A casa das
grades amarelas
A casa das grades amarelas, de
inicio era apenas uma referência de localização da casa sem número na Rua
Juracy Magalhães, em Itaparica. Mas logo a expressão ganhou a conotação afetiva
para mim e para todos os frequentadores que nela se sentiam muito bem. Dizer a
casa das grades amarelas era, e ainda é, referir-se a um refúgio encantado,
acolhedor de amigos e afetos. É uma bela casa antiga, como já não se fazem
mais. Deve ter cerca de 70 anos. Nela
moramos durante três anos e sete meses, tempo suficiente para incluí-la na
sentimental história de vida, que se revela em detalhes muito vivos nas retinas
e no coração.
E nesta manhã de outono azul, nas
lonjuras em que estou entre árvores e dunas, embarco na nuvem barco chamado saudade e navegando pelo
mar da memória, eu vou. Chego diante dos
muros de pedras encimados pelas famosas grades amarelas, entro subindo a escadinha
de pedras ladeada pela mureta corrimão, sigo pelo caminhozinho calçado por
largas pedras, que divide o jardim em dois lados, cada qual, com um coqueiro
tremulante à menor brisa vinda do mar. À esquerda a vistosa pitangueira, festa
dos passarinhos e da gente nas generosas safras, dá as boas vindas como sempre.
Na varanda da frente, atrás da imponente
arcada de pedra, estão o velho sofá de um lado e no outro a mesa de vidro e
cadeiras de ferro pintadas de branco com almofadinhas de listas amarelas e
brancas. Cantinho de contemplação da lua cheia, das cantorias, das muitas
conversas e comilanças, especialmente do escaldado dos siris-boias recém-comprados
na porta de casa e acompanhado do perfeito pirão de Noêmia e da nossa alegria.
Na varandinha lateral, igualmente com arcadas de pedras, a significativa rede e
a espreguiçadeira, mirante dos vários passarinhos — que vinham tomar banho no
prato de barro e comer as bananas e os milhos quebrados colocados no muro defronte
— e dos muitos verdes, sobretudo das velhas enormes mangueiras a transmitir
sensação de proteção e paz.
Ah, mangueiras! Uma floresta delas
circunda a casa, pelo fundo e laterais. Da casa mesmo, somente a manga Itiúba, mas
nos fartávamos também com as mangas rosas e espadas dos vizinhos. Desconhecendo
propriedades privadas e ignorando divisórias humanas, as mangueiras se ofertam
abundantemente. No quintal com portões de ferro também pintados de amarelo,
ainda estavam as bananeiras, a goiabeira, os pés de acerola e aroeira. Entro e
admiro a grossura das paredes, a amplidão dos cômodos, a sala com palaciano piso
de ladrilhos pretos e brancos, tabuleiro de damas.
Continuo revendo os peculiares
pormenores: a porta da frente em arco e postigo gradeado e a do lavado com inusitado
postigo abrindo por fora; as enormes janelas, a da sala com cerca de dois
metros de largura por três de altura, através da qual minha centenária mãe
acompanhava o movimento da rua. E o janelão de meu quarto abrindo-se para o
verde muro coberto de heras e o sempre luzente pau-brasil, ponto de pouso para
descanso e cantoria de sabiás e sanhaços. Em quantas felizes madrugadas ficava
na cama em sossego a apreciar as cores do amanhecer e o movimento dos pássaros,
inspiradores de crônicas e poemas!
Logo aparecem as inúmeras visitas,
algumas de amigos não vistos há décadas, de vizinhos, dos novos amigos e os
amigos dos amigos, até dos gatos que insistentemente, nos vencendo pelo
cansaço, nos adotaram. Sem falar nos frequentadores costumeiros e os de todo
dia, entre eles os queridos Antonio Marques e Maria Elisabeth Pardo. Todos de imediato
se sentindo confortáveis, apesar da simplicidade do nosso estilo de vida
desapegado refletido nos poucos móveis velhos e utensílios de pouco valor, mas
com mesa farta da boa comida de Lúcia e, principalmente, de Noêmia que adora
cozinhar e cujo pouquinho era sempre muito. Durante e depois das refeições os muitos
causos, muitas lembranças, muitas conversas sobre tudo, muitos risos e até
cantorias.
Aos sábado chegavam Manu e
Chiquinha, as meninas dos mariscos, às vezes a tempo para o café. Gostavam de
sentar na soleira da porta, para diversão do quase primo holandês que achou
aquilo inusitado. Além dos peixes e mariscos que traziam, havia o bom papo, que
nos levava a conhecer muito da comunidade de Baiacu, quase toda vivendo dos
pescados e ainda bastante integrada e solidária. Surpreendemente bom foi
descobrir o caráter ético e bondoso destas garotas simples, que, por exemplo, ficaram
sem receber o defeso por não saberem mentir como a maioria, confessando que
apesar de marisqueiras não eram pescadoras de camarão para o qual o defeso é
destinado.
E chegam também as emoções alegres
e tristes vividas ali, por fim o apagar-se de minha mãe com 102 anos, num
inicio da tarde de 27 de fevereiro, dia do aniversário da neta querida e também
outras lamentáveis perdas, entre elas a saída da casa e a partida de Itaparica.
Saudade acentuada nesta breve revisita à casa das grades amarelas.



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