sábado, 10 de setembro de 2016



ELEGIA DE SETEMBRO



            Durante longo tempo — longo para nós, pois diante da eternidade, qualquer fração do tempo é sempre irrisória — a chácara foi um verdadeiro Jardim do Éden para toda a família. Ali se gozava o sossego, o ar puro, o canto dos passarinhos, o farfalhar dos galhos, o coro de grilos de todas as noites e das cigarras no fim do verão. Ali, os sentidos se aguçavam e as miudezas da vida cresciam em significado: o cheiro vegetal e o da terra seca aos primeiros pingos da chuva, o colorido voejar das borboletas, a ligeireza dos colibris e libélulas, as surpreendentes visitas de bichinhos silvestres, os raios do sol inaugurando o dia entre as névoas friazinhas, a luz da lua se refletindo na folhagem e nos caminhozinhos de areia branca ou o verde pirilampejar nas noites escuras. Tudo isto assentava na alma.
            Intensa era a alegria ao reunirem-se parentes e amigos nos finais de semana, mostrando-lhes, com orgulho, a novidade da orquídea que florira há pouco ou a próxima safra das mangueiras a amadurecer nos pés, ou ainda do tapete de flores vermelhas embaixo dos jambeiros. Grande a satisfação em se ir plantando a diversidade do pomar e do jardim ou a renovação da horta. Maravilha colher cajus, pitangas, mangabas, carambolas, cajaranas, cajás, sapotis, jenipapos, abacates, goiabas, araçás, ingás, as cheirosas tangerinas e o andu antes que endurecesse.  Bom observar a destreza de se tirar os bagos de jaca de entre o visgo e, o melhor, comê-los depois sentados no chão da varanda. Perfeita a folia de se quebrar as castanhas assadas ou os coquinhos de licuri e piaçava, mesmo ficando com as pontas dos dedos esfolados.
Bom apreciar os sanhaços azuis banhando-se no resto de chuva ficado na bica, ou vê-los, aos bandos, bicando os frutinhos da aroeira. Bom também, ver o vermelho sangue-de-boi emergir de dentro do amarelo mamão, furado antes de ser colhido. Gratificante acompanhar o crescimento das mudas plantadas e também quebrar milho para os pintinhos e vê-los vindo correndo com as galinhas e galos ao chamado tititititi. Especial a sensação de sentar debaixo da fruta-pão e, recostada no seu tronco, contar história aos pequenos, ou refugiar-se sob os compridos galhos, quase chegando ao chão, do tamarindeiro e ficar olhando, através do rendilhado das folhas, as alvas nuvens navegando no azul do céu. Felicidade em simplesmente estar entre árvores, sentindo-se em estado de oração.
Em estado de oração, sim, já que qualquer aglomerado de plantas — sejam florestas, matas, bosques, pomares ou meros quintais e jardim — constitui um santuário da vida, um reservatório de energia, um recanto encantado, protegido por elfos, duendes, gnomos, dríades, fadas, caiporas (para temor e alegria da criançada), um local aonde se chega mais perto de Deus. Mais do que dar sombra e beleza, uma árvore proporciona um grande bem-estar, talvez pelo fato de transmitir vigor, serenidade e frescor... As árvores são as grandes alquimistas da nossa terra... fazem a ligação Céu e Terra”, como salienta Sandra Siciliano no artigo A magia das árvores. Então, dando-se a plena simbiose dos humanos, com os distintos seres, com toda a natureza circundante, a chácara era um sacrário.
Entretanto o tempo foi fazendo o que sempre faz: passando e provocando mudanças. Os meninos cresceram, os pais envelheceram, a cidade cresceu, e a ganância mais ainda. E de um dia para outro, em menos de uma semana, todas as árvores, todas mesmo, sem dó nem piedade, foram abatidas e com elas todo um mundo sutil. Há anos, ninguém morava na chácara, mas as árvores ainda mantinham as antigas vibrações dos sonhos, das alegrias, das emoções, dos sustos e encantamentos, de tudo que ali fora vivenciado. Mas agora, nada mais restava, aumentando o buraco da pobreza existencial ou da desesperança.
É setembro, mês em que se inicia a primavera e que tem um dia dedicado às árvores, embora quase não haja o quê comemorar, onde acontece o holocausto de árvores vítimas da deplorável da insensibilidade dos que só valorizam o dinheiro e vão promovendo, ou permitindo, a esterilização da Terra. A propósito do fascínio do dinheiro convém lembrar o instrutivo mito do ganancioso Midas. Ele era um rei já rico, mas queria mais, muito mais. Certa feita Baco (ou Dionísio) lhe ofereceu a realização de um desejo, como recompensa por ter cuidado do mestre Sileno. Midas pediu o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse.
Baco atendeu, embora visse não ser um pedido sábio. Regressando ao seu reino, Midas foi testando o novo poder: tocou uma pedra que imediatamente virou enorme pepita de ouro. Pegou num galho de árvore e ele se converteu numa barra de ouro. Tudo o que ele tocava virava ouro. Seus cavaleiros ficaram exaustos de tanto carregar ouro. Feliz, ao chegar ao palácio, mandou servir um lauto jantar. Mas assim que tocou, o pão virou ouro, bem como os demais alimentos que seus lábios tocavam, inclusive a água que tentou beber. Então percebeu a sua loucura. Não podia se alimentar, nem dormir num leito macio nem tomar banho numa banheira. Desesperado Midas foi procurar Baco, pedindo-o para que lhe tirasse aquele poder. O Deus do Vinho mandou-o lavar-se nas águas do rio Pactoros e, com efeito, se livrou do nefasto dom e da ambição desmedida. Eis aí um alerta aos novos Midas. Assim que devastação se conclua, sobrará o dinheiro acumulado para comer e beber.
E em homenagem às árvores imoladas, espero que os antigos Druídas estejam certos ao afirmarem que quando uma árvore é cortada, se ouve, a longas distâncias, os gritos de dor e agonia de uma Dríade (espíritos femininos, guardiãs da natureza, que habitam as árvores e se tornam parte delas) ao “morrer”. Que estes gritos possam ecoar eternamente nos ouvidos dos matadores de árvores.





2 comentários:

  1. Comecei a ler o seu texto e me tomei de saudade da nossa chácara, fazendo-se surgir um imenso verde - frutíferas e ornamentais variadas - onde era apenas o capim crescido em uma velha plantação de soja. Ao final, me conduzi a Aquarius, o significativo filme que assisti esta semana e traz mensagem semelhante à sua. Obrigado.

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  2. Obrigada a você pela leitura e comentário. Fico feliz por lhe levar à reminiscências. Você como poeta que é, bem sabe como é gratificante quando o leitor se identifica com o que escrevemos. Um grande abraço

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