terça-feira, 3 de abril de 2018


A casa das grades amarelas






A casa das grades amarelas, de inicio era apenas uma referência de localização da casa sem número na Rua Juracy Magalhães, em Itaparica. Mas logo a expressão ganhou a conotação afetiva para mim e para todos os frequentadores que nela se sentiam muito bem. Dizer a casa das grades amarelas era, e ainda é, referir-se a um refúgio encantado, acolhedor de amigos e afetos. É uma bela casa antiga, como já não se fazem mais. Deve ter cerca de 70 anos.  Nela moramos durante três anos e sete meses, tempo suficiente para incluí-la na sentimental história de vida, que se revela em detalhes muito vivos nas retinas e no coração.
E nesta manhã de outono azul, nas lonjuras em que estou entre árvores e dunas, embarco  na nuvem barco chamado saudade e navegando pelo mar da memória, eu vou.  Chego diante dos muros de pedras encimados pelas famosas grades amarelas, entro subindo a escadinha de pedras ladeada pela mureta corrimão, sigo pelo caminhozinho calçado por largas pedras, que divide o jardim em dois lados, cada qual, com um coqueiro tremulante à menor brisa vinda do mar. À esquerda a vistosa pitangueira, festa dos passarinhos e da gente nas generosas safras, dá as boas vindas como sempre.
Na varanda da frente, atrás da imponente arcada de pedra, estão o velho sofá de um lado e no outro a mesa de vidro e cadeiras de ferro pintadas de branco com almofadinhas de listas amarelas e brancas. Cantinho de contemplação da lua cheia, das cantorias, das muitas conversas e comilanças, especialmente do escaldado dos siris-boias recém-comprados na porta de casa e acompanhado do perfeito pirão de Noêmia e da nossa alegria. Na varandinha lateral, igualmente com arcadas de pedras, a significativa rede e a espreguiçadeira, mirante dos vários passarinhos — que vinham tomar banho no prato de barro e comer as bananas e os milhos quebrados colocados no muro defronte — e dos muitos verdes, sobretudo das velhas enormes mangueiras a transmitir sensação de proteção e paz. 
Ah, mangueiras! Uma floresta delas circunda a casa, pelo fundo e laterais. Da casa mesmo, somente a manga Itiúba, mas nos fartávamos também com as mangas rosas e espadas dos vizinhos. Desconhecendo propriedades privadas e ignorando divisórias humanas, as mangueiras se ofertam abundantemente. No quintal com portões de ferro também pintados de amarelo, ainda estavam as bananeiras, a goiabeira, os pés de acerola e aroeira. Entro e admiro a grossura das paredes, a amplidão dos cômodos, a sala com palaciano piso de ladrilhos pretos e brancos, tabuleiro de damas.
Continuo revendo os peculiares pormenores: a porta da frente em arco e postigo gradeado e a do lavado com inusitado postigo abrindo por fora; as enormes janelas, a da sala com cerca de dois metros de largura por três de altura, através da qual minha centenária mãe acompanhava o movimento da rua. E o janelão de meu quarto abrindo-se para o verde muro coberto de heras e o sempre luzente pau-brasil, ponto de pouso para descanso e cantoria de sabiás e sanhaços. Em quantas felizes madrugadas ficava na cama em sossego a apreciar as cores do amanhecer e o movimento dos pássaros, inspiradores de crônicas e poemas!
Logo aparecem as inúmeras visitas, algumas de amigos não vistos há décadas, de vizinhos, dos novos amigos e os amigos dos amigos, até dos gatos que insistentemente, nos vencendo pelo cansaço, nos adotaram. Sem falar nos frequentadores costumeiros e os de todo dia, entre eles os queridos Antonio Marques e Maria Elisabeth Pardo. Todos de imediato se sentindo confortáveis, apesar da simplicidade do nosso estilo de vida desapegado refletido nos poucos móveis velhos e utensílios de pouco valor, mas com mesa farta da boa comida de Lúcia e, principalmente, de Noêmia que adora cozinhar e cujo pouquinho era sempre muito. Durante e depois das refeições os muitos causos, muitas lembranças, muitas conversas sobre tudo, muitos risos e até cantorias.
Aos sábado chegavam Manu e Chiquinha, as meninas dos mariscos, às vezes a tempo para o café. Gostavam de sentar na soleira da porta, para diversão do quase primo holandês que achou aquilo inusitado. Além dos peixes e mariscos que traziam, havia o bom papo, que nos levava a conhecer muito da comunidade de Baiacu, quase toda vivendo dos pescados e ainda bastante integrada e solidária. Surpreendemente bom foi descobrir o caráter ético e bondoso destas garotas simples, que, por exemplo, ficaram sem receber o defeso por não saberem mentir como a maioria, confessando que apesar de marisqueiras não eram pescadoras de camarão para o qual o defeso é destinado.
E chegam também as emoções alegres e tristes vividas ali, por fim o apagar-se de minha mãe com 102 anos, num inicio da tarde de 27 de fevereiro, dia do aniversário da neta querida e também outras lamentáveis perdas, entre elas a saída da casa e a partida de Itaparica. Saudade acentuada nesta breve revisita à casa das grades amarelas.

Busca Vida, 1º de abril 2018





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