Maria Lúcia
Na tarde de primavera nublada havia luz no banco de
cimento da pracinha detrás do Largo da Quitanda. Luz do sol do dezembro passado
quando a amiga esquecera os óculos ali. A querida Maria Lúcia Ribeiro Martins
viera rápido, com o companheiro Flávio Moreira da Costa, apenas para o almoço,
a entrega do seu livro recém-lançado e o abraço apertado das saudades de tanto
tempo de distâncias. Ela estava um tanto irritada pelo cansaço da travessia de
lancha em pleno domingo ensolarado, ainda assim, jovial, encantada como tudo
que via e encantadora como sempre.
Conversamos, rimos, andamos um pouco, falou que ia
se submeter a uma intervenção para colocação de stent. Quando já estava no taxi que os levaria à Mar Grande para
tomar a lancha de volta a Salvador, deu falta dos óculos. No mesmo instante me
telefonou e eu comecei a busca passando pelos os lugares onde tínhamos estado.
Logo em seguida ela e Flávio chegaram e intensificamos a procura, restaurante
onde almoçamos, no outro onde ela foi ao banheiro e fez a dedicatória do livro
para mim, no centro de artesanato... Aí ela lembrou que tinha deixado os óculos
sobre o banco da pracinha onde sentamos para ela descansar um pouco. Voltamos
lá e nada.
Maria Lúcia ficou vexada, afinal permaneceria no
hotel em Salvador por mais alguns dias e não poderia ficar tanto tempo sem os
óculos nem tinha como fazer outro. Estava vexada, mas determinada, como de
costume. Chamou um rapaz que passava. Eu ainda pensei, como um cara que estava
passando por ali naquele momento poderia saber dos óculos perdidos momentos
antes? Porém ela parecia ter certeza de que o jovem saberia dizer onde estavam
os óculos. E não era que sabia. °
Ela explicou o sucedido, ele simplesmente esboçou um
riso e fazendo um sinal nos levou junto ao muro de uma casa, a uns 10 metros,
se inclinou e de dentro da caixa de registro de água pegou os óculos e entregou
a Lúcia, que bem do seu jeito infantilmente espontâneo, abraçou o surpreso
rapaz, enchendo o rosto dele de beijinhos. Depois a explicação: ele morava ali
perto e tendo visto, pouco antes, os óculos largado sobre o banco, pegou-os e
os guardou, esperando que o dono viesse procurar.
Esta foi a última que vi a amiga e constatar isso
nesta cinzenta tarde de primavera, além de certa dor no peito, trouxe outras e
outras lembranças, a nossa destemida viagem num velho fusquinha à Cachoeira,
onde gastamos bom tempo na oficina. As conversas, as longas e longas conversas,
regadas ao café quentinho de que ela tanto gostava. Como tínhamos assunto!
Nunca esgotamos nenhum... Ela falava muito, mas a gente não cansava porque
tratava de coisas belas e profundas de maneira deliciosamente peculiar. Ela
falava, mas, ao contrário da maioria dos tagarelas, sabia, sabia não só,
gostava de ouvir e seu interesse em escutar fazia com que a gente também
falasse, falasse, falasse. E quanta
ponderação, quanto apoio e estímulo passado!...Era muito bom isto. Como era bom
estar em suas várias bem transadas moradias, sempre revelando a sua especial
pessoalidade e nos fazendo sentir carinhosa e seguramente acolhidos. Aliás sua singular
personalidade, com boas doses de excentricidades ou mesmo doidice, era evidente
em tudo nela, inclusive no modo de vestir que eu muito admirava.
Como era bom compartilhar com ela os reparos das
nossas leituras e a sutil percepção das minudências da natureza, que tanto nos
fascinava! Era capaz de ficar horas a fio acompanhando o carreiro das formigas,
ou, por dias, observar a construção de um ninho ou desabrochar de uma flor e
entrar em êxtase diante de uma inusitada conchinha do mar. Como era bom tomar
chá e apreciar o pôr-do-sol no Solar do
Unhão, explorar a Casa da Torre, participar das sua peripécias e atrapalhadas, vê-la
leve, solta fazendo pose para a foto nos galhos do grande cajueiro polvo... Sobretudo
como era bom aquele sorriso fácil que vinha da alma alegre e iluminava tudo e
todos, como sol do alto verão.
Era verão na última vez que vi a amiga e será sempre
verão toda vez que dela lembrar, pois esta era a sua condição de ser. Ser luz e
calor para quem encontrasse.
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