas malignas, como a
manga com leite, o passar debaixo de escada, vestir roupa pelo avesso,
guarda-chuva aberto dentro de casa, derramar sal. E o pai não permitia que se
comesse abacaxi ou tomasse suco ou sorvete. Só o doce era consentido. Inda bem,
porque aquilo era um manjar dos deuses que a mãe, agora à beira dos 102 anos,
naqueles idos fazia com maestria.
Sem saber
de química ou alquimia, ela não entendia como a fruta brava deixava de “fazer
mal” quando virava doce. Chegava a duvidar de tamanha malignidade, ainda mais
ao passar, no fim de ano, pela Rampa do Mercado, ou alguma outra feira livre, sendo
envolvida pelo aroma agridoce do abacaxi maduro misturado aos das outras frutas
da época, manga, caju, umbu; ainda mais quando via pessoas, inclusive amigas,
comendo a fruta sem que nada lhes acontecesse. Duvidava, mas, por via das
dúvidas, não se arriscava a experimentar nem longe da vigilância dos pais.
Naquele tempo, os pais sabiam das coisas e não era nada fácil fazer por detrás
deles aquilo que não fariam nas suas presenças. Desobedecer, enganar, causar
decepção provocavam inquietação de espírito, davam remorsos.


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