Após seis anos de publicação ininterrupta, chega ao fim a coluna Janelas Abertas, na revista Vilas Magazine. Eis a última crônica publicada na edição de outubro de 2015
DE LAGOSTAS E DE
GATINHA
Os
mais jovens não hão de entender, já os de mais idade por certo sentirão certa
nostalgia ao saber que por aqui a gente compra hortaliças, mariscos, pescados,
doces caseiros e outras coisas, na porta de casa, sem pagar mais por isso. Diariamente,
perto do meio-dia, ecoa na rua o “Olhe o freguês” com que Sibinho se anuncia ainda
de longe, empurrando um carrinho de mão com bananas, aipim, batata doce, um
pouquinho de cada coisa a cada dia.
Aos
sábados é a vez de Chiquinha e Manu, as meninas dos mariscos, que vêm de
Baiacu, trazendo ostra, sururu, chumbinho, maria-preta, camarão, siri, aratu, às
vezes sambá e peguari, e também alguns peixes, maçambé, petitinga, arraia,
vermelho e até cavala, No último sábado, elas ainda estavam na porta quando
passaram dois pescadores oferecendo lagostas e siri-boia. Fizeram um preço tão
bom que não houve como resistir, ao menos às lagostas, que há muito tempo se
achava fora da nossa dieta, não porque engorde, aumente colesterol, ou por qualquer
outra contraindicação, tão só devido ao preço proibitivo.
Mas,
pelo visto, na Ilha ainda é possível comer lagostas. Antigamente, era a coisa
mais fácil do mundo, o amigo Antonio Marques, itaparicano da gema, diz que na
sua meninice lagosta era comida de pobre. Sou testemunha disso, certa feita,
veraneando em Berlinque, levei 20 dias praticamente à base de lagostas. Naquela
época, inicio de 1973, ainda não havia luz elétrica em grande parte da Ilha e
os pescadores, não tendo como conservar os pescados, vendiam a preço que
dispensava qualquer pechincha e nos tornavam felizes comedores de lagosta. A
propósito, a minha descoberta da Ilha foi celebrada com orgia gastronômica. Aliás, tudo por tudo, foi admirável. Aquele fim de semana em 1971 ainda não
passou.
A
ideia de levar a turminnha da Faculdade de Jornalismo foi de Aninha Umbigo de
Ouro, cuja família tinha uma fazenda de dendê em Berlinque. Berlinque era um
pequeno povoado de apenas 21 casas de pescadores. À nossa chegada, os tios de
Aninha saíram de jangada para buscar nosso almoço. Parte da turma se aboletou
no boteco para só sair na hora da volta pra casa e a outra, da qual fiz parte,
empreendeu a exploração do território. Tomamos banhos de mar, de rio, de fontes
friíssimas com águas ferruginosas. Encontramos umas cinco fontes destas,
encravadas entre raízes de árvores frondosas, tendo na beira graminhas nativas
ou prainhas de areia clara. Catamos araçás mirins e ingás de montão, o quê,
juntamente com a farofada de galinha assada levada por Juracy, a previdente mãe
de Aninha, disfarçou a fome, até a hora do almoço tornado jantar.
Fim de tarde, belo crepúsculo incendiando o dendezal.
Com os corpos ardendo do sol do dia todo, entramos cansados e esfomeados na
casinha de chão batido, coberta de palha. Fifó aceso, num canto da parede da
sala do fundo junto à cozinha. Radio de pilha tocando músicas nordestinas e, no
ar, o intenso cheiro do azeite de dendê. Dois longos bancos de madeira ladeavam
a mesa, onde fumegavam frigideiras de barro com moquecas de peixe, de polvo e,
para pasmo e alegria geral dos pobres citadinos, lagosta. O ambiente podia ser
muito rústico, mas sobre a mesa agreste, estava o requintado banquete. Comemos a mais não poder naquela choupana mágica
para nunca mais esquecer. Depois fomos jiboiar sobre esteira de taboa estendida
no terreiro em frente à casinha sob o céu de estonteante estrelejar.
E não foi só, mas fica pra outra oportunidade porque
o espaço está terminando e ainda não falei da gatinha. Uma bichana preta,
amarela e branca, entrona, carente e cara-de-pau, que há dias invadiu a casa e
não vai embora de jeito algum, nem com os chiiis de espanto de Lucia e de
Noêmia. No máximo corre até o jardim, mas volta, se posta na minha frente, mia,
marcha pedindo carinho, enrosca-se nos meus pés o tempo inteiro, isto quando
não se refestela na cama. E, como é sistematicamente expulsa da cama, deu para se
meter entre travesseiros, se escondendo debaixo da colcha. Uma aprontadora de
marca maior. A sua mais recente aprontação foi com as lagostas.
Pois bem, no último sábado, terminei comprando as
lagostas já que eram graúdas e o preço baixo. Uma iguaria requer uma ocasião
especial. Logo pensei num almoço para os meninos, porém era esperar demais para
saboreá-las já que eles demoram muito em aparecer. Mas havia outro motivo
especial com menos delongas: comemorar o êxito da cirurgia de um amigo. Assim
ficou decidido. A diligente Noêmia pôs mãos à obra. Aferventou os crustáceos
para em seguida catá-los retirando as carnes das carapaças. Estava neste
serviço quando minha mãe pediu alguma coisa e ela foi atender. Logo retornou à
cozinha, para de novo sair de lá com uma baciinha nas mãos e, me mostrando
exclamar desolada, “veja o que a gatinha fez”! “O que foi? Só estou vendo a vasilha vazia” ─
eu falei sem atinar para nada.
Então ela disse: “A gatinha comeu a lagosta”. Nem sei a cara que fiz. Essa não! e o dinheiro gasto? E a homenagem ao amigo? Tudo por goela abaixo da gatinha abusada. Desde quando gatos comem lagostas? Onde aquela pé-rapada tinha achado lagostas. para saber que eram comestíveis? Na varanda, alheia a qualquer indagação ou perplexidade, a safada se lambia satisfeita da vida.
Então ela disse: “A gatinha comeu a lagosta”. Nem sei a cara que fiz. Essa não! e o dinheiro gasto? E a homenagem ao amigo? Tudo por goela abaixo da gatinha abusada. Desde quando gatos comem lagostas? Onde aquela pé-rapada tinha achado lagostas. para saber que eram comestíveis? Na varanda, alheia a qualquer indagação ou perplexidade, a safada se lambia satisfeita da vida.
Lembrei de minha cadela Crioula, na minha chegada à velha chácara, lambendo a boca após comer 200 gramas de patê fígado sem a menor cerimônia. Os olhos de quem ainda esperasse aprovação. Era o patê com que iríamos saborear um vinho.
ResponderExcluirLembrei de minha infância, a tarefa de anunciar pra minha avô os mercadores que passavam à porta: fígado, verdureiro, ovos, amolador de facas... A recompensa, no final, a escolher. Cocada, algodão doce, sorvete de cabeça (lambido entre duas "hóstias" de papel comestível), uma infinidade de guloseimas.
Você tem a virtude de me levar ao passado.
Sucesso com o blog.
Ah Fernando, você lembrou uma coisa que eu lembro, mais nunca vi ninguém lembrar: o tal sorvete lambido entre duas hóstia. Não sabia o nome "sorvete de cabeça" mas nunca esqueci nem sei por que. Muito obrigada pelo comentário, pelo seguimento, pelo apoio, pela amizade. Fico feliz em saber que meu texto lhe leva às recordações. Beijo
ExcluirCorrigindo o meu comentáriorio: mas nunca...
Excluirque erro mais primário rsrsrs. Pior que só vi agora
Gilka, que maravilha...a lembrança de Berlinque. Eu estava lá, nessa ida de 1971...e lembro, acima de tudo, dos banhos nas fontes de águas cristalinas e nós celebrando a alegria de viver.
ResponderExcluirÉ Gino você está no grupo dos que fizeram o reconhecimento do território. Se não me engano foi você que subiu até certa altura no coqueiro que ficava bem inclinado na beira do rio que separa Berlinque de Aratuba. é fizemos boas celebrações da alegria de viver.
ExcluirMuito bom Gilka lembrei dos velhos tempos de frequentadora da ilha.
ResponderExcluirQue gata mais danada! 😂😂😂
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