quinta-feira, 3 de junho de 2021

  

De Romance e Resedá

          


Nas dobras do tempo se perderam as sutilezas que romantizavam a vida, restando o atual momento de insípidos vazios espetáculos e explicitações. Mas no momento em que minha amiga Gracinha me envia uma foto das flores do resedá e conta uma historinha dos seus avós, o tempo se desdobra e me sinto tomada por suave ternura de encantamento que os pequenos quase nada da singeleza nos proporcionam.

Gracinha diz “essas são as flores do resedá, uma plantinha muito antiga. Tia Angélica me contou que na casa de Vó, no Catu, tinha um pezinho e que Vó tirava um galhinho e colocava no cinto de tecido na cintura pra estar perfumada quando Vô chegasse em casa. Ele era chefe do restaurante do trem e saltava no Catu, uma das estações, depois do trabalho. Delicadeza e muito amor!”

Sim, muito amor expresso de forma delicadamente sutil e que por ser assim, transcende aos amantes e enternece também a quem percebe. E minha amiga ainda complementa “Minha avó era muito doce. Quando ela e meu avô se desentendiam (os desentendimentos eram raríssimos), falavam baixinho, eu só ouvia ele dizer, baixinho mas zangado: Senhora! Que era como ele a chamava. E ela, Oscar! Era um barato!”.


Pura doçura até nas raras zangas. E tanta candura rescendendo o perfume de resedá me faz lembrar daquelas figuras antigas de enamorados em biscuit ou gravuras românticas em jardins de muitas flores. Ele oferecendo um ramalhete ou pequeno buquezinho a ela sentada num balanço também florido a olhá-lo ternamente. Ou, em outra cena, ela faceiramente prendendo uma flor nos cabelos ou no botão da blusa sob a fascinada contemplação dele. Era um tempo de poucas palavras, mas de altas significâncias dos pequenos gestos, longos silêncios, suspiros profundos, olhares furtivos, discretas declarações, insinuantes demonstrações de amor


Posso imaginar, uma cidadezinha com sua bela estação de trem, todas estações de trem são sempre muito belas, igreja num largo em torno da qual se distribuem algumas ruazinhas pacatas com seus ajardinados bangalôs de varandinhas aromadas de jasmins e outras flores antigas. Em um deles, no fim do dia, antes do alto-falante tocar a Ave Maria, uma jovem senhora, banho tomado, cabelos arrumados, vestido com enfeites de renda alvamente engomado, colhe raminho do balsâmico resedá e discretamente o põe no cinto para receber o marido, seu presente de todas as tardinhas, sendo também ela mesma o mimo cheiroso a dar-se a ele.

Tudo isso no tempo das sutilezas, no tempo de romantismo, no tempo de resedá, e outras flores antigas. Até as flores entram e saem de moda? Mas minha amiga tem jardim com flores antigas e delas ela fala desse jeito: “De resedá eu tenho dois pés. O primeiro foi comprado na mão de uma senhora, dona Alice, que morava perto da Igreja S. José, no centro. Ela mesma fazia as mudinhas de um pé que tinha e depois eu fiz uma muda e plantei no jardim. Na mão dela também eu comprei uma muda de jasmim estrela, aquele bem antigo e perfumado. Tenho dois pés enormes dele aqui. Um sobe pelo telhado da frente e perfuma a sala. O outro, é do lado da casa. Dona Alice já morreu e só vendia plantas antigas. Tenho também o jasmim bugari, parece uma rosa branca e super perfuma tudo em volta”.

Então eu me pergunto: será que o romantismo passou porque essas flores desapareceram ou foi o contrário, estas flores sumiram porque o romantismo terminou? Seja como for, o caso é que minha querida Gracinha é uma sensível romântica que cultiva flores antigas e me inspira crônicas assim.  



sábado, 22 de maio de 2021


 

Matutando na Madrugada

 



Acordo no meio da madrugada com um ruido no forro. Ainda de olhos fechados penso que algum bichinho tenha entrado entre o telhado e o forro. Torço para que consiga sair logo. Ainda com muito sono vou adormecendo, mas ouço novo ruído, mais forte e percebo que é dentro do quarto. Abro os olhos a tempo de ver algo se bater no forro e cair na escrivaninha, atrás da impressora. Temo ter sido uma barata, apesar da   coisa ser bem grande.  Mas como estou debaixo do mosquiteiro me sinto um pouco protegida, na verdade, acuada. E se a bicha voar em direção da cama? Arrepio no corpo todo. 

Para piorar vem a necessidade de fazer xixi. Como sair do abrigo de filó, abrigo frágil, bem verdade, ainda sim uma proteção. Tento dormir. Cadê conseguir precisando ir ao banheiro e com uma possível barata no quarto? Encho-me de coragem, mesmo porque agora também o frio aumentou requerendo uma coberta. Levanto devagarinho, vou ao banheiro. Tudo bem, mas quando abro a porta do guarda-roupa para pegar o cobertor, escuto o barulho na escrivaninha. Corro pra baixo do mosquiteiro. Então vejo que é um passarinho que voa, mas se bate no teto.




Não é a primeira vez que isso acontece. Os pássaros entram pela janela sempre aberta e não conseguem sair. Feitos para voar no amplo espaço natural, eles não podem entender uma barreira ao voo. Afinal o mundo não tem teto e o coitado do pássaro, talvez um sabiá que cedo madruga, no escuro não dá pra distinguir, se debate na armadilha humana. Não sei como ajuda-lo, porque qualquer movimento meu o assusta fazendo se bater mais ainda. Insiste em passar por onde não pode e tomado pelo pânico não aceita ajuda. Nisto se iguala aos seres humanos que embora se gabem da inteligência que têm, continuam se batendo nas vidraças das impossibilidades e por medo ou cegueira da teimosia não veem as saídas nem as ajudas que lhes são oferecidas. E vão repetindo erros, criando um mundo caótico para si, para a sociedade em que vivem e para o lindo planetinha azul.


Querendo servir a dois senhores, colocando remendos novo em pano velho, querendo conciliar o inconciliável, vai-se atirando pedras para cima com a própria cabeça embaixo. Vai-se elegendo valores artificiais e o vírus da insensatez se alastra numa pandemia sem vacinas ou qualquer controle, mesmo porque a demência que este vírus causa não deixa ver o mal que é. Assim o vício da riqueza, do poder e fama embotam os sentidos a razão e a sensibilidade. Assim se queima e derruba florestas de onde vem o ar que se respira, polui-se rios da água que se bebe, mata-se manguezais e por ai adiante. Assim nascem projetos estapafúrdios como o de criar uma cidade com prédios de 30 andares num recanto paradisíaco, que poderia inclusive gerar dinheiro com o turismo sustentável.



Fico a pensar no que sente essa gente que manda destruir e os que executam a destruição. Como ter coragem de macular a alvura da areia daquela praia, cortar o coqueiral que alheio as intenções entoa longo acalanto ao passar da brisa? Como meter trator e motosserras naquela mata intensamente verde de clorofila e ar em desmedido arvoricídio e chacina dos animais?  Como não se comover com o cantar de passarinhos que sem razão alguma condenam à morte? Como não se extasiar com a sensação de límpida infinitude azul do mar e do céu? Tanta beleza em sossego não é suficiente para enternecer o coração e elevar a alma? A paz que ali se experimenta não plenifica o ser? Como então violentar os restos de paraíso que ainda resistem com empreendimentos questionáveis?

Procuro entender a falta de sensibilidade.  Será que a sensibilidade só chega para alguns, ou será que foi perdida na trajetória da humanidade deslumbrada com as parafernálias que inventa? Talvez a sensibilidade tenha sido perdida quando se pôs tetos no mundo, escondendo o navegar das nuvens no mar azul do céu e o estrelejar dos astros no veludo escuro da noite. Ao artificializar-se, ao distanciar-se da natureza os humanos esqueceram sua condição e, sobretudo, ao deixar de ver estrelas perderam a sua real dimensão em significância. Nada como um bom céu estrelado para criar o pasmo essencial, para nos fazer baixar a crista e nos botar em nosso lugar, mas também, como aos pássaros, nos fazer alçar voos extraordinários. Os tetos não só confundem as aves, mas também nos limitam e nos tornam ridiculamente presunçosos.

E por falar em pássaro, devo dizer que o que estava aqui felizmente achou a saída. Enquanto eu matutava o sol ergueu-se empurrando a noite para mais tarde. Na luz do novo dia a avezinha viu o seu caminho para espaço sem fim. Mas já era tarde pra voltar a dormir e sob o teto me pus a cumprir o cotidiano.

    




                                                                                                                                                                                                                                         

sexta-feira, 9 de abril de 2021

 

Sob as primeiras chuvas de abril

 


Há poucos dias eu dizia que as folhas luziam e reluziam sob a luz do sol de fim de estio. Agora acabei de ver as folhas também luzindo, mas sob as primeiras chuvas de abril. O verde lavado reluz alegrinho e as gotas retidas nas folhas verdinhas são pedrinhas de brilhante a tremeluzir. E fazem pensar.

Mais uma vez a constatação de que os opostos se igualam. Tanto o sol quanto a neve põem a vida a hibernar. Seja sob o solo crestado do sertão ou congelado onde neva, a vida fica adormecida e basta os primeiros chuviscos no chão esturricado ou os primeiros raios de sol sobre o chão gelado para a vida belamente acordar pujante.   

Aqui, na zona de meio-termo, ou seria do caminho do meio do taoismo? ou da moderação dos gregos? Aqui, que não neva nem tem sol esturricante, não chegamos a ver esse fenômeno, mas nem por isso deixamos de observar as sutilezas da natureza.

E as primeiras chuvas de abril se intensificam, pois afinal, abril, águas mil. Da beira do telhado desce a espessa cortina d’água. Uma leve fina névoa embaça o azul do céu e põe o brilho das folhas atrás de tule, compondo outra beleza no lugar.


E por falar em abril chuvas mil lá vem a lembrança da belíssima música “As cores de abril”, de Toquinho e Vinicius, uma das nossas odes à alegria, que há poucos dias circulou nas redes socias em forma de lindo vídeo. Um abril com cores e ares de anil, mundo aberto em flores pelas quais pássaros mil voam fazendo amor; um abril com canto gentil de bem-te-vi e com cores que não querem saber de dor; e em meio a tanta beleza, a natureza  transforma a vida em canção.



Fico pensando no dia da criação dessa música. Estariam os compositores no hemisfério norte onde a primavera é em abril? Ou teria sido por aqui mesmo, no outono, num abril atípico, quando em vez de chuvas havia cores, ares de anil, flores e pássaros?

E como pensamento puxa pensamento, no pensar num abril atípico chega também a surpresa de Trees, a amiga holandesa, diante do abril desse ano por lá, com tulipa na neve. Envia foto para comprovar. Como se não bastasse a estranheza de nevar na primavera, ela  conta que dez minutos  depois da neve cair fez-se tempo de verão. E concluiu dizendo, com o ditado deles: “April does whatever it likes to do”, ou seja “abril faz o que ele quer fazer”, sendo, portanto, imprevisível, ou simplesmente dono de sua vontade.

A chuva dá uma trégua para os verdes da vegetação se exibirem de banho tomado e roupa nova. Na mente ecoam a melodia e os versos  de Toquinho e Vinicius, sim “tudo é pura visão/ E a natureza transforma a vida em canção” E a gente se apaixona pela natureza, pela vida. Também de alma lavada, ao menos momentaneamente livre dos medos, das dores, das indignações deste tempo de trevas, a gente está pronta a seguir o conselho do poeta: “Vai e canta, meu irmão. / Ser feliz é viver morto de paixão”.

 


 

sexta-feira, 19 de março de 2021

 

         Porque as folhas luzem


        Ontem, no final da tarde as primeiras cigarras anunciaram a aproximação do outono. Hoje, sob o sol dos últimos dias de verão, as folhas luzem e reluzem, espargindo luz a consolar e acalentar os corações confrangidos neste tempo de dores e desesperanças. Quem dera que todos tivessem assim, uma janela aberta para aroeira, cajueiro, coqueiro, pau-brasil, qualquer planta refratora.  Por certo teriam novo alento para essa difícil travessia.

Sim, verdade que a luminosidade não devolve as perdas, mas mitiga a dor e transmite sutil recado de Deus para quem crê, ou simplesmente da natureza: Vejam. Enxerguem de verdade. A luz está a clarear os caminhos, deixando distinto as curvas, as subidas e descidas, os atalhos fáceis que dão em abismos, as estradas de terra e pedregulhos que levam a campos floridos. É tempo de saber ver e saber escolher para que não hajam outras pandemias nem o fim da espécie humana.

A Terra está aí linda, exuberante, indistintamente generosa a conclamar simplicidade, comedimento, cooperação, respeito, referência, tolerância, inteligência, harmonização de todos e tudo, enfim sabedoria amorosa para bem ser e fazer. A luz está aí deixando tudo às claras. O Luzir não deixa dúvida de que no Planeta cabem todos desde que não haja ganância, como bem disse Ghandi. A luz revela que o Paraíso não foi perdido, tão só os humanos nublaram as vistas e se perderam.


O luzir também diz que basta desanuviar os olhos para se estar de novo no Jardim do Éden. E desnuviar-se significa livrar-se do grande equívoco dos apegos, da vaidade, da gana pelo poder, fama e riqueza que leva às disputas, concorrências, desigualdades, explorações desmedidas, poluição. É da natureza da Terra ser boa e bela, a ruindade e feiura é obra dos humanos. Os exemplos são inúmeros e acontecem a todo instante, fiquemos no rasteiro mais trivial. Alguém chega num recanto ainda primitivo e se encanta com as lagoas, ou rio, ou mar, a vegetação, se diz no paraíso. Mas logo, tem ideia de um loteamento, divide a área em lotes, abre estrada, derruba árvores,  aterra nascente, joga esgoto no rio. Enfim, trata de transformar o seu paraíso no inferno poluído e barulhento a que se acostumou.

E que dizer do uso dos agrotóxicos? das derrubadas e queimadas de florestas inteiras para atender a desenfreada superprodução com que se insiste manter o regime econômico dos gananciosos, geradores das desigualdades e injustiças sociais, da destruição do próprio habitat  ou da cavação da própria sepultura.  Chegará um tempo que se sentirá horror pelas violências cometidas contra a belíssima e generosa Gaia e seus próprios semelhantes. Quisera que já fosse agora, ainda a tempo de eu poder ver o povo cantando seu canto de paz e felicidade.

O calor se intensifica na virada de estação com a certeza de que dentro em breve se arrefecerá, tal como se o verão quisesse deixar sua marca, ou como na dialética, chegar ao ponto máximo para gerar a sua antítese. Assim, a minha teimosa esperança faz crer que o atual acirramento de pandemia é o auge que a levará ao fim. Que assim seja com a virose e também com a insensatez humana.  Navegando na irradiação das ondas luminosas também chegam notícias alvissareiras. O anúncio do possível retorno do estadista agregador e mais maduro ao posto de comando e as ações do papa, verdadeiramente cristão, que faz jus ao santo de quem adotou o nome e ao Cristo Jesus a quem serve. Seres iluminados varando as trevas, abrindo caminhos para harmonização e instalação do reino do céu na Terra.

As folhas brilham, as cigarras cantam, o calor aumenta, os iluminados atuam, as vacinas chegam, a pandemia passa.  E os homens, afinal aprendem que bom mesmo é amar em paz e descobrem que para isso de bem poucos objetos se precisa, mas  que a plena e genuína felicidade pessoal só é possível com o bem estar coletivo  assegurado; quando não mais houver miseráveis, quando não mais houver necessidade de caridades, quando se produzir apenas de acordo com as reais necessidades e não para lucratividade de alguns, quando a relação com a natureza for de harmonia e não de exploração, quando a sensibilidade do amor preponderar, quando se construir uma sociedade saudável.

Utopia? Desvarios? A culpa é do brilho das folhas ao ritmo do vento quente de fim de verão.

14 de março 2021, um ano sem sair de casa



quinta-feira, 4 de março de 2021

 



Mundo Novo

                Os dias vão passando implacavelmente, cada vez mais rápido para quem já acumulou muita idade. O sol continua, com participação primorosa das nuvens e ventos, estreando um novo espetáculo de luz e cor a cada amanhecer e entardecer. E a gente há mais de um ano estagnada nos adiamentos e nas esperas. Adiando planos, consertos, consultas, viagens, encontros, abraços e beijos. Esperando a pandemia passar, a vacina chegar, o governo mudar, a humanidade se transformar.

                E neste compasso a gente busca compensações e nesta busca a gente se entrega ao devaneio. Abre-se a cortina e emerge um mundo resplandecente. Cenário mais que perfeito com muitas árvores, flores, pássaros, águas límpidas, céu azulíssimo. Tudo sem menor sinal de agressão ou poluição. E as cenas se desenrolam. E tudo surpreende e encanta e nos engrandece e nos torna felizes. Cumpre-se o dizer de que após a tempestade vem a bonança. Cumpre-se o axioma de que só se aprende com o sofrimento, coisa que há bem pouco se duvidava vendo-se a contínua reincidência.

                Pela primeira vez cenário e cenas se casam. No belíssimo e dadivoso Planeta azulzinho as encenações humanas já não destoam do pano de fundo. As ações estão em perfeita harmonia com ambiência. Plenamente conscientes da interdependência de tudo que há, convencidos que são servos e não senhores da natureza, os humanos mudaram. Sim, as lições dadas pela pandemia do covid 19, enfim surtiram efeitos. E já não existem pobres e ricos, nem explorados e exploradores, nem raças, nem estrangeiros, nem imigrantes, nem enjeitados, relegados, esquecidos, nem luxo nem miséria nem isso nem aquilo que discrimina, separa, conflitua, infelicita. Divisão, só de bens e de recursos, de partilha. Diferenças, só a diversidade que enriquecem culturalmente.

                As cidades não são mais ilhas de concretos, onde cada um se esconde do medo para viver o individualismo egocêntrico no ilusório conforto da caverna atapetada. Nem o cimento dos viadutos são cinzas lençóis dos sem nada. Os campos não são mais vastos latifúndios nublados de venenos do agronegócio nem espremidas e ressequidas roças familiares de gatos pingados deserdados da sorte. Não há mais grandes fortunas, nem acúmulos de capital, nem especulações, nem consumismo, nem superprodução com seus desperdícios, encarecimentos e exaurição dos recursos da Terra.




Não,  no novo mundo tudo é diferente. As cidades são jardins, onde as pessoas, conhecidas ou não, se veem, se cumprimentam, se sorriem, festejam a alegria, celebram a vida. Os campos são trechos conservados do Paraíso, onde se produzem alimentos sadios para todos em regime de cooperativismo. O mundo é de todos os viventes e não de apenas alguns equivocados gananciosos privilegiados aproveitadores do Planeta. O uso de tudo é comum, dentro da compreensão de que não é preciso reter para dispor. A ordem vigente é o respeito a tudo e a todos, à lei universal. É a harmonia entre os diferentes dentro de Gaia, essa pequena bola sem fronteiras, cheia de vida animal, vegetal, mineral, em que de modo fatal entrelaçadamente vivemos viajando no espaço sideral. 

Sim, enfim, chegou-se à compreensão da interdependência de tudo e de todos, de modo que a real felicidade pessoal depende dos outros indivíduos, sejam esses insetos, plantas e doutores.  A começar pela dependência que os humanos têm das árvores, dos rios, das fontes e das abelhas, sem os quais não têm o oxigênio, água e alimentos de que precisam para existir. A natureza pode dispensar os seres humanos, mas estes não podem viver sem a natureza.  E numa sociedade doentia, na qual predominam as discriminações, o abismo entre escassez e o supérfluo, o desamor, o isolamento, a falsidade, a esperteza, a violência, as poluições, as devastações as doenças,  ninguém consegue ser feliz de verdade, mesmo os ditos “aquinhoados da sorte”. Sobre todos paira a insegurança, o medo a intromissão de um vírus letal a pegar todos de surpresas, fazendo tudo parar e ser repensado.

Após muita relutância, perdas e sofrimentos, a humanidade, afinal aprendeu e construiu o mundo novo.  Passou-se a viver em outra condição com menos coisas e mais serenidade e alegria, tendo por base a simplicidade, a compaixão, a solidariedade, cooperação, a partilha, a fraternidade o amor. “E povo cantando seu canto de paz”.

Mas eis que o telefone toca e o devaneio se interrompe. A gente se dá conta de que sonhou, sonhou demais. Antes que a decepção vire tristeza a gente lembra do documentário assistido há poucos dias, sobre uma comunidade rural em Minas Gerais, que vive nos moldes do que se devaneou aqui. Talvez mero reflexo ampliado do que foi visto e ouvido no filme. Seja como for, a constatação de que tal comunidade existe de verdade, serve de alento à esperança. E a gente continua sonhando com o Mundo Novo que poderia ou poderá vir a ser.

25 de fevereiro de 2021

               


 

 

 

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2020


 

Vasto mundo, coração pequenino


 

 

Diante da mortandade que assola o país entre a pandemia do virus e as queimadas; diante de toda destruição que os corações duros e os miolos moles vêm propagando no país, meu coração se confrange.  Nele ressoa os choros, os gemidos, os gritos, os urros, as dores de gentes, bichos, plantas, da vida massacrada pela vã ganância de loucos endemoniados. Pobres coitados, que insaciavelmente no afã de preencher o vazio existencial com riqueza  e poder, tornam-se sádicos sociais e estupidificam-se ao ponto de  se infelicitar e a matar a si mesmos. 

Uma sociedade onde a crueldade impera é uma sociedade gravemente doente e numa sociedade insalubre todos são afetados de alguma forma, mesmo os ricos poderosos, nem que apenas pelo medo. Na terra continuamente saqueada haverá de fatalmente faltar ar, água, alimento até para os próprios saqueadores, que como Midas descobrirão tarde demais, que não se come, nem se bebe nem se respira ouro.   Meu coração se desmantela sob o peso das dores todas, seja de pesar, de desgosto e da indignação. 

Lembro do poema Mundo Grande de Carlos Drummond de Andrade e, como ele, constato quão pequeno é meu coração, “nele não cabem nem as minhas dores”, quanto mais as do mundo.  “Sim, meu coração é muito pequeno. /Só agora vejo que nele não cabem os homens”. Tendo visto  “... as diferentes cores dos homens / as diferentes dores dos homens”, sinto “...como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso /num só peito de homem... sem que ele estale”. E o meu estala.



Mas eis que recebo mensagem de um querido casal amigo dando notícias do festival da primavera realizado, no final de semana, nos recônditos das montanhas de Piatã, Chapada Diamantina Dizem-me que foram muitas radiações de positividade, de alegria e que queriam me transmitir isso. Ressaltam que “Todas as notícias do mundo são noticias de tristeza, de padecimentos coletivos, de violentações à natureza, mas o que interessa é a positividade dos que confiam na vida, dos que confiam na divindade.” Sim, entendo, porque a vida é maior que a humanidade e há uma sabedoria plena, que não alcançamos, regendo o mundo.

Como a atestar, junto à mensagem dos amigos, vem a do ventinho que entra pelas janelas a avisar que começou a chover sobre as queimadas do pantanal. Ventinho ameno da primavera que se inicia a  me chamar para ver as primeiras flores dos cajueiros, promissão de farta safra,  o planar do gavião,  os joões-de-barro a espiar da varanda da sua casinha no poste, o ágil mergulho dos sabiás para pegar ração no prato dos gatos, o voozinho de duas pequeninas borboletas amarelas,  os leves alvos finos floquinhos de nuvens a flanar no azul perfeito.

Volto ao poema de Drummond, e leio os últimos versos: “Meus amigos foram às ilhas. / Ilhas perdem o homem. /Entretanto alguns se salvaram e trouxeram a notícia /de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias, /entre o fogo e o amor. /Então, meu coração também pode crescer. /Entre o amor e o fogo, /entre a vida e o fogo, /meu coração cresce dez metros e explode. /- Ó vida futura! Nós te criaremos.” E ponho a sonhar com essa vida futura, renascida com o aprendizado das cinzas dos erros atuais.  

E já vejo todo mundo tendo garantido renda básica, assistência à saúde, educação, moradia de boa qualidade e oportunidades iguais. Vejo latifúndios divididos e distribuídos; as monoculturas e agronegócios substituídos pela produção diversificada e sem venenos. Vejo reservas indígenas, quilombolas, florestas e demais biomas realmente preservados. Vejo a Terra sem ricos e nem pobres, sem consumismos nem indigências, sem superproduções nem  desperdiços,   sem posses nem escassez, sem ostentações nem medos. Ninguém mais dá rasteira nos outros para sobressair-se, pois todos estão cônscios do seu valor. Vejo a ambição pelo poder devidamente substituído pela gratificação íntima e a ganância desaparecida na certeza de que no planeta há o suficiente para todos.

Enfim, vejo predominar a integração, o cooperativismo, a partilha, a solidariedade, o amor, o equilíbrio, a harmonização do homem com a natureza, do homem com os outros homens e dele consigo mesmo. Vejo a humanidade cantar feliz e me pergunto se  tal sonho  se concretizará? Tomara. Seja como for, os botões das angélicas estão prestes a se abrirem para perfumar o jardim e a chuva cai sobre as queimadas.

 




sábado, 5 de setembro de 2020

 

A roseira da casa velha



A roseira da casa velha

 

Triste sina das belas casas de outrora, perdidas nas medrosas acimentadas cidades verticais de agora. Tanto fausto, tanto esmero já não formoseiam as ruas. Atrás dos gradis enferrujados, debaixo dos estuques quebrados, elas quedam sem risos, lágrimas, festas, dramas, vozes ou movimentos. Guardam segredos, viram mistério e apenas restam de pouso aos discretos fantasmas. 

Agora, silenciosas, escuras, descascadas só suscitam dó de olhares sensíveis como os da minha amiga Gracinha que me confessou: “Tenho pena de casas assim e do fim que têm.  Aqui no centro da cidade tem umas. Algumas abandonadas, outras demolidas. Uma delas, perto do prédio onde tenho a minha sala, virou arquivo. Fico olhando, olhando. Nesses tempos de pandemia não sei como está”.

Nem sempre tudo é somente ausências e fim. Às vezes, numa casa decrépita, aparentemente sem vida, uma roseira permanece a ornar a velha escada de pedra e a perfumar os ares. Flores florescem sobre túmulos em homenagem ou simplesmente para atestar que a vida continua e bela.  E Gracinha continuou a me contar: “Mas, uma vez eu pedi a um segurança um galhinho de uma roseira antiga que tem lá. Cuidei, cuidei, ela pegou, dá umas rosas lindas, antigas, perfumadas. Por esses dias ela, que sempre dá uma rosa só, deu um buquê com seis! Hoje Zé levou pra Beatriz junto com o almoço que preparei pra eles e ela ficou encantada com a beleza e o perfume. Fiquei muito feliz!”



E eu também fiquei feliz e vou passando essa felicidade através “dessas mal traçadas linhas”. As mãos que plantaram a roseira na casa antiga provavelmente já não existem, mas ainda promovem alegria numa triste manhã de pandemia. Vão no mimo que a mãe confinada envia à filha, firma-se no encantamento de quem recebe a beleza perfumada, prossegue na felicidade que espalha. Sem o saber, essas mãos desconhecidas, e agora invisíveis, cumpriram o dizer de Cecília Meireles: “É bom deixar/ um pouco de ternura e encanto indiferente/ de herança, em cada lugar.”  Assim dá-se a permanência para além das vistas, para além das existências.

No escondido e encadeados das coisas faz-se o milagre. Num dia que não se sabe, alguém plantou uma roseira para mais embelezar casa já bela.  O tempo passou, o alguém se foi, a casa abandonada, envelheceu sem cuidados até parecer morta na mudez da decadência. Mas, ali estava a roseira como coração da casa ainda a pulsar.  E minha amiga Gracinha a viu e levou um galhinho para seu jardim. E o galinho virou roseira. E a roseira deu rosas rosadas, mimosas e perfumadas com soluços, suspiros, sorrisos, sussurros, rumores, impregnadas com todo âmago da casa de outrora. E as rosas fizeram a gente feliz e a casa continuar viva.