sábado, 22 de fevereiro de 2020


Roberto e a gata





Os gatos são os maiores sedutores do universo. São caras de pau determinados ao extremo e também charmosos, manhosos, carinhosos, enfim, irresistíveis. Coitado daquele que cai na mira deles.  Não há escapatória. Não adianta tentar ignorar, não adianta escorraçar, não adianta nada. Então quando meu amigo Roberto disse que um bichano aparecera na sua porta, eu, vítima algumas vezes desta sedução, já imaginei o que ia acontecer e lhe disse:
— Você acabou de arranjar um gato;
—Que nada, apareceu aqui na porta, fiquei com pena, botei um pouco de comida lá no passeio
— Ih! Amigo, Você botou comida? Está perdido. você foi  adotado, se prepare.
— Adotado, que adotado? Tenho cachorro, ele já está latindo pra caramba, ele ou ela não vai ter coragem de entrar.
— Bem se vê que você não conhece nada de gatos. Não vai demorar e vai estar no seu colo.
            Ele não acreditou no que eu disse, mas, a partir daí, todo dia tinha uma resenha: “A gatinha não sai mais daqui da porta..  Ela está dormindo na árvore... É uma gracinha... Tenho medo que alguém faça alguma malvadeza com ela... Estou procurando quem possa adotá-la”. e por aí, ia. Mandou vários áudios apelativos para a neta, com  voz de gato rogando pra ser adotado. Ofereceu aos vizinhos e até para mim, me elegendo como madrinha. Contou das tentativas da gatinha (afinal com sexo identificado)  em entrar no jardim, sendo escorraçada pelo cachorro.
            — Não sei o que acontece com Duque, nunca se importou com gato nenhum, mas dessa não quer saber.
            Expliquei que o cão já estava antevendo o que viria e tentava impedir, além, é claro, do ciúme. Até então reinando sozinho, via uma safada da rua se chegando, ameaçando a sua exclusividade. Os dias passavam e novas resenhas: “A gatinha andou pelo muro... Deu pra me seguir. Vou na padaria, a gata vai atrás, vou no mercado, a gata atrás... Noutro dia me acompanhou até o ponto de ônibus... Consegui uma casa para ela... A gatinha voltou, nem ficou dois dias na casa da vizinha”...
            Certo feita Roberto teve de ir a Salvador, levou dois dias fora. Logo que voltou pra casa, me telefonou pra dizer que a gatinha tinha sumido. Estava triste. Mais tarde, tornou a ligar pra dizer ter encontrado a gata que estava numa casa próxima, pelo visto, bem aceita. Ele passou por ela, chamou, mas, ela nem te ligo e lá ficou. Embora dissesse que estava satisfeito porque ela parecia abrigada e sendo cuidada, meu amigo não escondia a decepção. Mas Já no dia seguinte me comunicava o regresso da gatinha à porta da sua casa. Eu lhe disse que tinha sido puro charme, típico dos bichanos, a mostrar independência afetiva.
A essa altura eu não tinha a menor dúvida de que meu amigo havia sido completamente seduzido pela felina. Não demorou muito e ele me contou que a gata  estava dormindo na cama de Duque. Também conseguira dobrar o cão. Daí em diante a coisa foi rápido e lá vinham vídeos da gata fazendo gracinhas na cama dele e relatos e queixas. “Esta gata está impossível. Amola as unhas no meu sapato, derruba coisas da mesa, está me dando prejuízos.  Vou mandar pra você”.  
E eu apenas ria. A gata não mais saia de casa. Parava na frente dele, dava pequenos mios e ficava marchando, ou se jogava no chão, botando a barriga pra cima lançando um meigo olhar pedinte. Subia na cama se enroscava ao lado dele ronronando. Um dia ela empurrou a porta do banheiro, pulou no ombro dele, que estava sentado no vaso, e se aninhou nos seus cabelos.

Pouco depois começou a novela da castração: castra, não castra, dá ou não a injeção anticoncepcional, que é altamente cancerígena. Onde castrar? E o perigo da anestesia?  E o medo da cirurgia?  E eu só dizendo que ele precisava cuidar logo disso se não quisesse encher a casa de gatos. São cerca de três gestações por ano, cada uma com média de quatro gatos, podendo chegar a seis. Afinal ele se decidiu.
No dia da cirurgia ficou tenso, telefonou várias vezes durante se certificando que fizera o certo e, depois pra saber quanto tempo ela levaria para acordar.  À medida que o efeito da anestesia se prolongava a inquietação dele aumentava.  A cirurgia fora de manhã e no meio da tarde a gatinha ainda não despertara. Confesso que comecei a me preocupar também. À notinha recebo outra ligação de Roberto com a triste notícia: a gatinha tinha morrido. Poxa!, chocada, não sabia o que dizer. E ele muito abalado, repetia:
— Bem que eu não queria operar. Parecia que tinha algo me avisando. A bichinha estava aqui brincando no meu colo, me fazendo carinho e eu levei ela pra morrer...
Após desabafar, desligou, ficando eu triste, me sentindo um pouco culpada por ter incentivado ele a levar a gatinha para castrar. Nem tive coragem de perguntar se já a enterrara. Ainda estava nisso quando o telefone tocou de novo.  Era Roberto feliz da vida a dizer que a gatinha estava viva. Não, ela não tinha morrido, acordara, estava molinha, mas se movera. Ele a levou pro quarto. Mais tarde, outras ligações para informar   que ela comera, que bebera, que andara. Pronto. Daí as perguntas eram sobre os curativos e demais cuidados.
A recuperação foi rápida, mais ainda com lance dramático. Tendo que sair, ele deixou a gatinha dentro de casa fechada apenas com pequena abertura na janela para ventilar. Quando voltou, cadê a bichana? Tinha sumido. Procura daqui, procura dali. Andando já sem rumo na varanda e jardim, viu a roupinha cirúrgica, que ela ainda usava, presa na ponta da lança do muro. Susto grande, pensou no pior, mas não havia sinal de gatinha, nem de sangue, nem de nada, mas a preocupação não passava. O que teria acontecido? Como ela conseguira passar pela quase fresta da janela? Como a bichinha estaria?
Não demorou muito para ter a resposta. A gatinha apareceu, vindo da rua, entrou pela grade do portão e veio se esfregar na perna dele, sem ligar para a zanga. Por sorte nenhum ponto se partiu e quando chegou a ocasião, ela mesma arrancou uns pontos e ele tirou o restante.  Bem, agora a bichana está menos encrenqueira, passa a maior parte do tempo na cama de Roberto, fazendo e pedindo carinhos, espichando-se, exibindo poses, bem dona da casa e do seu dono.


             

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