PITANGAS
E PRESÉPIOS
A
manhã ainda estava no começo quando soou o já desusado pregão, “Olha a pitanga!”
Então, à mesa do desjejum,
o homem se deu conta de que estava no dia 24 de dezembro e que o vendedor
mercando na rua não oferecia as frutas, mas sim galhos de pitangueiras, no afã
de não deixar morrer uma das mais singelas tradições natalina, aquela que dava
um cunho tropical ao nosso Natal, que o abrasileirava.
Ele
não esquecera, o Natal tinha cheiro da nativa pitanga, de tanto que, neste
período, as suas folhas recendiam por toda parte. Nas casas eram espalhadas pelo
chão coberto de fina areia branca, e distribuídas nos diversos jarros. Nas ruas,
os aromáticos ramos, além de passarem úmidos pra lá e pra cá dentro das latas dos vendedores,
eram amarrados
em postes e nos ônibus. O pitangueiro novamente mercou já mais distante e ele,
ainda na mesa do café, ficou no devaneio.
Entendia, agora, que
a mesma apregoação ouvida nos tempos idos, se constituía numa versão sonora da
Estrela Guia, a conduzir o menino-homem ao menino-deus. O antigo anúncio de
venda das folhas, soando
em vozes distintas e não no hodierno solo de hoje, era o sinal de que havia
chegado a hora de armar o presépio. Presépio onde o deus-menino renascia a cada ano a
elevar o humano coraçãozinho encantado com a própria arte e a proximidade do
divino.
No seu tempo de Zezinho — vivendo no lugarejo afastado da capital, entre a ingenuidade, a
improvisação e a simplicidade — o presépio se constituía no centro da festa,
armado nos lares e nas igrejas. Com a criatividade à solta, não se armavam dois
presépios iguais. Se num ano havia morros feitos de pedras, no outro, usava-se
papelão ou jornais cobertos de crepom verde. Empregavam-se os mais variados
materiais: gessos, madeira, palha, barro, a fim de criar cenários diversos, às
vezes rochosos, às vezes campestres, às vezes citadinos, sem nenhum compromisso
com a escala de tamanho ou perspectiva.
Neles
um mundo de coisas era incorporado, misturando cenas e figuras que nem sempre
tinham a ver com a história retratada: pedras, brinquedos, conchas, areias
vindas das praias e ou dunas, cessada para ficarem bem branquinha, casinhas
de papelão e de caixa-de-fósforos, bonecos de celulóide, patos, galinhas,
carneirinhos, o boi, a vaca e o burro, os pastores e pastorinhas
A variedade de feição era enorme. Alguns presépios
mais engenhosos exibiam cascatinhas, riozinhos correntes, pontes, moinhos e
outras invenções de hábeis artistas ou artesãos. No geral prevalecia a
singeleza, bem ilustrada pelo, quase obrigatório, caco
de espelho
formando lago. Em todos, só
não podia faltar os ramos de pitanga, a manjedoura, os três reis magos,
Nossa Senhora, São José, e claro, o menino Jesus.
Os preparativos começavam dias antes, com o planejamento,
recolhimento de materiais e confecção das figuras e objetos. Mas tudo era
festa: sair em busca de musgo, das florzinhas agrestes e das indispensáveis
pitangas; ir às dunas pegar areia; catar conchas e búzios nas praias, ou pedras
e argila nas beiras de rios; modelar bichinhos de barro; fazer bonecos de
palhas ou de saco de aniagem; forrar caixas de fósforo ou papelão, colando
telhados portas e janelas, tudo coloridinho.
Ainda não havia sido importado o espalhafatoso e caro Natal americano
e, a tradição européia, que havíamos herdado, passara por adaptação, ganhando característica
nacional. Assim, além das pitangas e dos presépios, faziam parte da comemoração:
as recíprocas visitas aos presépios e ou as casas dos amigos, parentes e
vizinhos; a ceia, com bacalhau (não com peru) presunto, queijos, roscas e
frutas secas; a missa do galo seguida dos folguedos populares: reisados, ternos
de reis ou de pastorinhas, auto de natal, bumba-meu-boi, rodas, boca de forno e
demais brincadeiras infantis. Como a epidemia do consumismo ainda não se
alastrara, não havia trocas de presentes nem a febre das compras e da pompa. O Papai Noel foi chegando aos poucos nas
cidades grandes, mesmo assim, trazendo os presentes somente para as crianças,
normalmente brinquedinhos simples. Então, o homenageado não ficava tão
distante.
A esta
altura, o antigo Zezinho se lembrou de um episódio daquele tempo, quando seu
tio paterno, conhecedor da sua cachaça por presépio, o levou à capital para
cumprir a tradição de percorrer várias igrejas para ver os respectivos
presépios no dia de Natal. Aproveitava para instruir o sobrinho quanto à arquitetura
barroca e às artes sacras. O menino boquiaberto girava em si mesmo para ver
tudo, enquanto o tio, orgulhoso chamava atenção para o fausto e os detalhes.
Porém, já com seus onze anos, freqüentador da humilde capela da sua aldeia e um
tanto quanto familiarizado com os evangelhos, Zezinho perguntou ao seu
cicerone, se aquela era mesmo a casa de Jesus e se tudo aquilo dourado era ouro
de verdade. Ante a confirmação do tio, o menino realmente perplexo inquiriu,
procurando entendimento: “Então toda aquela riqueza era para Jesus? para o
carpinteiro pobre que aconselhava a não se juntar tesouros na terra, que até
condenava os ricos por se ocuparem em amealhar bens materiais em lugar dos bens
espirituais? Será que o Cristo, que nasceu num estábulo, que viveu sem nada
possuir, se sentiria bem num ambiente tão luxuoso assim? por que querer
homenageá-lo justamente com coisas e modos que o mestre desaprovaria?
Seu tio
bem que se esforçou para explicar, mas o aplicado aluno do catecismo interiorano
teve dificuldade de compreender e na sua cabecinha as interrogações
permaneceram no fundo da memória, sob as muitas outras que foram surgindo e se
acumulando no caminhar dos anos. E agora, na manhã da véspera de Natal, no
instante em que um vendedor mercava pitanga, elas afloravam junto às boas
reminiscências. Constatou que as suas perplexidades só fizeram aumentar. Todo o
conhecimento amontoado nas suas seis décadas de existência não fora suficiente para
elucidar o ser nem para explicar as incongruências humanas, tais como a
transformação da comemoração do nascimento do humilde amoroso sábio de Nazaré
em fantástico negócio. Uma ponta de desencanto se insinuou, contudo foi salvo a
tempo, pela voz do netinho que vinha correndo com galhos de pitanga na mão a
dizer: “vovô veja o que vovó comprou, vamos armar o presépio agora?”
Mais uma
vez a versão sonora da estrela guia cumprira a missão. E lá se foram os dois
meninos, o grande e o pequenino, ao encontro do menino Deus. A esperança se refez. Então, o antigo Zezinho teve
resposta para uma das suas muitas interrogações: não importava o que os homens
fizeram do Natal e de tudo mais, a essência sempre se conserva, até se revela,
para quem de coração leve vai ao encontro do divino.
