Isto é
Itaparica
A gente está assim em casa, meio
borocoxô entre dores e limitações do braço direito fraturado. E aí recebe um
telefonema. O amigo Elizeu Marques, (vai o nome completo porque se trata de um
grande artista do desenho, de quem muito se falará quando suas obras ganharem o
mundo), logo dizendo que ia me botar inveja. Naquele exato momento estava
preparando uma moquequinha de carapeba fresquinha.
Conta que, vendo uma interessante
formação de nuvens, imaginou que o pôr do sol seria imperdível, pois, como se
sabe, as nuvens costumam dar efeito especial aos raios crepuscular. Então
largou o que estava fazendo e lá se foi caminhar à beira mar para não perder o
espetáculo. Um Pescador saía da praia com enfiada de pequenos peixes. Como era fim de dia de inverno, muito embora
primaveril, sem veranistas, ofereceu os peixes bem baratinhos. Meu amigo não
titubeou, levou o seu jantar e, no seu contar, acrescentou: isto é Itaparica.
Bem sei o quê ele quis dizer com
isso. De mediato me vi lá. Sob a pirotecnia do ocaso, no avermelhado mar
espelho, um único barquinho. Nele alguém pescava, provavelmente, mais
serenidade do que peixe. Diante da placidez daquelas águas de macio ronronar,
eu ia, conforme se diz, livre, leve, solta. Apesar de ainda ser agosto, mês dos
ventos de São Lourenço, apenas a brisinha acentuava a solenidade do instante.
Há barquinhos emborcados sobre a rampa do
cais, uma cadela zen a contemplar os longes; o gato Felipe a atravessar a rua assim
que vê chegar uma canoa para logo receber seu quinhão da pescaria, degustado
ali mesmo no ancoradouro entre os pescadores. Um casal sessentão passa de mãos
dadas com sorriso de adolescente que acabara de aprontar alguma; também passam
alguns se exercitando e jovens fardados a festejar o fim das aulas.
Há também um solitário contemplador,
alguém tirando fotos, outros pescando de vara na amurada do cais defronte do
Hotel Icaraí, grupo jogando dominó no mercado e pessoas tomando sorvete no
Largo da Quitanda. Mas tudo em sossego, tudo e todos harmoniosamente
incorporados ao cenário. Se adiante encontro amigo no cais ou numa das belas
praças na volta para casa, coisa não rara de acontecer, sentamos e conversamos,
conversamos, conversamos sem tempo medido.
E a coisa pode se estender ao sabor
do bolinho de bacalhau na Marina, ou do chocolate quente na Muito Mais, o
primoroso chocolate feito do cacau do quintal. O bate-papo também pode
continuar na varanda da padaria São Jerônimo, entre cumprimentos dos que entram
e saem da fila do pão, petiscando os petit four, queijadinhas, ou simples
sanduiche de queijo quente com suco de laranja. Isto quando os encontros
anteriores no caminho não nos faz encontrar a padaria já fechada.
Em Itaparica ainda é possível se
viver de imprevistos e improvisos sem o peso do cumprimento de rotinas rígidas.
Ainda é possível gozar dá sensação de liberdade, livre da escravidão do tempo. Em
Itaparica o tempo não passa, nem mesmo as eras, e há quem, num mesmo dia,
acompanhe a azáfama na armação de baleias; corra para se esconder dos
holandeses invasores; seja um dos que enfrentam os portugueses de Madeira de
Melo; circule nos luxuoso cassino na época dos jogos permitidos; vá, ao som das
batidas dos tamancos no chão, receber os que chegam no vapor da tarde; chame o
aguadeiro que passa mercando a água fina que faz velha virar menina; lambuze-se
na lama curativa como era moda; mire o mar do Balneário. O tempo ali é
jurisdição dos ventos e das marés, de maneira que o povo aprendeu a viver sem
pressa ao acaso do que vem. Só quem experimenta sabe o bem que isto faz.
E nesta noitinha em que o
telefonema do amigo me deixa de água na boca, doida de inveja e morta de
saudades, entrego-me ao sonho. E esqueço os barulhos das bandas entorpecedoras
do juízo em todas festas, até nas cívicas; da poluição generalizada; das
derrubadas e mutilações das árvores; da descaracterização do patrimônio
arquitetônico; da ameaça da perda do
caráter da cidade; do turismo predatório, que a falta de sensibilidade reinante
permite e impede que se reverta em um turismo cultural preservacionista, e se
desperdice o imenso potencial capaz de levar Itaparica ao lugar que lhe cabe no
panorama turístico mundial.
Esqueço até das dores do braço
fraturado, das limitações impostas pela abominável dependência. Esqueço porque
permaneço participando daquela vidinha tão bela, tão adorável, tão simples
quanto essencial. No momento em que me transporto para Itaparica, ainda que em
devaneio, o coração se ilumina. Já festejo os dias melhores que virão, inclusive
para permitir a minha volta a esta terra mágica, que há continuar sendo assim
por força do sonho e da esperança



