Roberto e a gata
Os gatos são os maiores sedutores do universo. São caras de pau
determinados ao extremo e também charmosos, manhosos, carinhosos, enfim,
irresistíveis. Coitado daquele que cai na mira deles. Não há escapatória. Não adianta tentar
ignorar, não adianta escorraçar, não adianta nada. Então quando meu amigo
Roberto disse que um bichano aparecera na sua porta, eu, vítima algumas vezes
desta sedução, já imaginei o que ia acontecer e lhe disse:
— Você acabou de arranjar um gato;
—Que nada, apareceu aqui na porta, fiquei com pena, botei um
pouco de comida lá no passeio
— Ih! Amigo, Você botou comida? Está perdido. você foi adotado, se prepare.
— Adotado, que adotado? Tenho cachorro, ele já está latindo
pra caramba, ele ou ela não vai ter coragem de entrar.
— Bem se vê que você não conhece nada de gatos. Não vai
demorar e vai estar no seu colo.
Ele não acreditou no que eu disse,
mas, a partir daí, todo dia tinha uma resenha: “A gatinha não sai mais daqui da
porta.. Ela está dormindo na árvore... É
uma gracinha... Tenho medo que alguém faça alguma malvadeza com ela... Estou
procurando quem possa adotá-la”. e por aí, ia. Mandou vários áudios apelativos
para a neta, com voz de gato rogando pra
ser adotado. Ofereceu aos vizinhos e até para mim, me elegendo como madrinha.
Contou das tentativas da gatinha (afinal com sexo identificado) em entrar no jardim, sendo escorraçada pelo
cachorro.
— Não sei o que acontece com Duque,
nunca se importou com gato nenhum, mas dessa não quer saber.
Expliquei que o cão já estava antevendo
o que viria e tentava impedir, além, é claro, do ciúme. Até então reinando
sozinho, via uma safada da rua se chegando, ameaçando a sua exclusividade. Os
dias passavam e novas resenhas: “A gatinha andou pelo muro... Deu pra me
seguir. Vou na padaria, a gata vai atrás, vou no mercado, a gata atrás...
Noutro dia me acompanhou até o ponto de ônibus... Consegui uma casa para ela...
A gatinha voltou, nem ficou dois dias na casa da vizinha”...
Certo feita Roberto teve de ir a
Salvador, levou dois dias fora. Logo que voltou pra casa, me telefonou pra
dizer que a gatinha tinha sumido. Estava triste. Mais tarde, tornou a ligar pra
dizer ter encontrado a gata que estava numa casa próxima, pelo visto, bem
aceita. Ele passou por ela, chamou, mas, ela nem te ligo e lá ficou. Embora
dissesse que estava satisfeito porque ela parecia abrigada e sendo cuidada, meu
amigo não escondia a decepção. Mas Já no dia seguinte me comunicava o regresso
da gatinha à porta da sua casa. Eu lhe disse que tinha sido puro charme, típico
dos bichanos, a mostrar independência afetiva.
A essa altura eu não tinha a menor dúvida de que meu amigo
havia sido completamente seduzido pela felina. Não demorou muito e ele me
contou que a gata estava dormindo na
cama de Duque. Também conseguira dobrar o cão. Daí em diante a coisa foi rápido
e lá vinham vídeos da gata fazendo gracinhas na cama dele e relatos e queixas. “Esta
gata está impossível. Amola as unhas no meu sapato, derruba coisas da mesa,
está me dando prejuízos. Vou mandar pra
você”.
E eu apenas ria. A gata não mais saia de casa. Parava na
frente dele, dava pequenos mios e ficava marchando, ou se jogava no chão,
botando a barriga pra cima lançando um meigo olhar pedinte. Subia na cama se
enroscava ao lado dele ronronando. Um dia ela empurrou a porta do banheiro,
pulou no ombro dele, que estava sentado no vaso, e se aninhou nos seus cabelos.
Pouco depois começou a novela da castração: castra, não
castra, dá ou não a injeção anticoncepcional, que é altamente cancerígena. Onde
castrar? E o perigo da anestesia? E o
medo da cirurgia? E eu só dizendo que
ele precisava cuidar logo disso se não quisesse encher a casa de gatos. São
cerca de três gestações por ano, cada uma com média de quatro gatos, podendo chegar
a seis. Afinal ele se decidiu.
No dia da cirurgia ficou tenso, telefonou várias vezes
durante se certificando que fizera o certo e, depois pra saber quanto tempo ela
levaria para acordar. À medida que o efeito
da anestesia se prolongava a inquietação dele aumentava. A cirurgia fora de manhã e no meio da tarde a
gatinha ainda não despertara. Confesso que comecei a me preocupar também. À
notinha recebo outra ligação de Roberto com a triste notícia: a gatinha tinha
morrido. Poxa!, chocada, não sabia o que dizer. E ele muito abalado, repetia:
— Bem que eu não queria operar. Parecia que tinha algo me
avisando. A bichinha estava aqui brincando no meu colo, me fazendo carinho e eu
levei ela pra morrer...
Após desabafar, desligou, ficando eu triste, me sentindo um
pouco culpada por ter incentivado ele a levar a gatinha para castrar. Nem tive
coragem de perguntar se já a enterrara. Ainda estava nisso quando o telefone
tocou de novo. Era Roberto feliz da vida
a dizer que a gatinha estava viva. Não, ela não tinha morrido, acordara, estava
molinha, mas se movera. Ele a levou pro quarto. Mais tarde, outras ligações
para informar que ela comera, que
bebera, que andara. Pronto. Daí as perguntas eram sobre os curativos e demais
cuidados.
A recuperação foi rápida, mais ainda com lance dramático. Tendo
que sair, ele deixou a gatinha dentro de casa fechada apenas com pequena
abertura na janela para ventilar. Quando voltou, cadê a bichana? Tinha sumido.
Procura daqui, procura dali. Andando já sem rumo na varanda e jardim, viu a
roupinha cirúrgica, que ela ainda usava, presa na ponta da lança do muro. Susto
grande, pensou no pior, mas não havia sinal de gatinha, nem de sangue, nem de
nada, mas a preocupação não passava. O que teria acontecido? Como ela
conseguira passar pela quase fresta da janela? Como a bichinha estaria?
Não demorou muito para ter a resposta. A gatinha apareceu,
vindo da rua, entrou pela grade do portão e veio se esfregar na perna dele, sem
ligar para a zanga. Por sorte nenhum ponto se partiu e quando chegou a ocasião,
ela mesma arrancou uns pontos e ele tirou o restante. Bem, agora a bichana está menos encrenqueira,
passa a maior parte do tempo na cama de Roberto, fazendo e pedindo carinhos,
espichando-se, exibindo poses, bem dona da casa e do seu dono.


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