quarta-feira, 9 de maio de 2018


AROEIRA

Acordo para a faiscância dos tremulantes diamantes salpicados na aroeira pela chuva da noite que nem vi. De imediato me lembro da canção de Dolores Duran e me ponho a cantar “É de manhã, vem o sol / mas os pingos da chuva que ontem caiu / ainda estão a brilhar, / ainda estão a dançar / ao vento alegre que me traz esta canção..” A janela do meu quarto já não se abre para o sempre luzente pau-brasil. Agora a árvore nacional é outra, que dadivosamente florida se oferta aos incontáveis pássaros ávidos pelas florezinhas.
Logo a movimentação é grande. Sabiás e sanhaços de todo tipo, pitiguaris, sebinhos, até o alma de gato, o arredio sofrê e alguns outros que não identifico. Fazem a festa para meus olhos e coração. Da cama fico a observá-los, indo e vindo, dando pulinhos fazendo cair  as gotículas cristais penduradas nas pontas de folhas, equilibrando-se nos galhos fininhos que chegam á beira da janela, quase entrando no quarto. Outro contentamento é ver que a aroeira, semeada por mim anos atrás, cresceu tanto, chegando lindamente ao andar de cima.   
Adoro aroeira, se bem que adoro a mangueira com suas copas densas de verde escuro; a fruta-pão de grandes folhas recortadas, o imponente tamarindeiro quase eterno de finas folhinhas azedinhas, a cajazeira também de copa rendilhada e tronco rugoso usado pelas crianças de antigamente para fazer anéis... Enfim, amo a todas, são belos seres especiais que nos garantem a existência na terra.   E sofro quando as vejo sendo mutiladas e assassinadas, tanto quanto sentiria se fosse uma pessoa.
Contemplando a ramaria se projetando sobre o azul do céu carregada de flores e pássaros, ouço chegar de longe no tempo a cantiga de roda, “Bambu tirabu / Aroeira manteigueira / Tirará alguém / Para ser bambu”.  Daí me levanto e vou pesquisar. E como desconfiava são muitas as referências a aroeira na música e poesia popular.  Luiz Gonzaga compara a comichão que a aroeira brava provoca como o amor, Elizeth Cardoso canta “Ê aroeira já secou / Ê aroeira já secou / Já secou por que?” Jessier Quirino rememora A cumeeira de aroeira lá da casa grande.
E eis que aporto na composição de José Fortuna e não resistindo, transcrevo primeira estrofe: “Esteio de aroeira corroído pelos anos / O vendaval do tempo até hoje tu resiste / Quem hoje vê teu vulto no sertão abandonado / Não sabe que encerras uma história longa e triste / Meu pai que te plantou na terra dura lá da mata / Tu foste a cumeeira do teu rancho pequenino / Só o vento frio da noite e o cantar dos curiangos / Ficaram acompanhando a solidão do teu destino”
Aí lembro de um esteio de aroeira na cerca da chácara de Monte Gordo, que começou a virar árvore. Um dia, o vizinho inventou de tocar fogo no mato bem junto à cerca, queimando o brotado mourão já grandinho. Ele se desculpou, mas fiquei sentida. Contudo, eis que passado algum tempo a aroeira, tal qual a fênix, renasceu das cinzas. O mourão calcinado brotou, voltando a ser árvore, a comprovar a sua fama do dito popular “a madeira da aroeira dura a vida toda e mais 100 anos”. Tanto que, devido a esta capacidade de resistir ao fogo e de rebrotar várias vezes, serve como barreiras corta-fogo. Mas esta é apenas uma das inúmeras utilidades da Aroeira, útil desde como cipó de dar nas costas de quem faz por merecer.
A propósito, uma referência aos ramos de aroeira como chicote se tornou elemento  subversivo decretado pela censura da ditadura militar, quando na época dos festivais de música popular brasileira, Geraldo Vandré cantou “É a volta do cipó de aroeira / No lombo de quem mandou dar”. Antes de ser chicote é árvore medicinal tida como adstringente, afrodisíaco, balsâmico, cicatrizante, depurativo, diurética, laxante, tratando dores ciática, febre, reumatismo, diarreia, feridas, gota, inflamação, ínguas, leucorreia, sífilis, problemas urinários, inflamações de útero, matéria prima de cosmético e madeira de mil e uma utilidade.  O frutinho de sabor peculiar entre adocicado e picante é delicioso condimento, famoso na França como o nome de pimenta vermelha.
Olhando a minha despretensiosa e generosa aroeira, totalmente perfumada das folhas aos frutos me encho de orgulho. E torço para que a sensibilidade e o bom senso cheguem aos administradores públicos, levando-os a arborizar as ruas com aroeiras, árvore ideal para isso: nativa resistente, frondosa, de frutificação duradoura e belíssima com seus lustrosos frutinhos vermelhos em cacho (é a cerejeira nacional), que atraem inúmeros pássaros. E mais, nas palavras do o biólogo Dilson Ferreira, “não arrebenta calçadas, aceita poda, faz pouca sujeira e não atrapalha o trânsito de grandes veículos na rua”.  Espero nunca mais ver o que já vi acontecer: ao se fazer uma praça, em Vilas do Atlântico cortaram todas as aroeiras (e eram muitas) que havia no terreno, substituindo-as por plantinhas decorativas sem copa para sombra, deixando os bancos de jardim ao sol inclemente.
Volto a admirar a minha aroeira carregadinha de flores e passarinhos. Agradecendo a mim mesma por tê-la semeado, vou tomar café cantando “Bambu tirabu / Aroeira manteigueira / Tirará alguém / Para ser bambu”. Vou feliz da vida e sustentando a crença de que o Prefeito de Salvador não cometerá o anunciado assassinato de mais de 500 frondosas árvores para instalação de um obsoleto e inútil BRT.