Sob as
primeiras chuvas de abril
Há
poucos dias eu dizia que as folhas luziam e reluziam sob a luz do sol de fim de
estio. Agora acabei de ver as folhas também luzindo, mas sob as primeiras
chuvas de abril. O verde lavado reluz alegrinho e as gotas retidas nas folhas verdinhas
são pedrinhas de brilhante a tremeluzir. E fazem pensar.
Mais
uma vez a constatação de que os opostos se igualam. Tanto o sol quanto a neve
põem a vida a hibernar. Seja sob o solo crestado do sertão ou congelado onde
neva, a vida fica adormecida e basta os primeiros chuviscos no chão esturricado
ou os primeiros raios de sol sobre o chão gelado para a vida belamente acordar
pujante.
Aqui,
na zona de meio-termo, ou seria do caminho do meio do taoismo? ou da moderação
dos gregos? Aqui, que não neva nem tem sol esturricante, não chegamos a ver
esse fenômeno, mas nem por isso deixamos de observar as sutilezas da natureza.
E as
primeiras chuvas de abril se intensificam, pois afinal, abril, águas mil. Da
beira do telhado desce a espessa cortina d’água. Uma leve fina névoa embaça o
azul do céu e põe o brilho das folhas atrás de tule, compondo outra beleza no
lugar.
E por
falar em abril chuvas mil lá vem a lembrança da belíssima música “As cores de
abril”, de Toquinho e Vinicius, uma das nossas odes à alegria, que há poucos
dias circulou nas redes socias em forma de lindo vídeo. Um abril com cores e
ares de anil, mundo aberto em flores pelas quais pássaros mil voam fazendo
amor; um abril com canto gentil de bem-te-vi e com cores que não querem saber
de dor; e em meio a tanta beleza, a natureza
transforma a vida em canção.
Fico
pensando no dia da criação dessa música. Estariam os compositores no hemisfério
norte onde a primavera é em abril? Ou teria sido por aqui mesmo, no outono, num
abril atípico, quando em vez de chuvas havia cores, ares de anil, flores e
pássaros?
E como
pensamento puxa pensamento, no pensar num abril atípico chega também a surpresa
de Trees, a amiga holandesa, diante do abril desse ano por lá, com tulipa na
neve. Envia foto para comprovar. Como se não bastasse a estranheza de nevar na
primavera, ela conta que dez minutos depois da neve cair fez-se tempo de verão. E
concluiu dizendo, com o ditado deles: “April does whatever it likes to do”, ou
seja “abril faz o que ele quer fazer”, sendo, portanto, imprevisível, ou
simplesmente dono de sua vontade.
A
chuva dá uma trégua para os verdes da vegetação se exibirem de banho tomado e
roupa nova. Na mente ecoam a melodia e os versos de Toquinho e Vinicius, sim “tudo é pura
visão/ E a natureza transforma a vida em canção” E a gente se apaixona pela
natureza, pela vida. Também de alma lavada, ao menos momentaneamente livre dos
medos, das dores, das indignações deste tempo de trevas, a gente está pronta a
seguir o conselho do poeta: “Vai e
canta, meu irmão. / Ser
feliz é viver morto de paixão”.


















