quarta-feira, 16 de janeiro de 2019


A Cainana e o Gordo





No inicio da sempre silenciosa manhã daquele condomínio dentro de uma das últimas reservas ambientais da região, os gritos ecoaram por toda rua. Ela pulou da cama atordoada sem entender o que ocorria. Só percebia, pelo desespero dos gritos, que alguma desgraça estava acontecendo, ainda mais, que de entre o alarido emergia frases aterradoras: “vai morrer”, “Ai meu Deus, vai morrer”, “Acudam, acudam”.  
Descendo as escadas o mais rápido possível encontrou a filha gritando: “Gordo, Goooordo”, “Vai morrer”, “Venha Gordoooo”, “Sai daí Gordoooo”. Sacudindo a vasilha, jogava um punhado da ração no chão da varanda. O Gordo indiferente aos chamados tinha olhar fixo na outra porta de vidro, numa atitude de ataque. Embora fosse difícil imaginar que aquela triste figura pudesse pretender comprar alguma briga, ali estava ele concentrado, pronto para o que desse e viesse, ao alcance de uma tremenda cobra de bote armado.
Triste figura sim, esquálido, esquelético, ralo pelo arrepiado, rígidas pernas arqueadas, olhos esbugalhados. O Gordo de gordo só tem hoje em dia a desmedida ironia. Outrora fora um gato gordo. Começou indo e vindo, não se sabe bem de onde, até se aboletar de vez na nova casa escolhida, talvez por querer companhia dos outros gatos que o receberam bem. Desafia a natureza, sendo mesmo um caso para estudo. Muitíssimo idoso, com problemas de fígado, rins, pulmão, vistas, seu organismo não consegue absorver os nutrientes apesar de comer muito. Devora a ração, não enjeita nada, até banana da terra cozida.
Não se sabe como ele ainda está vivo. É um destes enigmas da natureza. Não há o que fazer mais por ele a não ser dar a assistência carinhosa.  Felizmente não sofre e ainda arrisca uma corridinha toda vez que vai ao banheiro. Noutro dia deu uma carreira nos micos que estavam no chão da área de serviço e voou atrás dos saguins quando estes pularam na árvore. Caiu duma altura de desconjuntar gente sã, mas o danado não teve nada. E, agora acuava a enorme esquisita cobra.
Ao chegar à sala a filha ouviu e viu a enorme serpente saltar se chocando na porta de vidro da frente. Susto grande, mas o pior foi ver que o Gordo corria perigo. Ela arrodeou a casa saindo pela porta do fundo e tentava salvar o bichano. Provavelmente o salto da cobra teria resultado do ataque dele. Estava enrodilhada, o finíssimo rabo tremendo, pescoço inchado, preparada para o bote. E o Gordo aguardando para o pulo do gato como se fosse páreo para uma cobra daquela. Toda preta com rajadas amarelas esverdeadas pelo corpo, devia ter uns três metros.  Era sem dúvida assustadora. Enfim o Gordo se cansou de esperar preferindo a ração. Atendeu aos chamados saindo do alcance da cobra, ufa! Livre do gato, a cobra ainda se sentiu ameaçada, desta feita pela gata que a espreitava através da porta de vidro, e por fim deu o bote contra o vidro. Aquele não era seu dia sorte.
A esta altura a serpente já havia sido fotografada, e a foto enviada a Dr. Moacyr para identificação, enquanto se fazia pesquisas. O Google indicava ser uma Cainana, o que foi logo confirmado pelo veterinário. Não é venenosa, vive solitária, anda quilômetros se alimenta de sapos, ratos, ovos, mas é muito ágil, uma das mais ágeis e é capaz de estrangular animais maiores quando ameaçada.
A gata foi tirada da vista da cobra e a serpente tratou de rapidamente deslizar para jardim, e cair fora traumatizada com as pancadas contra o vidro, a perplexidade do obstáculo invisível e pela ousadia de ser atacada por um bicho decrépito. Mas ela não podia se queixar, pois afinal foi deixada em paz.  E o Gordo, nem te ligo, após refastelar-se com a dose extra de ração, pôs-se a dormir, como de costume, sentado, sustentando todo o corpo no focinho apoiado no chão.

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