Portas fechadas, janelas abertas
Nestes tempos de portas fechadas convém manter as janelas bem
abertas. As janelas físicas, por onde entra a beleza do dia ainda muito azul e
o ar para arejar os ambientes; e as janelas metafóricas do coração e mente por
onde a sabedoria amorosa pode chegar, através da percepção sensível do momento especial
em que se vive.
No instante em que os
humanos, devido à pandemia do coronavírus, são obrigados a parar e se deparam
com a ameaça de um colapso geral, é hora de não duvidar de que “há males que
vem para o bem”. É hora de aproveitar a imensurável oportunidade que se apresenta
para se acertar os passos pessoais e coletivos e ajeitar o viver no mundo.
Pode ser que o grande mal não resulte em grande bem, mas não
será porque o provérbio está errado e sim por defeito de visão, por renitência dos presunçosos insensatos seres, que se dizem
racionais e inteligentes, mas presos nos seus equívocos e cegueira não souberem ver e entender as nuances e o
significado do que está acontecendo.
São inúmeras as lições que estão se apresentando. Começa com
as pessoas tendo que deixar a dispersão da vida moderna para interiorizar-se,
estar consigo mesmas, avaliar, pensar, descobrirem-se e deixar de ser gado. Depois,
aprendendo a ter o ócio criativo, isto é, dispor de tempo livre para ler,
estudar, criar, deixar suas potencialidades fluírem. Também estão sendo obrigadas a ter convivência
familiar mais constante, muitas vezes em ambientes restritos, resultando em
definições, correções ou término das relações.
Estão também tendo que ter cuidados, e nisto, a chance de perceberem
a interdependência que há entre todos e tudo no Planeta; verem claramente que mesmo
os mais ricos e poderosos são na verdade
indigentes, dependendo de tudo que não
são eles próprios para viver, estando à mercê da natureza da qual é parte integrante;
além de certificar-se de que ninguém é ilha e que, efetivamente, ninguém pode
ser feliz sozinho.
Por outro lado, as restrições, as ausências, as perdas, os
sofrimentos, a que se acham submetidas, evidenciam os valores do que realmente
importa; ressalta a real dimensão das
coisas em suas vidas. Quantas das necessidades que eram indispensáveis ontem se
tornaram insignificantes? Quantos adiamentos de planos e carinhos se
tornaram lamentáveis? E há milhares de pessoas
dentro de carros em espera de doação de comida. Os carros que têm não servem
para comer. E a nação mais poderosa do mundo, com todo seu poderio em armas e
tecnologia, se acha impotente ante um minúsculo inimigo silencioso.
Entre as evidências se sobressaem também o descalabro dos
sistemas políticos e econômicos de escravização das pessoas, das disparidades
entre as condições financeiras e existenciais e os maus tratos que se faz à
Terra, insensatamente se destruindo o habitat em que se vive. Assim, o que era
impensável, o que não podia ser, agora tem de ser e se mostra viável.
Em síntese, as pessoas estão sendo obrigadas a aprender a bem
se relacionar consigo mesmas, com os semelhantes e com o meio ambiente. Os
comportamentos precisam ser mudados. Não deve ser por acaso que a pandemia do
coronavírus está se acirrando no equinócio de outono no hemisfério sul e da
primavera no hemisfério norte. De um lado o outono, a maturação, a morte, o fechamento,
fim de ciclo. Do outro, a primavera, o novo o renascimento, a abertura, inicio
de novo ciclo. As polaridades se completando a clamar por mudanças
substanciais.
Estamos numa encruzilhada, talvez tenhamos chegado ao ponto
de mutação de que trata Fritjof Capra. É hora de troca de paradigma, de deixar
o velho caminho para seguir uma nova senda que se abre diante da humanidade. A
hora é essa. O Planeta pode muito bem passar, obrigado, sem os seus mais
terríveis predadores, como, aliás tem dado mostras, nesses poucos meses de
quarentena dos homens. Enquanto os seres humanos tentam aprender e a se ajustar
à nova realidade o Planetinha, alheio, continua girando e a natureza cumprindo
as estações.

