quinta-feira, 25 de agosto de 2022

Ipê e Valdomiro

 

De repente, no meio da primavera antecipada na segunda quinzena de agosto, o inverno irrompe com ventos fortes muito frios e alguma chuva a lembrar que a regência do tempo ainda lhe pertence e que a primavera espere a sua vez. No instante em que nisso penso, recebo do professor Jonilson a foto de um majestoso ipê amarelo, puro ouro sobre o azul no enquadramento da foto, a atestar a continuação do inverno, pois, como se sabe, os ipês são árvores invernais.

E justo no momento que contemplo a foto, recebo a notícia da morte de Valdomiro Santana. Meu amigo escritor, ensaísta, amante das artes e de tudo que é bom, belo e toca a alma. Questionador, crítico severo, às vezes intransigente, a ponto de fazer inimizades, mas sempre autêntico a inspirar confiança. Podia dele se discordar, mas jamais dizer que tivesse dois pesos e duas medidas. Não se furtava de dizer o que pensava para agradar ninguém, nem ao melhor amigo, nem à maior autoridade.

Por isso mesmo, eu muitas vezes submeti meus escritos à sua apreciação e quando da organização do meu livro de crônica pedi a ele que fizesse a revisão e me ajudasse na seleção e ordenamento das crônicas. Isso porque eu sabia que ele faria com isenção, apontando erros, sem nenhuma concessão, como aliás, o fez. Mas, para além do rigor com que impunha seu senso crítico e defendia seus pontos de vista ele era sensível e afetuoso em essência. Comovendo-se com facilidade e derramando ternuras. Como demonstram as mensagens do extenso carteado que mantivemos.

Ante a bela foto do ipê e a triste notícia, naquele estado indefinido entre a incredulidade, pasmo e lembranças, recorri ao arquivo das mensagens de e-mails que me enviava. E na primeira que li, aleatoriamente, ele contava que tivera um sonho em que eu aparecia como um ipê de onde saia inúmeros pássaros coloridos. E essa coincidência dos ipês da foto e do email com a notícia da sua saída desse mundo deu o que imaginar. Continuei lendo os e-mails em que se revela o intelectual erudito e perfeccionista no seu modo de ser gentil e afetivo. Numa dessas mensagens ele assim graceja falando coisa séria:

“Um gesto meu, bem pueril, me ocorreu agora: mandar fazer uma faixa (fundo branco e letras em vermelho e verde) e colocá-la na entrada do condomínio onde você mora: EU GOSTO DE VOCÊ. Não colocaria seu nome, para não individualizar, e assim essas quatro palavras luminosas serviriam para aquecer por dentro muitas pessoas, no sentido de torná-las menos egoístas e mais ternas. Muita gente se perguntaria: quem botou essa faixa aí? Quem é esse EU e quem é esse VOCÊ? E essas quatro palavras virariam uma epidemia em outros condomínios. Iriam se espalhando, se espalhando, ganhando espaços, bocas, ouvidos, corações. Teriam o poder de um poema de Quintana e de um de Cecília juntos, já pensou?”

          

  Em outra mensagem, voltando ao mesmo tema, diz: “As quatro palavras mais importantes para qualquer ser humano são: "Eu gosto de você". O afetivo é o efetivo. É o que fica. Sem isso a vida não vale nada. Quando uma pessoa ouve essas quatro palavras, ela se ilumina por dentro e por fora. Ilumina-se e pulsa. Toda a experiência humana gira em torno dessa expectativa, da recepção que daí pode advir, do que flui uma pele para a outra pele.”

E em mais uma mensagem,  explica seu processo de criação, deixando evidente a aplicação do rigor  a si próprio:  “ Na verdade, me dou à escrita literária em doses homeopáticas. Reescrevo mais do que escrevo. Horas e horas, dias, cortando, limando, curtindo o som de uma palavra, revirando-a, experimentando mil coisas com ela, seu jogo na composição de uma frase etc.” E por ai vai, e por aí vou pinçando trechos reveladores, mas que não cabem no espaço de uma crônica.

Voltando à foto do ipê. Lembro da lenda, que Valdomiro bem gostaria saber, se é que não sabia. Conta-se que quando Deus estava preparando o mundo, reuniu todas as árvorese pediu que cada uma escolhesse a época em que gostaria de florescer e embelezar a Terra. Foi aquela folia. Alegremente diziam: “Outono”, “verão”, “primavera”. Mas nem uma vez se escutou alguma dizer inverno. Notando isso, Deus parou a reunião e perguntou por que ninguém escolhia o inverno. Cada uma tinha sua razão: “porque o inverno é muito seco!”  “E muito frio!” “E tem muitas queimadas! 

Então Deus falou: “Eu preciso de pelo menos uma árvore, que embeleze o inverno, que seja corajosa, para enfrentar o frio, a seca e as queimadas. No inverno, também  a Terra precisa de flores para embelezar o ambiente dos homens....” Silêncio... Todas as árvores calaram-se. Foi então que uma árvore quietinha lá no fundo, falou: “Eu vou! Eu quero florescer no inverno”. Sorrindo Deus perguntou qual era o nome dela. E ela disse se chamar Ipê.

E enquanto as outras árvores se mostravam surpresas com a coragem do Ipê em querer florescer no inverno. Deus decretou: “Por atender meu pedido farei com que você floresça no inverno não só com uma cor, mas com muitas cores para que também no inverno o mundo seja colorido. Terás diferentes cores e texturas e sua linhagem será enorme”. E assim, uma das mais lindas árvores que existem dá cor e diminui a melancolia ao inverno cinzento.  

Acredita-se que fechar os olhos e imaginar um Ipê-amarelo favorece a cura do corpo e da alma. E eu tendo um belíssimo ipê amarelo diante dos olhos, a ele recorro em busca de alento para a tristeza que me vai na alma nesse instante de perda de mais um amigo querido.       



 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

 

Um Ponto de Luz


 

 Na madrugada escura há um ponto de luz diante da janela aberta. Da minha cama posso vê-lo bem. Um ponto de luz único, muito brilhante, grande, muito grande, maior que os   demais astros vistos por nós a olho nu. Eu não sei se é uma estrela ou um planeta e qual nome tem. Meus parcos conhecimentos de astronomia, malmente me permitem identificar as Três Marias (O Cinturão de Orion) e o Cruzeiro do Sul. E que importa o nome? Seria tão só uma denominação inventada por alguém. Importa que é um ponto de luz, que solitariamente brilha, uma piscadela do universo, um aceno que me acorda às 4h da manhã, me põe, primeiramente a contemplar e depois a pensar, pensar, longamente pensar.

Se eu fosse ainda suficientemente criança, diria que esse ponto de luz é a minha estrela da boa sorte a me velar. É bom, muito bom crer nisso, pois que é confortante ter uma estrela a nos garantir boa sorte, como o é também ser zelado, ainda que por um pingo de luz no escuro da noite. Mas como não sou mais suficientemente criança, lembro que não posso chamá-la de minha. Outros insones, devem agora mesmo estar dizendo, minha estrela. Naturalmente,  ela é de cada um que a vê e admira, é de todos, todavia não é de ninguém, tal qual a Tereza da Praia, da dupla Dick Farney e Lúcio Alves, música de Tom Jobim  e Billy Blanco. Assim cientifica que não é preciso ter para dispor, ou dito de outra maneira, é possível ter sem possuir, o que representa um aprendizado do desapego e da partilha. E lá vai o pontinho de luz passando lições da arte de viver.

O amanhecer se insinua no suave clarear do horizonte. E o ponto de luz, se torna ainda mais brilhante E eis que já o imagino como um farol a alertar para os perigos e a apontar o caminho seguro a seguir. Ter uma guiança em meio à acidentada escuridão oceânica da vida é também muito confortante. Mas não basta ter o mapa, é preciso saber como segui-lo. A luz ilumina a rota, mas não aplaca ventos nem amansa ondas. O caminho está traçado, mas a travessia é que são elas.  Ai! que esse belo pontinho de luz com sedução e as esfíngicas piscadelas, conforta e inquieta ao mesmo tempo.  

Pintura: Eduardo Espinheira

            Tento voltar a dormir, mas continuo a contemplar e refletir. E me indago: Do tal ponto de luz, a Terra seria vista tal qual eu o via?  Seria, então, um contato imediato de primeiro grau entre o planetinha azul e o astro não identificado? Mais uma coisa que não sei, nem saberei. Mais uma constatação do tanto que não se pode saber. E eu que já quis saber tudo... E até acreditava que seria possível... Dura aprendizagem o da resignação ou da aceitação do cosmo como é, dos enigmas e mistérios, das impossibilidades, das limitações pessoais, da própria ignorância e pequenez.

Já disse em crônicas, e volto a repetir, que nada como a contemplação do céu para nos fazer ver a nossa real condição e dimensão no universo. Diante da imensa incógnita e infinitude do espaço sideral, das galáxias e dos sistemas estelares, a ínfima individualidade humana só não é nula, porque no cosmo, composto de sistemas e subsistemas interdependentes, nada é insignificante. Isto pode servir de algum consolo, mas deixa claro que não há  lugar para nenhuma presunção.  Sem dúvida, esse ponto de luz é mesmo confortante e inquietante, dubiamente dual, como quase tudo na vida.

A alba se alarga. As cores do amanhecer se espalham. Uma nuvem passa encobrindo o ponto de luz e quando se vai, o clarão do novo dia já havia a apagado a noite, assim como a noite havia apagado o dia anterior. A luz que revela, também oculta no excesso de claridade.  A escuridão que esconde, também realça a luz na escassez de claridade. Piscou filosoficamente o Ponto de Luz que havia na madrugada ao desaparecer no clarão do sol.

                                                                             Pintura: Eduardo Espinheira
                                                                                                                               
                                                                                                                08/02/2022