Estranha História Saíra Amarela
Primeiro apareceu na reluzente pitangueira sob o sol de primavera bem rente à janela. Achei que vinha atrás das escassas pitangas mirradas, que esse ano a safra foi diminuta. E de fato, o vi pegar uma bem vermelhinha e lustrosa. Era um ilustre desconhecido, eu nunca tinha visto por aqui, só sabia que era muito lindo, tal qual uma fadazinha benfazeja a me dar bom dia e fiquei feliz. Isso devia bastar, mas logo tratei de lhe identificar, conforme a doentia mania dos humanos de tudo querer nomear. Dai percebi como a tecnologia ainda está atrasada (ou é minha ignorância que ainda não sabe?) pois não há como pesquisar por imagem, ou seja, obter informações a respeito de alguma coisa, a partir de uma fotografia. Contudo pela descrição e comparação com as imagens da internet consegui descobrir que aquele alado sersinho amarelo e preto era a Saíra Amarela e que apesar do nome feminino era macho, uma vez que a fêmea tem cor menos intensa sem o longo preto que se estende pelo peito abaixo.
Esse estranho comportamento já durava dias e o que fora alegria agora era forte preocupação e até certo incômodo, pois antes de cinco horas da manhã ele vinha fazer barulho, me acordar antes da hora. Bom, desconfiei que a ave tivesse sido contagiada pela epidemia de loucura que vem atacando a humanidade, atualmente com maior intensidade. Depois imaginei que ele estava a procura de companheira porque, pelo que li, as saíras andam em par e ele estava sozinho. Namoraria a própria imagem refletida. Um dia entrou pela janela aberta quando eu não estava no quarto e Dilma o encontrou se batendo entre a cortina e o vidro da parte fechada da janela. Com jeito ela conseguiu encaminhá-lo para a saída. E a coisa continuava. O pior é que a gatinha descobriu e se mostrou muito interessada. Chegou a se posicionar à espreita na poltrona que fica encostada a janela. Por segurança fechei a janela bem a tempo da ave apenas se assustar com a má intencionada cara da felina. Pensei, agora ele não volta mais. Que nada, dia seguinte voltou e a cena com a gata também se repetiu, já que a treteira parecia saber a quantas andava a doidice do passarinho e que ele voltaria.
Na manhã do outro dia seguinte deixei a janela aberta enquanto escrevia, e na hora do almoço sai sem fechá-la. Já na mesa lembrei da janela aberta e fui fechar a porta do quarto para a gatinha não entrar. Mas daí há pouco, não vendo a gatinha, senti arrepio de mau pressentimento. Teria fechado a porta do quarto com a felina dentro? Armara uma cilada para o coitado da saíra? Saí vexada para conferir, tão rápida quanto me permitia o deslocamento com a perna fraturada. Abri a porta. E não é que a gatinha apareceu vindo de debaixo da cama? Senti aperto no coração. Tive medo de investigar a concretização da tragédia. Aparentemente não havia acontecido, mas quem poderia garantir? Nem cobras vencem a agilidade dos gatos... Minha apreensão piorou quando, ao pegar a caneta que caíra ao lado da poltrona, achei umas micropeninhas. Ai, ai. A Gatinha teria mesmo atacado a avezinha? Se ela não morrera na hora, estaria ferida por aí? Resistiria?
Dois dias nesse idílio dava sustentação à minha suposição. Todavia a vida é mesmo feita de desmentidos e hoje, ainda no lusco-fusco da madrugada, fui acordada com ruídos na janela. Pronto, ele voltou à antiga prática. De asas abertas tenta pousar no vidro, escorrega até o peitorial, fica bicando o vidro e o trilho enquanto, mexendo as asas, tenta manter o equilíbrio. A relação acabou? A companheira era só ficante? Ou ela não aguentou as loucuras dele? Agora, ali na pitangueira toda brilhante ao sol da primavera, ele me observa, abre e fecha o bicho cantando baixinho, baixinho, quase imperceptível que meus ouvidos, ainda sem aparelhos auditivos, não conseguem se deliciar com vozinha tão sutil.















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