sexta-feira, 26 de abril de 2024

                                                         

                                  

                                 Cajás do Vale do Canela



Dá surpresa ver os sacos transparentes cheios de pepitas oblongas arrumadinhos na mureta da entrada da Faculdade de Educação da UFBa no Vale do Canela a luzir preciosamente. Não por ser ouro, mas simplesmente cajás do Vale do Canela, mais especificamente, do antigo campinho onde outrora os calouros de jornalismo, como trote, enfrentavam os veteranos numa pelada animada pela plateia feminina, que alternava a torcida com a cata de cajás caindo aos montes.

O trânsito lento àquele horário permitiu que Ivone parasse o carro, ante minha maravilhada exclamação: Cajás! De pronto o vendedor trouxe os pacotes, três por 20 reais. E eu ainda procurei me certificar se eram das cajazeiras dali. Eram. Provavelmente as mesmas que nos presenteavam com seus frutinhos há mais de 50 anos. Sim, eram preciosas relíquias. O campinho desapareceu com a construção da Faculdade de Educação e da Saladearte Cinema da UFBa. Na época daquelas peladas, nem a Faculdade de Administração existia ali, funcionava onde hoje é a sede da OAB na Bahia e Educação era um curso da Faculdade de Filosofia. 

                                          Saladearte no lugar do antigo campinho emoldurada por remanescente cajazeira
 

O campinho deixou de existir, mas as cajazeiras permaneceram. Muitos dos que ali jogavam, torciam e catavam cajás já não estão entre nós. Muita coisa aconteceu, tudo mudou, mas surpreendentemente as cajazeiras permaneceram, felizmente permaneceram para o meu júbilo de agora. Minha ligação com as cajazeiras já vinha de longe no espaço e tempo. Em Praia Grande, subúrbio ferroviário, havia uma enorme cajazeira, que, embora distante umas três casas além da nossa, nos mandava pelo vento alguns dos seus frutinhos. Adolescente, em crise de romantismo, costumava me refugiar sob os pendentes galhos da caramboleira do quintal para escrever, ensaiar pinturas estimulada pelos quadros da minha avó, contudo me punha longamente a contemplar o verde rendilhado da altiva cajazeira espalhado sobre o azul.


Além da bela imponência e dos saborosos frutos também transformados em sucos, geleias e abafabancas por toda vizinhança — que naquela época se repartia o que se tinha — a cajazeira servia ainda para os meninos, entre eles meu irmão, esculpirem anéis, extraindo as protuberâncias do tronco rugoso.  Era uma árvore querida, mas veio a Avenida Suburbana e a  fez  desaparecer juntamente com a  vidinha pacata  que se tinha ali até  então. Aí, anos depois, a alegria de voltar a conviver com as cajazeiras durante o curso de jornalismo e agora de reencontrá-las.

    Tendo essa afetividade com as cajazeiras, tratei de plantar uma no jardim de casa. Ela já tem 18 anos. Plantei o caroço de um cajá que chupei. Provavelmente não experimentarei do seu fruto, tão sem pressa ela está. Mas tenho acompanhadoi seu bem remansoso crescimento.  Desfolhou-se inúmeras vezes, coloquei anteparo contra o vento, mesmo assim parecia morrer. Foram vários ressuscitamentos e agora está linda, tronco bem rugoso. Pouco inclinada, seguindo o pequenino declive do terreno e sob efeito do vento marinho, debruçou-se um pouco sobre o telhado da varanda, servindo de rampa para Mosquito, o gato que gosta de aventuras aéreas.


 Ver, pegar esses reluzentes frutinhos dourados, sentir o cheiro e o sabor tão peculiares foi voo ao mundo das reminiscências, das reflexões e das saudades. Nesse mundo mnemônico, afetivo com um quê onírico, é fácil encontrar todos aqueles que na convivência cotidiana de anos atrás pareciam inseparáveis para sempre, mas que foram se dispersando por aí em novos rumos ou no fim das existências. Como é possível que hoje não estejamos juntos no pátio da Faculdade, na Taba dos Orixás, nas Festas de Largo, nas aventurosas embaixadas a outras cidades, no campinho das cajazeiras! Como é possível que tantos tenham ido tão cedo desta vida e outros, os que ainda restam, apresentem aspectos tão diferentes daqueles rostinhos e disposições juvenis! Cadê aquela vidinha descontraída, comunitária, festiva, tão descuidada pois que livre do mal.  A maldade residia nos porões da ditadura. A violência era prática dos aquartelados e não generalizada como agora!

Meio século, pouco mais, desde quando aconteciam as peladas no campinho do Vale do Canela sob chuvinhas de cajás!  Para nós muito, muito tempo de transformações, perdas, ausências, saudades mas para as árvores, quase nada. Nós, seres indigentes e frágeis, que apesar de toda arrogância e predatória tecnologia continuam precisando de água, alimento e ar, inteiramente dependentes da natureza, passamos e passaremos. Elas, as árvores, continuarão. Nós precisamos delas, mas elas não precisam de nós. Sem dúvida o reencontro com os cajás do Vale do Canela foi motivo de júbilo, mas de um júbilo nostálgico.