A saga do sabiá
Parece
até sina o tanto que os sabiás têm estado nos meus escritos, mas como não contar
esta aventura? Ainda não eram seis horas,
quando tudo começou. O dia remanchava na
barra do nuvioso horizonte outonal quando fui arrancada do sono por uma
barulheira no teto do quarto. Se fosse gaulesa teria pensado que os céus caiam
na minha cabeça. Naquele instante não pensei, porém o susto não foi menor.
Um
pássaro voava batendo-se no forro. Pousou na beirinha da parede que sustenta o
caibro bem em cima da cama. Fiquei quieta para não espantá-lo, certa de que
logo sairia pela janela lateral por onde devia ter entrado. Mas nada. Andava
aos pulinhos, parava, dava novos voos doidos querendo varar o teto. Talvez para
ele o branco do forro fosse nuvens. Não se dava conta de que se encontrava numa
espécie de alçapão, embora com passagem aberta. Pé ante pé, acabei de abrir a
janela para facilitar sua saída. Apesar do cuidado, provoquei novos voos tortos.
Voltei
a aquietar-me na cama. Contudo o sabiá de praia, a esta altura já identificado,
continuava voando para cima sem olhar para baixo nem pros lados. Agora também
pousava na parede da frente, após algumas investidas contra o telhado. Queria
muito tirá-lo dessa enrascada, mas como? Qualquer movimento levava-o a se agitar.
Começou a piar chamando alguém dele. Talvez fosse filhote ainda sem destreza de
voo, apesar do tamanho.
Imóvel na cama e penalizada pensava. A janela
estava bem ali, deixando às vistas os ramos floridos da aroeira a balançar ao
vento. Ele não via. Chegou a ficar na beira do armário pertinho da janela, porém
manteve-se virado para outro lado, olhos voltados para o alto. Era como os inflexíveis que relutam em mudar de
perspectiva, se apegam a falsas certezas, ou buscam uma única solução longe, quando
a tem ao pé de si.
O anseio pelo céu era tal, que não podia
entender que muitas vezes para se chegar ao topo é preciso antes descer. Mostrava
o quanto o pânico turva o raciocínio ao ponto de repelir a salvação. Eu queria
muito acudí-lo, mas não se pode ajudar a quem não quer ser ajudado por estar
cego pelo medo, ou orgulho, ou outro motivo qualquer. Eu estava na impotência.
Como chegar até ele? Como fazê-lo olhar para baixo e ver a saída?
O
tempo passava, eu me inquietava, não podia mais ficar imóvel. Precisava ir à
fisioterapia. De que modo me arrumar sem espantá-lo? Passou a piar mais alto. Não
tinha jeito, me levantei. Ele voou se batendo no teto na direção da porta do
quarto, defronte da qual, fica uma janela basculante de bom tamanho e aberta.
Pronto, pensei aliviada, agora ele sai. Saiu nada! Pousou na beira da parede
acima da janela, sempre olhando para o alto. Terminei de me ajeitar com o
máximo de cuidado. Vi que o basculante do banheiro também estava aberto. Ele
tinha três possibilidades de saída, mas não enxergava nenhuma.
Minha
esperança era que com minha retirada ele se acalmasse e acertasse ir embora. Mas que nada! Quando voltei o sabiá ainda se
encontrava no quarto na mesma agonia. Estava há horas nisto, sem comer nem
beber. Lúcia colocou fatia de mamão e vasilha com água na janela na tentativa
de atraí-lo para abertura. Deixei-o sozinho novamente à vontade para a refeição
e o voo de libertação. Entretanto não deu certo. Depois do almoço voltei para o
quarto precisando usar o computador, porém, mais uma vez, para evitar que ele
se debatesse demais, fiquei a ler na espreguiçadeira sem me mexer.
Agora
em desespero, o sabiá quase não mais parava, ia continuamente de uma parede a
outra, sempre bem rente ao teto. De bico aberto mostrava cansaço. A situação já
durava cerca de oito horas. A tarde avançava, o bichinho sem descanso e sem
comer. Se não conseguira sair até então, não seria ao anoitecer que
conseguiria. Alguma coisa precisava ser feita, apelei pra uns e outros, ninguém
sabia o que fazer. Na aflição, bestamente, pensei usar uma escada de abrir para
tentar pegá-lo ou fazê-lo descer o voo. Ideia que só serviu para Matilde rir e
gozar da minha cara. Enfim, ela sugeriu espantá-lo
com uma vassoura em direção a uma das janelas. Resolvemos experimentar.
Ante
da vassoura chegar o basculante do
banheiro foi tomado por curiosos expectadores, os micos que ameaçavam entrar e
complicava mais ainda a coisa, barreirando uma das possíveis saídas. Nem
tivemos tempo de pô-los para fora, a ação vassoural havia iniciado. O bichim era mais teimoso do
que a mula e taurino juntos. Não descia. Voava mais agitado. Só restava uma
solução, terminar de cansá-lo. Nem foi preciso muito, exausto logo caiu, correu para baixo da cama, tentou
escapar, tombou na mesinha de cabeceira, onde Lúcia, com maior destreza,
conseguiu agarrá-lo.
Não
se entregou fácil, não. Debateu-se nas mãos delas e me deu bicadas quando
gotejei água no seu bico. Ao chegarmos à janela para soltá-lo, vimos os micos a
postos na aroeira e cajueiro, tivemos de espantá-lo, no que fomos ajudadas por
um, ou uma, sabiá que os puseram a correr. Seria a mãe, o pai, ou apenas um
igual solidário? Soltamos a nossa avezinha, nossa não por posse, mas por
carinho. Ufa! Lá se foi para um galho distante do cajueiro. Lúcia ainda desceu
do quarto para lá embaixo conferir onde ele fora se alojar. Mas já tinha batido
asas. Afinal pôde voar para o céu como tanto tentou durante tantas horas. Conosco
ficaram cinco peninhas caídas na labuta do resgate.



