sábado, 7 de dezembro de 2024

 


Estranha História Saíra Amarela

 



    Primeiro apareceu na reluzente pitangueira sob o sol de primavera bem rente à janela. Achei que vinha atrás das escassas pitangas mirradas, que esse ano a safra foi diminuta. E de fato, o vi pegar uma bem vermelhinha e lustrosa. Era um ilustre desconhecido, eu nunca tinha visto por aqui, só sabia que era muito lindo, tal qual uma fadazinha benfazeja a me dar bom dia e fiquei feliz. Isso devia bastar, mas logo tratei de lhe identificar, conforme a doentia mania dos humanos de tudo querer nomear. Dai percebi como a tecnologia ainda está atrasada (ou é minha ignorância que ainda não sabe?) pois não há como pesquisar por imagem, ou seja, obter informações a respeito de alguma coisa, a partir de uma fotografia. Contudo pela descrição e comparação com as imagens da internet consegui descobrir que aquele alado sersinho amarelo e preto era a Saíra Amarela e que apesar do nome feminino era macho, uma vez que a fêmea tem cor menos intensa sem o longo preto que se estende pelo peito abaixo.

 
    Como passo a maior parte do dia ao pé dessa janela desejei que a pitangueira estivesse bem carregada de frutos para tê-lo por perto por mais tempo. A árvore não atendeu ao meu desejo, mas a avezinha continuou vindo e aí deu-se o inusitado. Passou a tentar pousar no vidro da janela, escorregando, pendurando-se em seguida no estrito peitoril, bicando o rego do trilho da janela e às vezes o vidro também. De início tomei susto com o barulho das suas asas no vidro e fiquei preocupada, pensando que ele se batia no vidro por não notar a barreira transparente ou porque vendo seu reflexo atacava o ilusório invasor, daí fechei a cortina. Não adiantou, continuou a querer pousar, escorregar e bicar o vidro. Abri o lado da janela, ele posou no peitoril, todo sem jeito, se equilibrando mal, abrindo fechando as asas, escorregando, voando, voltando, repetindo a cena. Além disso, quando fechei a cortina ele foi fazer o mesmo no basculante do banheiro contíguo ao quarto. 


    Esse estranho comportamento já durava dias e o que fora alegria agora era forte preocupação e até certo incômodo, pois antes de cinco horas da manhã ele vinha fazer barulho, me acordar antes da hora. Bom, desconfiei que a ave tivesse sido contagiada pela epidemia de loucura que vem atacando a humanidade, atualmente com maior intensidade. Depois imaginei que ele estava a procura de companheira porque, pelo que li, as saíras andam em par e ele estava sozinho. Namoraria a própria imagem refletida. Um dia entrou pela janela aberta quando eu não estava no quarto e Dilma o encontrou se batendo entre a cortina e o vidro da parte fechada da janela. Com jeito ela conseguiu encaminhá-lo para a saída. E a coisa continuava. O pior é que a gatinha descobriu e se mostrou muito interessada. Chegou a se posicionar à espreita na poltrona que fica encostada a janela. Por segurança fechei a janela bem a tempo da ave apenas se assustar com a má intencionada cara da felina. Pensei, agora ele não volta mais. Que nada, dia seguinte voltou e a cena com a gata também se repetiu, já que a treteira parecia saber a quantas andava a doidice do passarinho e que ele voltaria.


    Na manhã do outro dia seguinte deixei a janela aberta enquanto escrevia, e na hora do almoço sai sem fechá-la. Já na mesa lembrei da janela aberta e fui fechar a porta do quarto para a gatinha não entrar. Mas daí há pouco, não vendo a gatinha, senti arrepio de mau pressentimento. Teria fechado a porta do quarto com a felina dentro? Armara uma cilada para o coitado da saíra? Saí vexada para conferir, tão rápida quanto me permitia o deslocamento com a perna fraturada. Abri a porta. E não é que a gatinha apareceu vindo de debaixo da cama? Senti aperto no coração. Tive medo de investigar a concretização da tragédia. Aparentemente não havia acontecido, mas quem poderia garantir? Nem cobras vencem a agilidade dos gatos... Minha apreensão piorou quando, ao pegar a caneta que caíra ao lado da poltrona, achei umas micropeninhas. Ai, ai. A Gatinha teria mesmo atacado a avezinha? Se ela não morrera na hora, estaria ferida por aí? Resistiria?

    Senti um certo alivio quando lembrei que dias antes o passarinho tinha entrado no quarto e bem podia ter perdido as peninhas quando se batera tentando sair. Precisava de uma esperança. Entretanto ele não voltou a aparecer naquela tarde e nem no dia seguinte. O pior tinha mesmo acontecido? Ou após o susto com a gata teria desistido ou sido curado da insanidade? Continuava em busca de esperança consoladora. O dia terminou sem saíra na pitangueira nem na janela. Veio a noite e a madrugada sem despertador alado na janela a me acordar. E o que antes começara a incomodar, agora fazia falta. O dia nasceu em melancolia. Mas eis que no meio da manhã os galhos da pitangueira balançaram com a chegada dele e de outra avezinha. Ele ainda ensaiou o bizarro ritual no vidro, como aliás são todos os rituais, porém a outra ave levantou voo e ele foi atrás. Daí há pouco voltaram, pularam juntos de galho pra galho. Huumm, ele tinha achado companheira e esquecera a da miragem no vidro. Ao menos essa era minha hipótese, sem compromisso algum com a veracidade insuspeita dos fatos.
 

    Dois dias nesse idílio dava sustentação à minha suposição. Todavia a vida é mesmo feita de desmentidos e hoje, ainda no lusco-fusco da madrugada, fui acordada com ruídos na janela. Pronto, ele voltou à antiga prática. De asas abertas tenta pousar no vidro, escorrega até o peitorial, fica bicando o vidro e o trilho enquanto, mexendo as asas, tenta manter o equilíbrio. A relação acabou? A companheira era só ficante? Ou ela não aguentou as loucuras dele? Agora, ali na pitangueira toda brilhante ao sol da primavera, ele me observa, abre e fecha o bicho cantando baixinho, baixinho, quase imperceptível que meus ouvidos, ainda sem aparelhos auditivos, não conseguem se deliciar com vozinha tão sutil.


 


sexta-feira, 26 de abril de 2024

                                                         

                                  

                                 Cajás do Vale do Canela



Dá surpresa ver os sacos transparentes cheios de pepitas oblongas arrumadinhos na mureta da entrada da Faculdade de Educação da UFBa no Vale do Canela a luzir preciosamente. Não por ser ouro, mas simplesmente cajás do Vale do Canela, mais especificamente, do antigo campinho onde outrora os calouros de jornalismo, como trote, enfrentavam os veteranos numa pelada animada pela plateia feminina, que alternava a torcida com a cata de cajás caindo aos montes.

O trânsito lento àquele horário permitiu que Ivone parasse o carro, ante minha maravilhada exclamação: Cajás! De pronto o vendedor trouxe os pacotes, três por 20 reais. E eu ainda procurei me certificar se eram das cajazeiras dali. Eram. Provavelmente as mesmas que nos presenteavam com seus frutinhos há mais de 50 anos. Sim, eram preciosas relíquias. O campinho desapareceu com a construção da Faculdade de Educação e da Saladearte Cinema da UFBa. Na época daquelas peladas, nem a Faculdade de Administração existia ali, funcionava onde hoje é a sede da OAB na Bahia e Educação era um curso da Faculdade de Filosofia. 

                                          Saladearte no lugar do antigo campinho emoldurada por remanescente cajazeira
 

O campinho deixou de existir, mas as cajazeiras permaneceram. Muitos dos que ali jogavam, torciam e catavam cajás já não estão entre nós. Muita coisa aconteceu, tudo mudou, mas surpreendentemente as cajazeiras permaneceram, felizmente permaneceram para o meu júbilo de agora. Minha ligação com as cajazeiras já vinha de longe no espaço e tempo. Em Praia Grande, subúrbio ferroviário, havia uma enorme cajazeira, que, embora distante umas três casas além da nossa, nos mandava pelo vento alguns dos seus frutinhos. Adolescente, em crise de romantismo, costumava me refugiar sob os pendentes galhos da caramboleira do quintal para escrever, ensaiar pinturas estimulada pelos quadros da minha avó, contudo me punha longamente a contemplar o verde rendilhado da altiva cajazeira espalhado sobre o azul.


Além da bela imponência e dos saborosos frutos também transformados em sucos, geleias e abafabancas por toda vizinhança — que naquela época se repartia o que se tinha — a cajazeira servia ainda para os meninos, entre eles meu irmão, esculpirem anéis, extraindo as protuberâncias do tronco rugoso.  Era uma árvore querida, mas veio a Avenida Suburbana e a  fez  desaparecer juntamente com a  vidinha pacata  que se tinha ali até  então. Aí, anos depois, a alegria de voltar a conviver com as cajazeiras durante o curso de jornalismo e agora de reencontrá-las.

    Tendo essa afetividade com as cajazeiras, tratei de plantar uma no jardim de casa. Ela já tem 18 anos. Plantei o caroço de um cajá que chupei. Provavelmente não experimentarei do seu fruto, tão sem pressa ela está. Mas tenho acompanhadoi seu bem remansoso crescimento.  Desfolhou-se inúmeras vezes, coloquei anteparo contra o vento, mesmo assim parecia morrer. Foram vários ressuscitamentos e agora está linda, tronco bem rugoso. Pouco inclinada, seguindo o pequenino declive do terreno e sob efeito do vento marinho, debruçou-se um pouco sobre o telhado da varanda, servindo de rampa para Mosquito, o gato que gosta de aventuras aéreas.


 Ver, pegar esses reluzentes frutinhos dourados, sentir o cheiro e o sabor tão peculiares foi voo ao mundo das reminiscências, das reflexões e das saudades. Nesse mundo mnemônico, afetivo com um quê onírico, é fácil encontrar todos aqueles que na convivência cotidiana de anos atrás pareciam inseparáveis para sempre, mas que foram se dispersando por aí em novos rumos ou no fim das existências. Como é possível que hoje não estejamos juntos no pátio da Faculdade, na Taba dos Orixás, nas Festas de Largo, nas aventurosas embaixadas a outras cidades, no campinho das cajazeiras! Como é possível que tantos tenham ido tão cedo desta vida e outros, os que ainda restam, apresentem aspectos tão diferentes daqueles rostinhos e disposições juvenis! Cadê aquela vidinha descontraída, comunitária, festiva, tão descuidada pois que livre do mal.  A maldade residia nos porões da ditadura. A violência era prática dos aquartelados e não generalizada como agora!

Meio século, pouco mais, desde quando aconteciam as peladas no campinho do Vale do Canela sob chuvinhas de cajás!  Para nós muito, muito tempo de transformações, perdas, ausências, saudades mas para as árvores, quase nada. Nós, seres indigentes e frágeis, que apesar de toda arrogância e predatória tecnologia continuam precisando de água, alimento e ar, inteiramente dependentes da natureza, passamos e passaremos. Elas, as árvores, continuarão. Nós precisamos delas, mas elas não precisam de nós. Sem dúvida o reencontro com os cajás do Vale do Canela foi motivo de júbilo, mas de um júbilo nostálgico.

 


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

 

E por falar na Fatídica Ponte


 

O dia se fez macambúzio. Havia um estranho silêncio. Os passarinhos que costumam saudar festivamente as auroras, emudeceram. Apesar de toda bela luminosidade do alto verão havia uma certa invisível sombra que se sentia. Sem dúvida, havia um mau presságio no ar que logo se confirmou ao ver as primeiras manchetes do noticiário: “Concessionária começa obras da ponte Salvador-Itaparica...” “Iniciado trabalho de sondagem para identificar características do solo onde será montada a fundação da Ponte Salvador-Itaparica”.

Então a desgraça da Ilha de Itaparica vai mesmo se concretizar? Claro que a construção da ponte ligando Salvador à Ilha já fora anunciada como certa, mas como a esperança é a última que morre, esperava-se que não se concretizasse nunca, não apenas pelo bem da Ilha como da cidade da Bahia. Itaparica vai virar mais um bairro favelado e Salvador será mais ainda descaracterizada com a construções de mais viadutos e destruição de área emblemática da cidade baixa, da Calçada com seu belo histórico prédio da estação ferroviária até a Água de Menino. Tudo isso sem falar do impacto ambiental no mar.

Terrível o que acontece por aqui. Toda cidade antiga que se preza, procura conservar ao menos seu centro histórico. Paris, Amsterdã, Roma e tantas outras, inclusive as brasileiras Ouro Preto, Tiradentes e, até a baiana Mucugê são famosas, são atrativas porque souberam se conservar históricas e formosas. Será que teriam o mesmo encanto se tivessem se enchido de arranha-céus e viadutos? O que se fez e se continua fazendo por aqui é crime porque se destrói a cultura e burrice desmedida porque se enfeando mata o turismo. 


 

Salvador é a primeira cidade do país. Uma cidade medieval fortificada, planejada e fechada por algumas portas, construída numa escarpa sobre o mar, tendo uma topográfica maravilhosa. Até hoje é espetacular quando vista do mar com suas muradas de pedras ladeando ladeiras que descem em direções opostas, se sobrepõem e se encontram em alguns pontos. Além disso pode-se dizer que a cidade da Bahia é o local exato onde nasceu a nacionalidade brasileira e portanto, não deveria ter sido tão transfigurada. Foi aqui que nasceram os primeiros mestiços, filhos da nativa Catarina (provavelmente oriunda da Ilha de Itaparica, já que era filha do cacique Taparica, o maioral da Ilha) e do português Diogo Alves Correia, Caramuru, o primeiro casal oficialmente casado. Como pode uma cidade tão significativa ser hoje essa horrível mistura de ruínas, viadutos, edifícios altos e favelas? E não satisfeitos ainda querem piorar mais ainda.


 

Já a Ilha, apesar das adulterações sofridas, ainda salvaguarda um pouco da sua história, tradições, patrimônio arquitetônico, praças arborizadas, áreas verdes, modo de vida comunitário, algum sossego e certo fascínio. Mas tudo está agora com dias contados, pois juntamente com a ponte virá a multiplicação da população e devastação das áreas verdes ainda restantes, construção de casas, puxadinhos, prédios sem critério, aumento da violência, do barulho e da poluição da terra e do mar... Se com toda dificuldade de travessia, hoje, a ilha já fica superpovoada e insuportável no verão e feriadões, é fácil imaginar o que vai acontecer com a facilidade da ponte. Logo a demora de embarque será transplantada para os engarrafamentos na ponte e muita gente, ao se espremer dentro dos ônibus superlotados, terá saudade dos ferrys e lanchas. Bem disse um antigo pescador da Ilha de Maré numa entrevista: “Onde o progresso chega, a desgraça vem atrás”.

    Sim, o dia se fez sorumbático. Como admitir a existência de um tremendo corpo estranho feito de aço e concreto a macular a bela histórica Baía de Todos os Santos? Como aceitar que os corações continuem empedrados e os ouvidos moucos após tantos alertas quanto às malignas consequências dessa ponte? Não só alertas, mas também desesperadas súplicas como as feitas pelo escritor João Ubaldo Ribeiro, além das sensatas alternativas apresentadas por altamente qualificados urbanistas. Para onde vai esse mundo em que os governantes desrespeitam os mais sábios e simplesmente ignoram os protestos, os apelos, as contribuições oferecidas pela sociedade? Até quando seguirão desprezando o bom senso, passando por cima de tudo e fazendo o que bem querem, sempre priorizando o dinheiro em detrimento à qualidade de vida das pessoas e mesmo a preservação do Planeta e a sobrevivência da espécie humana?

    É, lamentavelmente o dia se fez soturno e assim continuará sendo por outro e muitos outros dias enquanto durar a construção e depois, mais ainda, quando os olhos se depararem com a monstrenga anomalia sobre a ex-bela Baía de Todos os Santos e quando a sedutora Itaparica, como a Itabira de Carlos Drummond de Andrade, for apenas uma fotografia na parede, ou computador, a doer na alma de quem a conheceu outrora.

 



 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

A sina itaparicana

Aqui vou eu também cumprindo a mesma sina de João Ubaldo Ribeiro. Sina contada por ele em tocante crônica. A sina de sempre voltar à Itaparica e se render de muito bom grado ao seu fascínio. Um não sei quê a nos fazer diferentes. Bem entendo o que Ubaldo quis dizer quando escreveu:  “...minha vida, meu pensamento, meus sentimentos e até minha maneira de ver e falar mudam assim que chego, mistério que nunca entendi direito. Passei boa parte da infância na ilha, na casa de meus avós maternos e no meio da vastíssima parentela de todas as extrações. Mas não fui criado lá. Contudo, não sei por quê, é a terra que me prende, da qual nunca me esqueço, onde sempre me sinto bem, onde julgo entender coisas que em outros lugares não entenderia.”  No meu caso o mistério é ainda maior pois nem nasci nem passei a infância em Itaparica.

Não adianta buscar explicação. É mistério e pronto. Basta saber, mais que isso, sentir, que, ainda usando as palavras de João Ubaldo, “é sempre bom voltar e é sempre, com perdão pelo lugar-comum que, aliás, nem quero evitar, uma emoção renovada rever as águas veneráveis da Baía de Todos os Santos e começar a respirar o ar da ilha, enquanto nos aproximamos daquela costa de marés mansas,...” E aqui vou eu, com minha amiga Mara, ótima companheira de viagem e de compartilhamento do fascínio de Itaparica, revendo emocionalmente essas calmas águas veneráveis, respirando esse ar encantado, absorvendo os azuis, os verdes, os ouros das acácias e dos pores-do-sol e me tornando outra pessoa, mais sensível, mais amorosa, talvez até um pouquinho sábia e com certeza, mais feliz.  Tudo isso enquanto recebo o carinhoso acolhimento dos amigos daqui.

Chegamos à tarde, o mar sempre belo, estava num daqueles dias em que a beleza excede  e não resistimos ao insidioso chamado. Mal arriámos as malas, trocamos de roupa e lá fomos nos rebatizar nas águas mornas, transparentes e deliciosas da prainha do balneário. De pronto o reafirmar de duas certezas. Primeiro de que em Itaparica não tem como se ser triste. Segundo, que de muito pouco se precisa para se ser feliz. Mergulhamos, nadamos, boiamos. Maravilha que não se pode descrever, só sentir.  O sol descendo dourava os azuis e tínhamos de ir porque logo viriam as queridas Betinha e Randra. Como de fato vieram. E nos abraçamos com carinhos porque as saudades precisavam ser desfeitas e alegrias do reencontro eram sem tamanho. Sentadas ali na amurada da orla ainda sob suspiros do crepúsculo, atualizamos notícias e conversamos sobre a comemoração do aniversário de João Ubaldo Ribeiro dentro do programa Café com Leitura da Biblioteca.

Mais tarde, lá estávamos Mara e eu, saboreando os especiais “bolinhos da vila” acompanhados do bom molho do chefe entre os goles do vinho enquanto nos submergíamos na noite itaparicana. Com alma leve, leve, o espírito em pleno sossego, contemplávamos o piscar de uma boia de sinalização, as luzinhas em colar orlando as terras do outro lado do canal ou da iluminação do mastro de veleiro passante pelo rumorejante mar obscuro. Depois, de volta para o hotel, andando devagarinho pela calçada ao lado do mar. Era possível até ouvir passos e vozes de antanho a nos contar façanhas da época das invasões holandesas ou das batalhas da guerra da independência, ou casos de pescadores, ou cochichar de namorados, ou cantigas de rodas ou doces acalantos. Assim a sedução se cumprindo logo na chegada.

Nos dias seguintes a coisa só fez se intensificar começando cedo no variado café da manhã degustado na varanda arcada quase sobre o mar, com direito à inquietude sonorosa dos sanhaços e bem-te-vis entre os dourados cachos das acácias. Ao largo, um barco pó-pó-pó, se indo pra rotina do dia. Depois, a afetiva recepção sucessiva dos amigos: a elegante delicada Carmem, o sempre gentil Antonio, a carinhosa Noêmia acompanhada de Zete e o pequeno, já não tão pequeno, Pedro, o versátil Raimundo Coelho, o  irreverente Yulo coberto de razão e de sentimento de pertencimento a essa terra que adotou;  Roberto, vindo da Coroa só para me ver trazendo de presente as mudinhas de junquilho. E por falar em presentes, também recebi mimos de Betinha e de Isabel, a grande amiga mineira-itaparicana-cidadã-do-mundo de  há uns quatro anos, mas que não nos encontramos pessoalmente e lamentavelmente ainda não foi dessa vez, pois quando chegou eu tinha saído. Mesmo assim deixou sacolinha com suas dádivas  para mim. Ainda faltou gente porque foram apenas três dias.

Houve o jantar no solar dos reis, entre paredes e colunas de pedras, barro e cal feito de conchas marinhas a nos remeter ao pretérito, quando originalmente o casarão foi erguida pelo armador de baleia João Francisco de Oliveira, ou quando serviu de pouso a  D. João Vi em sua passagem pela Bahia rumo ao Rio de Janeiro, a D. Pedro I na época da independência e muitos anos depois a Dr. Pedro II.  Houve o almoço no Largo da Quitanda contemplando o mar e tendo por sobremesa a taboca, vendida à moda antiga e os sorvetes de coco verde feito com a própria água do coco e o também delicioso sorvete africano, todos sem gordura hidrogenada, da sorveteria do artista plástico Sérgio Saldanha. Em Itaparica é assim, uma sorveteria  é de artista plástico e a outra do escritor contador de casos Gregório Gomes, agora, infelizmente, finado.

 

Houve o encanto do canto de prainha lisa, transparente abaixo ao cais, que além do banho sublime tornou-se ponto de descobertas de interessantes pessoas amigáveis de conversas fartas:  Rosângela, a  corajosa, desprendida que viera sozinha passar o dia em Itaparica a fotografar tudo  e a se fotografar; o maduro casal Cândido e Rosa que apesar de amorosos mantinham a sabedoria de morarem cada um em suas casas, ele em Mar grande e ela no sítio na Misericórdia;  a simpática Jane, vinda de Nazaré das Farinhas a revelar lúcida consciência social. Todos surpreendendo nas conversas em que passavam lições de vida.

E ainda teve mais, teve a divertida pescaria da amurada defronte do hotel. Um monte de gente de uma mesma família misturados a vários outros, com varas de pescar, gererê de cabo comprido, tarrafa, todos solidários e entre eles, se destacando pelas observações e dicas, estava Branca. A  experiente pescadora, religiosa sem ser alienada e um tanto filósofa com quem batemos bom papo. A folia era grande. Uns gritavam, “olhe a agulhinha”, “vai, vai”. E o do gereré corria tentando pegá-la, mas já na boca da armadilha, a bichinha escapava, apesar da animada torcida. Isso umas três vezes. Alguém se queixava que os robalos apenas abocanhavam os camarões frescos da isca (segundo Branca, robalo só come camarão fresco, se já estiver passando, eles não querem saber) sem se prenderem no anzol. De repente uma tainha saltou e novos gritos de incentivo como acontece numa partida de futebol quando o jogador está na boca do gol. E aí foi a vez da tarrafa ser jogada. Gritos de festejo de vitória, mas qual o que, a noite não estava para pescador. 

Dormimos tarde nessa noite, mas muito bem, obrigada, sob os efeitos da fina sedução de Itaparica.