terça-feira, 3 de novembro de 2015

ALUMBRAMENTOS



ALUMBRAMENTOS


Os dias estão lindos, lindos como soem ser os dias de certas raras primaveras. A vida pulula.  A pujança se manifesta nos movimentos das marés chegando aos máximos extremos, mais até que as marés de março, tanto nas baixas quanto nas preamares, com a lua cheia em máxima aproximação da Terra. Nas coroas de areias, extensas como nunca, os rala-cocos, as marias-prestas, sambás, peguaris, navalhas, mapés, tapus, carangodés, chumbinhos, toda imensa variedade de mariscos desta baía fazem a festa dos marisqueiros. As mangueiras, os cajueiros, as acerolas e pitangueiras cobertas de flores, algumas já com frutos, prometem safras fartas. Há a alegria no ar. É tempo de ser feliz só por existir. Tempo de bom tempo. Tempo de milagres. Tempo propício para o nascer de um novo amor. Tempo de celebração da vida.
Então há uma sincera vontade de se ser um ser pacificado e pacificador e sair por aí a apaziguar os corações conturbados, a desarmar os tomados de iras e equívocos, a neutralizar todas as querelas, a semear concórdia. Ser amorável e amoroso, e amar infinitamente tudo e todos indistintamente, como Cristo, e perdoar os que de alguma forma deixaram de corresponder à amizade, aqueles que por falta de coragem e relutância em admitir os próprios sentimentos fizeram sofrer, a todos que não sabem o que faz e por isso fazem mal. Ser terno, gentil e agradecido à gatinha que nos adotou e agora dorme enrodilhada aos nossos pés; ao galo que anunciando o alvorecer de um novo dia, lembra que mais uma oportunidade está sendo dada, ao solitário mico, aos sabiás, às rolinhas fogo-pagô  e caldo-de-feijão, aos bem-te-vis, aos cardeais, aos sanhaços, aos casacas-de-couro, aos canários da terra, a todos irmãozinhos alados que vêm comer banana e alpiste, fazendo a festa diariamente. Ser como a luz que não se ofende com coisa alguma, que se conserva pura não se contaminando jamais e ainda irradia iluminando.  Ser sábio o suficiente para deixar o coração sempre leve e puro, livre de ressentimentos e mágoas.
E no meio da tarde do lindo dia, há um solo de berimbau muito bem tocado, logo acompanhado por pandeiros, palmas e vozes. Os meninos que tocam na porta do colégio próximo, nem de longe desconfiam a remissão que sua roda de capoeira provoca. Inicialmente remete ao pátio da Escola de Comunicação, à Taba dos Orixás, ao final de uma manhã de sábado no Mercado Modelo, às Festas de Largo, em toda parte, em que na década de 70, se reuniam os estudantes de Jornalismo, os farristas de quase todas as unidades da UFBa e outros agregados, inclusive nas ruas das cidades por onde passava a embaixada ao Festival de Inverno de Ouro Preto. Histórica e aventureira viagem que dentro do inusitado Fumacê, o ônibus, tipo marinete, cujo escapamento furado jogava o monóxido de carbono pra dentro e, que com gerador defeituoso levou quatro dias que chegar ao destino, sendo obrigado a fazer paradas constantes, as quais se aproveitava para apresentação da capoeira, samba de roda e  o impressionante maculelê  de facão comandado pelos irmãos Márcio e Aristides Mercês. Remete também a reencontro recente de velhos jovens amigos de 1970. Os meninos continuam a tocar sem nada disso saber, criando, provavelmente, suas próprias reminiscências futuras.
E há uns olhos cor das águas. A cor das águas do mar. A cor das águas do mar num dia de sol. Num dia de sol de rara primavera. Na transparência calma destas águas passam cardumes, passam canoas, passam veleiros, passam nuvens, embora os mistérios da alma, retidas nas regiões abissais, não se revelem. Nos olhos oceânicos é possível navegar. É possível navegar por mares nunca dantes navegados, ou dentro da baía e lagamares, por entre ilhas, de preferência desertas, surpreendendo quietas enseadas e esquecidas capelas entre matos à beira d’água, ou um mosteiro inteiro, ou ruinas de um outrora opulento engenho ladeado por imponentes palmeiras imperiais.
Nos olhos d’água cessam as tempestades. Os bons ventos vêm de volta repondo aleluias onde havia nostalgia, espalhando brejeirice onde havia sisudez e doçura na aridez da amargura. Há promissão de sossego, descanso, serenidade e segurança, ainda que em meio à instabilidade inerente à condição das águas que não param de passar; mas se peraus existirem que fiquem bem escamoteados sem perigo oferecer, ao menos iminentemente. Quem tem o coração posto nas águas de Kirimurê-Paraguaçu, não refuga uma boa quimera. Quem tem a alma posta nos saveiros que deslizam na Baía com insufladas velas de içar, não perde a oportunidade de navegar ainda que seja em águas de miragem. Quem tem o pensamento nos ventos indo à deriva daqui dali e acolá, vive a fuçar motivos de alumbramentos nas coisas mais simples que há: numa pequenina flor silvestre, no perfume do jasmim, no cheiro das algas, na vela solitária que passa no horizonte incendiado ao crepúsculo, no popopó do barco invisível dentro da noite, no som do berimbau, até nas metafóricas águas dos olhos cor das águas.

4 comentários:

  1. Impressionante essa ponte que essa menina constrói para nos devolver ao limiar da adolescência! Saudades.

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  2. gostei...um tributo aos anônimos da natureza que tecem todos os dias as paisagens de cada dia...A essas paisagens na maioria dos dias do ano estamos cegos...a esses artífices, muitas vezes os vemos como coisas, meios, caso dos peixes, dos mariscos que não estão ali à toa...Há uma imensa cadeia alimentar ou melhor, cadeia a alimentar...adorei, gilka...merci.

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