terça-feira, 13 de agosto de 2019


Sim, é possível


Eis que, por obra da magia da vida, me vi no reino das histórias de fadas. Por efeito de magia, sim, resultante da surpreendente generosidade de Trees e Pieter, casal de amigos, não tão íntimos (ela nunca vista pessoalmente), e de uma historinha de muitos anos atrás, também coisa do “era uma vez”, já contada numa crônica anterior. Não poderia prever tal viagem, mas lá estava eu. Ia por estradas margeadas de flores e flores, enveredando por túneis de árvores, atravessando bosques, alguns, quase florestas do lobo mau.

Ia aos castelos de grossas muralhas de pedras encimadas por ameias, altas torres quadradas e pontiagudas, escondidos nas matas, com antiquíssimas pontes levadiças, sobre os defensivos fossos circundantes, também largos lagos para os cisnes. E lá estando, ia da cocheira, à igreja com santa pendurada parecendo enforcada. Subia à torre de Rapunzel pela escada caracol feita de blocos de pedras encaixadas e descia aos calabouços. Adentrava ao misterioso laboratório de alquimia. Percorria salões, entre relíquias mis, mas não encontrava ninguém, embora estivessem ali: o príncipe encantado na estatuazinha do sapo coroado, os cavaleiros andantes dentro das armaduras de aço pesando 30 a 50 quilos com elmos, couraça, grebas, manoplas, espaldar, escarpe, ou na túnica de cota de malha. E as rainhas, reis, princesas, magos, servos transformados em bonecos de cera ou rondando como fantasmas.
      Do ressoar dos meus passos sobre ladrilhos enxadrezados ou de pedras lavradas emergiam gritos de batalhas, gemidos de enfermos, suspiros de amor, bramidos de paixões, tilintar de guizos dos bufões, vozes de acalanto, fala do espelho mágico, risada da bruxa após uma maldade qualquer, cicio de passos furtivos, praguejar de injuriados, súplicas de condenados, trovejar de vociferações, murmúrios de colóquios, sussurros de intrigas, sibilar das traições, versos e cantigas de menestréis a contar histórias e histórias reais e inventadas. Enfim, o reverberar das eras e sucessivas vidas.

       O peso dessas reverberações impelia à atmosfera amena dos jardins. Então enveredava por labirínticas sendas entre arbustos podados, sentindo-me sob espreita. Seguia entre profusão de flores de todos os formatos e todas as cores, cercando esculturas, beirando regatos limosos. Via o quiosque cônico coberto por colmo  e, atrás de moita de hortênsias, um gnomo parecia aplaudir o idílio do jovem casal de trajes bufantes. E ouvia a brisa passar, sentada num grande banco de pedra debaixo de folhagens pendentes e ladeado por leões. E seguia curiosa por comprida aleia, para lá no fim encontrar um grande símbolo fálico. E mais flores, e mais árvores e mais encantamento.

Deixando as terras do castelo, entrava e saía em aldeias e cidades cheias de chalés floridos tal qual a casa de chocolate de João e Maria. Todas semelhantes, mas nenhuma igual à outra.  Navegava pelos canais, ora margeados por matas em barco medieval, ora por imponentes prédios históricos e casas barcos. Passava por campos com vaquinhas malhadas e muitas ovelhas, entre plantações de batatas em branca florescência, milho, juncos ou colmos, tulipas, e outras flores. No caminho havia Moinhos de vento e água a desafiar Dom Quixote. Dentro de um deles, o moleiro e sua família calçando tamancos de madeira, os eixos e engrenagens, a providencial lareira também usada como fogão e secador de roupa, os utensílios peculiares, as pequenas camas, onde dormiam sentados, recostados em travesseiros, para não serem perturbados pelos maus espíritos. 

E tinha festa do queijo em Horn, concerto em palco flutuante debaixo de sol forte em Klein Belties, crepúsculo às 22 horas na praia de Castricum; Tico-tico no Fubá e Aquarela do Brasil, tocadas por músico búlgaro na porta de um supermercado; mercadinho pegue-e-pague (sem vendedor nem vigias) em Blokzijl; festas de aniversários, com muitas tortas e doces deliciosos, ao ar livre apesar do frio forte, porque era verão (e no verão vive-se fora de casa não importa a temperatura), uma dessas festas numa fazenda de nome convidativo  “Schuif  Eens Aan” (“Venha se juntar a nós por um tempo”). E ainda tinha os museus, as feiras e tantas outras coisas...

Sobretudo a descoberta de que para além do Reino da Fantasia, o mundo real também tinha se encantado. Havia um arranjo social, em que se dava prioridade à educação, ao bem estar das pessoas, à alegria de viver com saúde, segurança, harmonia e beleza. Havia a compreensão de que é impossível ser feliz sozinho e tratavam de evitar a miséria alheia. O governo oferecia moradias sociais de qualidade em meio a parques arborizados e pagavam 70% do valor do salário mínimo aos desempregados pelo tempo que fosse necessário, além da educação inteiramente gratuita e o hospital público, sem filas, com salas de espera entre jardins internos, instalações amplas e claras, mais eficiente e bonito do que os particulares de outros lugares.

Entendiam que a beleza e a interação com a natureza constituíam elementos favorecedores da sanidade pessoal e do bem estar social. Então se enchiam de flores até em telhados, circundavam-se de bosques e praças.  Mantinham a bela arquitetura tradicional, livre de espigões, de viadutos e de shopping center. Aprendiam a ser solidários, a serem simples, a não ostentarem, a respeitar os semelhantes, o meio ambiente e a si próprio, ajudando-se mutuamente, reciclando o lixo, usando energia eólica e solar e muita, muita bicicleta. Num enorme camping cheio, ninguém incomodava ninguém e as instalações, inclusive as sanitárias, eram impecavelmente organizadas e asseadas. Daí via presídios sendo destruídos, e as pessoas vivendo despreocupadamente satisfeitas, inclusive os idosos, com vida ativa, indo e vindo a toda parte, a pé, de bicicleta, carrinhos motorizados, metrô, bondes, trem, barcos, andadores rolantes  e mesmo cadeiras de roda elétrica. 


Portando, sobretudo havia a grata e animadora constatação de que outro mundo é possível, sendo a Holanda um exemplo disso. Pequeno consolo para as aflições deste tempo de trevas em que o Brasil se desmantela sob ação de inconsequentes gananciosos traidores e de enlouquecidos demônios. 
 
10/08/2019