quinta-feira, 6 de setembro de 2018



Isto é Itaparica


A gente está assim em casa, meio borocoxô entre dores e limitações do braço direito fraturado. E aí recebe um telefonema. O amigo Elizeu Marques, (vai o nome completo porque se trata de um grande artista do desenho, de quem muito se falará quando suas obras ganharem o mundo), logo dizendo que ia me botar inveja. Naquele exato momento estava preparando uma moquequinha de carapeba fresquinha.
Conta que, vendo uma interessante formação de nuvens, imaginou que o pôr do sol seria imperdível, pois, como se sabe, as nuvens costumam dar efeito especial aos raios crepuscular. Então largou o que estava fazendo e lá se foi caminhar à beira mar para não perder o espetáculo. Um Pescador saía da praia com enfiada de pequenos peixes.  Como era fim de dia de inverno, muito embora primaveril, sem veranistas, ofereceu os peixes bem baratinhos. Meu amigo não titubeou, levou o seu jantar e, no seu contar, acrescentou: isto é Itaparica.
Bem sei o quê ele quis dizer com isso. De mediato me vi lá. Sob a pirotecnia do ocaso, no avermelhado mar espelho, um único barquinho. Nele alguém pescava, provavelmente, mais serenidade do que peixe. Diante da placidez daquelas águas de macio ronronar, eu ia, conforme se diz, livre, leve, solta. Apesar de ainda ser agosto, mês dos ventos de São Lourenço, apenas a brisinha acentuava a solenidade do instante.
 Há barquinhos emborcados sobre a rampa do cais, uma cadela zen a contemplar os longes; o gato Felipe a atravessar a rua assim que vê chegar uma canoa para logo receber seu quinhão da pescaria, degustado ali mesmo no ancoradouro entre os pescadores. Um casal sessentão passa de mãos dadas com sorriso de adolescente que acabara de aprontar alguma; também passam alguns se exercitando e jovens fardados a festejar o fim das aulas.
Há também um solitário contemplador, alguém tirando fotos, outros pescando de vara na amurada do cais defronte do Hotel Icaraí, grupo jogando dominó no mercado e pessoas tomando sorvete no Largo da Quitanda. Mas tudo em sossego, tudo e todos harmoniosamente incorporados ao cenário. Se adiante encontro amigo no cais ou numa das belas praças na volta para casa, coisa não rara de acontecer, sentamos e conversamos, conversamos, conversamos sem tempo medido.
E a coisa pode se estender ao sabor do bolinho de bacalhau na Marina, ou do chocolate quente na Muito Mais, o primoroso chocolate feito do cacau do quintal. O bate-papo também pode continuar na varanda da padaria São Jerônimo, entre cumprimentos dos que entram e saem da fila do pão, petiscando os petit four, queijadinhas, ou simples sanduiche de queijo quente com suco de laranja. Isto quando os encontros anteriores no caminho não nos faz encontrar a padaria já fechada. 
Em Itaparica ainda é possível se viver de imprevistos e improvisos sem o peso do cumprimento de rotinas rígidas. Ainda é possível gozar dá sensação de liberdade, livre da escravidão do tempo. Em Itaparica o tempo não passa, nem mesmo as eras, e há quem, num mesmo dia, acompanhe a azáfama na armação de baleias; corra para se esconder dos holandeses invasores; seja um dos que enfrentam os portugueses de Madeira de Melo; circule nos luxuoso cassino na época dos jogos permitidos; vá, ao som das batidas dos tamancos no chão, receber os que chegam no vapor da tarde; chame o aguadeiro que passa mercando a água fina que faz velha virar menina; lambuze-se na lama curativa como era moda; mire o mar do Balneário. O tempo ali é jurisdição dos ventos e das marés, de maneira que o povo aprendeu a viver sem pressa ao acaso do que vem. Só quem experimenta sabe o bem que isto faz.
E nesta noitinha em que o telefonema do amigo me deixa de água na boca, doida de inveja e morta de saudades, entrego-me ao sonho. E esqueço os barulhos das bandas entorpecedoras do juízo em todas festas, até nas cívicas; da poluição generalizada; das derrubadas e mutilações das árvores; da descaracterização do patrimônio arquitetônico; da ameaça da perda  do caráter da cidade; do turismo predatório, que a falta de sensibilidade reinante permite e impede que se reverta em um turismo cultural preservacionista, e se desperdice o imenso potencial capaz de levar Itaparica ao lugar que lhe cabe no panorama turístico mundial.
Esqueço até das dores do braço fraturado, das limitações impostas pela abominável dependência. Esqueço porque permaneço participando daquela vidinha tão bela, tão adorável, tão simples quanto essencial. No momento em que me transporto para Itaparica, ainda que em devaneio, o coração se ilumina. Já festejo os dias melhores que virão, inclusive para permitir a minha volta a esta terra mágica, que há continuar sendo assim por força do sonho e da esperança



No ócio



Deitada na rede, em meio a uma tarde de inverno nada invernal, é fácil compreender porque os atenienses preferiam o ócio em vez do negócio. E não só os gregos, mas também o franco-cubano Paul Lafargue, que escreveu O Direito à Preguiça, o inglês Bertrand Russell com seu O Elogio ao Ócio e o italiano Domenico De Masi com o Ócio Criativo.
Ficar sem fazer nada é algo impensável para as muitas vítimas do corre-corre e bem precioso para quem, como eu nesta tarde, pode se entregar ao ócio. No não fazer nada é que se faz o que importa como, por exemplo, ver os nítidos verdes dos coqueiros, cajueiros, mangueira, pitangueira, limoeiro, gravioleira, pau-pombo, almecegueira, ingazeira, aroeira, piaçavas, cajazeira ainda sem pressa nenhuma em crescer e florescer, todas sob céu de azul perfeito a atestar a falta de inverno neste ano.
 Pouquíssima chuva, nem mesmo a tradicional garoa de São João. Estou pra lembrar quando isso aconteceu. Friozinho sim, ao cair da tarde, noite adentro e na madrugada a requerer corpos juntinhos e cobertores, mas durante o dia, quase sempre, céu e temperatura de primavera. Assim foi em junho, julho e agora em agosto ainda sem os ventos de São Lourenço. Sim, o “mundo está todo mudado”, já não se pode crer nas previsões. Resta esperar se na lua nova de setembro veremos o verão que teremos, conforme minha mãe dizia.    
Minha mãe sabia de muitas coisas, sabia até a fórmula para o dinheiro não faltar. Ao avistar a lua nova do mês pela primeira vez bastava recitar: “Deus vos salve lua nova / lua de são Clemente/ quando fores e voltares/ traz-me mais desta semente”. E aí era só mostrar alguma nota e o dinheiro estava garantido. No entanto, embora não vivesse na penúria, ela não fez fortuna nenhuma. Com certeza não era fórmula de enriquecimento, talvez apenas de prover o básico. E não só de crendices, ela entendia, não.  Era prova de que a sabedoria independe da instrução.  Não chegava a ser Sócrates, porém, sem ao menos ter concluído o primário, conversava com qualquer doutor, tinha suas teorias e bem fazia tudo que ecleticamente fazia.
A vida me mostrou vários casos destes. Sujeitos toscos, nascidos e criados na roça, analfabetos, ignorantes das artes e ciências, mas que tinham bom senso, perspicácia aguçada, faziam observações originais, apresentavam reflexões profundas sobre a realidade e desenvolviam filosofia de vida própria. Fora do alcance da tirania da mídia, blindados contra aproveitadores, avessos a controles, no meio do rebanho deixavam de ser gado, guiando-se por si mesmo. Os adágios, chamados acertadamente de sabedoria popular, são uma comprovação disso.
Certa feita, ouvi a resposta de um matuto ao pastor que lhe pedira para prestar falso testemunho numa questão trabalhista: “Não ando com a bíblia debaixo do braço, mas quando fui posto pra fora, após 20 anos de trabalho, recebi de presente um sabonete e não botei o patrão na justiça”. Naturalmente ele não mostrou sabedoria por deixar de reivindicar seus direitos, mas pelo desprendimento e mais, pela finesse da lição, evidenciando a contradição entre a teoria e a prática religiosa. Como um seguidor de Jesus, ainda mais sendo um pregador, pode se valer de falsidades para tirar vantagens ou se vingar?
E a mente solta no ócio divaga, divaga e indaga. Teria o matuto sido tolo por não exigir a justa recompensa pelos anos trabalhados? Teria realmente sofrido perda? Ou que apenas deixara de ganhar? A recompensa monetária compensaria a trabalheira da lide burocrática? Acostumado com a vida simples, o comodismo do desprendimento não valia mais que o desassossego para ter dinheiro que na verdade não tinha e por isso não perdera? Teria intuído que o apego escraviza e o desapego liberta?
 E a contradição. Antes de tudo os humanos são seres contraditórios. Ah! a grande distância “entre intenção e gesto”; entre dizer e fazer; entre um peso e duas medidas; entre o ver-se e o apontar; entre pedir clemência e o julgar; entre viver e matar; entre a inteligência e a sensatez. Deseja-se a paz, mas faz-se guerra; sublima-se o amor, mas semeiam-se ódios; quer-se viver, mas matam-se árvores, aterram-se nascentes, polui-se tudo. E na esteira das incoerências seguem a hipocrisia, a vingança, a falta de segurança e da confiança, as enfermidades das almas, o mal viver, a infelicidade.
Mas eis que chegam as jandaias em algazarras, pousam no cajueiro, bem perto da varanda. O colorido das plumas se acende pela incidência dos raios do sol, ou pelo ardor dos afagos e beijinhos em meio ao charlar agora em surdina. Um gavião passa voando baixo em largos círculos. Os coqueiros embalançam devagarinho. O céu continua azulíssimo e as folhas a luzir. As inquietantes ponderações cedem lugar à contemplação do bem e do belo e no seu rastro, vem a poesia. Então, recorrendo a Carlos Drummond de Andrade, suspiro dizendo: “Mas a poesia deste momento / inunda minha vida inteira”. O coração se eleva e a alma transcende. Para isso serve o ócio.

quarta-feira, 9 de maio de 2018


AROEIRA

Acordo para a faiscância dos tremulantes diamantes salpicados na aroeira pela chuva da noite que nem vi. De imediato me lembro da canção de Dolores Duran e me ponho a cantar “É de manhã, vem o sol / mas os pingos da chuva que ontem caiu / ainda estão a brilhar, / ainda estão a dançar / ao vento alegre que me traz esta canção..” A janela do meu quarto já não se abre para o sempre luzente pau-brasil. Agora a árvore nacional é outra, que dadivosamente florida se oferta aos incontáveis pássaros ávidos pelas florezinhas.
Logo a movimentação é grande. Sabiás e sanhaços de todo tipo, pitiguaris, sebinhos, até o alma de gato, o arredio sofrê e alguns outros que não identifico. Fazem a festa para meus olhos e coração. Da cama fico a observá-los, indo e vindo, dando pulinhos fazendo cair  as gotículas cristais penduradas nas pontas de folhas, equilibrando-se nos galhos fininhos que chegam á beira da janela, quase entrando no quarto. Outro contentamento é ver que a aroeira, semeada por mim anos atrás, cresceu tanto, chegando lindamente ao andar de cima.   
Adoro aroeira, se bem que adoro a mangueira com suas copas densas de verde escuro; a fruta-pão de grandes folhas recortadas, o imponente tamarindeiro quase eterno de finas folhinhas azedinhas, a cajazeira também de copa rendilhada e tronco rugoso usado pelas crianças de antigamente para fazer anéis... Enfim, amo a todas, são belos seres especiais que nos garantem a existência na terra.   E sofro quando as vejo sendo mutiladas e assassinadas, tanto quanto sentiria se fosse uma pessoa.
Contemplando a ramaria se projetando sobre o azul do céu carregada de flores e pássaros, ouço chegar de longe no tempo a cantiga de roda, “Bambu tirabu / Aroeira manteigueira / Tirará alguém / Para ser bambu”.  Daí me levanto e vou pesquisar. E como desconfiava são muitas as referências a aroeira na música e poesia popular.  Luiz Gonzaga compara a comichão que a aroeira brava provoca como o amor, Elizeth Cardoso canta “Ê aroeira já secou / Ê aroeira já secou / Já secou por que?” Jessier Quirino rememora A cumeeira de aroeira lá da casa grande.
E eis que aporto na composição de José Fortuna e não resistindo, transcrevo primeira estrofe: “Esteio de aroeira corroído pelos anos / O vendaval do tempo até hoje tu resiste / Quem hoje vê teu vulto no sertão abandonado / Não sabe que encerras uma história longa e triste / Meu pai que te plantou na terra dura lá da mata / Tu foste a cumeeira do teu rancho pequenino / Só o vento frio da noite e o cantar dos curiangos / Ficaram acompanhando a solidão do teu destino”
Aí lembro de um esteio de aroeira na cerca da chácara de Monte Gordo, que começou a virar árvore. Um dia, o vizinho inventou de tocar fogo no mato bem junto à cerca, queimando o brotado mourão já grandinho. Ele se desculpou, mas fiquei sentida. Contudo, eis que passado algum tempo a aroeira, tal qual a fênix, renasceu das cinzas. O mourão calcinado brotou, voltando a ser árvore, a comprovar a sua fama do dito popular “a madeira da aroeira dura a vida toda e mais 100 anos”. Tanto que, devido a esta capacidade de resistir ao fogo e de rebrotar várias vezes, serve como barreiras corta-fogo. Mas esta é apenas uma das inúmeras utilidades da Aroeira, útil desde como cipó de dar nas costas de quem faz por merecer.
A propósito, uma referência aos ramos de aroeira como chicote se tornou elemento  subversivo decretado pela censura da ditadura militar, quando na época dos festivais de música popular brasileira, Geraldo Vandré cantou “É a volta do cipó de aroeira / No lombo de quem mandou dar”. Antes de ser chicote é árvore medicinal tida como adstringente, afrodisíaco, balsâmico, cicatrizante, depurativo, diurética, laxante, tratando dores ciática, febre, reumatismo, diarreia, feridas, gota, inflamação, ínguas, leucorreia, sífilis, problemas urinários, inflamações de útero, matéria prima de cosmético e madeira de mil e uma utilidade.  O frutinho de sabor peculiar entre adocicado e picante é delicioso condimento, famoso na França como o nome de pimenta vermelha.
Olhando a minha despretensiosa e generosa aroeira, totalmente perfumada das folhas aos frutos me encho de orgulho. E torço para que a sensibilidade e o bom senso cheguem aos administradores públicos, levando-os a arborizar as ruas com aroeiras, árvore ideal para isso: nativa resistente, frondosa, de frutificação duradoura e belíssima com seus lustrosos frutinhos vermelhos em cacho (é a cerejeira nacional), que atraem inúmeros pássaros. E mais, nas palavras do o biólogo Dilson Ferreira, “não arrebenta calçadas, aceita poda, faz pouca sujeira e não atrapalha o trânsito de grandes veículos na rua”.  Espero nunca mais ver o que já vi acontecer: ao se fazer uma praça, em Vilas do Atlântico cortaram todas as aroeiras (e eram muitas) que havia no terreno, substituindo-as por plantinhas decorativas sem copa para sombra, deixando os bancos de jardim ao sol inclemente.
Volto a admirar a minha aroeira carregadinha de flores e passarinhos. Agradecendo a mim mesma por tê-la semeado, vou tomar café cantando “Bambu tirabu / Aroeira manteigueira / Tirará alguém / Para ser bambu”. Vou feliz da vida e sustentando a crença de que o Prefeito de Salvador não cometerá o anunciado assassinato de mais de 500 frondosas árvores para instalação de um obsoleto e inútil BRT.

segunda-feira, 30 de abril de 2018



A saga do sabiá


Parece até sina o tanto que os sabiás têm estado nos meus escritos, mas como não contar esta aventura?  Ainda não eram seis horas, quando tudo começou.  O dia remanchava na barra do nuvioso horizonte outonal quando fui arrancada do sono por uma barulheira no teto do quarto. Se fosse gaulesa teria pensado que os céus caiam na minha cabeça. Naquele instante não pensei, porém o susto não foi menor.
Um pássaro voava batendo-se no forro. Pousou na beirinha da parede que sustenta o caibro bem em cima da cama. Fiquei quieta para não espantá-lo, certa de que logo sairia pela janela lateral por onde devia ter entrado. Mas nada. Andava aos pulinhos, parava, dava novos voos doidos querendo varar o teto. Talvez para ele o branco do forro fosse nuvens. Não se dava conta de que se encontrava numa espécie de alçapão, embora com passagem aberta. Pé ante pé, acabei de abrir a janela para facilitar sua saída. Apesar do cuidado, provoquei novos voos tortos.
Voltei a aquietar-me na cama. Contudo o sabiá de praia, a esta altura já identificado, continuava voando para cima sem olhar para baixo nem pros lados. Agora também pousava na parede da frente, após algumas investidas contra o telhado. Queria muito tirá-lo dessa enrascada, mas como? Qualquer movimento levava-o a se agitar. Começou a piar chamando alguém dele. Talvez fosse filhote ainda sem destreza de voo, apesar do tamanho.
 Imóvel na cama e penalizada pensava. A janela estava bem ali, deixando às vistas os ramos floridos da aroeira a balançar ao vento. Ele não via. Chegou a ficar na beira do armário pertinho da janela, porém manteve-se virado para outro lado, olhos voltados para o alto. Era como os  inflexíveis que relutam em mudar de perspectiva, se apegam a falsas certezas, ou buscam uma única solução longe, quando a tem ao pé de si.  
 O anseio pelo céu era tal, que não podia entender que muitas vezes para se chegar ao topo é preciso antes descer. Mostrava o quanto o pânico turva o raciocínio ao ponto de repelir a salvação. Eu queria muito acudí-lo, mas não se pode ajudar a quem não quer ser ajudado por estar cego pelo medo, ou orgulho, ou outro motivo qualquer. Eu estava na impotência. Como chegar até ele? Como fazê-lo olhar para baixo e ver a saída?
O tempo passava, eu me inquietava, não podia mais ficar imóvel. Precisava ir à fisioterapia. De que modo me arrumar sem espantá-lo? Passou a piar mais alto. Não tinha jeito, me levantei. Ele voou se batendo no teto na direção da porta do quarto, defronte da qual, fica uma janela basculante de bom tamanho e aberta. Pronto, pensei aliviada, agora ele sai. Saiu nada! Pousou na beira da parede acima da janela, sempre olhando para o alto. Terminei de me ajeitar com o máximo de cuidado. Vi que o basculante do banheiro também estava aberto. Ele tinha três possibilidades de saída, mas não enxergava nenhuma.
Minha esperança era que com minha retirada ele se acalmasse e acertasse ir embora.  Mas que nada! Quando voltei o sabiá ainda se encontrava no quarto na mesma agonia. Estava há horas nisto, sem comer nem beber. Lúcia colocou fatia de mamão e vasilha com água na janela na tentativa de atraí-lo para abertura. Deixei-o sozinho novamente à vontade para a refeição e o voo de libertação. Entretanto não deu certo. Depois do almoço voltei para o quarto precisando usar o computador, porém, mais uma vez, para evitar que ele se debatesse demais, fiquei a ler na espreguiçadeira sem me mexer.
Agora em desespero, o sabiá quase não mais parava, ia continuamente de uma parede a outra, sempre bem rente ao teto. De bico aberto mostrava cansaço. A situação já durava cerca de oito horas. A tarde avançava, o bichinho sem descanso e sem comer. Se não conseguira sair até então, não seria ao anoitecer que conseguiria. Alguma coisa precisava ser feita, apelei pra uns e outros, ninguém sabia o que fazer. Na aflição, bestamente, pensei usar uma escada de abrir para tentar pegá-lo ou fazê-lo descer o voo. Ideia que só serviu para Matilde rir e gozar da minha cara.  Enfim, ela sugeriu espantá-lo com uma vassoura em direção a uma das janelas. Resolvemos experimentar.
Ante da vassoura  chegar o basculante do banheiro foi tomado por curiosos expectadores, os micos que ameaçavam entrar e complicava mais ainda a coisa, barreirando uma das possíveis saídas. Nem tivemos tempo de pô-los para fora, a ação vassoural  havia iniciado. O bichim era mais teimoso do que a mula e taurino juntos. Não descia. Voava mais agitado. Só restava uma solução, terminar de cansá-lo. Nem foi preciso muito, exausto  logo caiu, correu para baixo da cama, tentou escapar, tombou na mesinha de cabeceira, onde Lúcia, com maior destreza, conseguiu agarrá-lo.
Não se entregou fácil, não. Debateu-se nas mãos delas e me deu bicadas quando gotejei água no seu bico. Ao chegarmos à janela para soltá-lo, vimos os micos a postos na aroeira e cajueiro, tivemos de espantá-lo, no que fomos ajudadas por um, ou uma, sabiá que os puseram a correr. Seria a mãe, o pai, ou apenas um igual solidário? Soltamos a nossa avezinha, nossa não por posse, mas por carinho. Ufa! Lá se foi para um galho distante do cajueiro. Lúcia ainda desceu do quarto para lá embaixo conferir onde ele fora se alojar. Mas já tinha batido asas. Afinal pôde voar para o céu como tanto tentou durante tantas horas. Conosco ficaram cinco peninhas caídas na labuta do resgate.