ELEGIA DE SETEMBRO
Durante longo tempo — longo para
nós, pois diante da eternidade, qualquer fração do tempo é sempre irrisória — a
chácara foi um verdadeiro Jardim do Éden para toda a família. Ali se gozava o sossego,
o ar puro, o canto dos passarinhos, o farfalhar dos galhos, o coro de grilos de
todas as noites e das cigarras no fim do verão. Ali, os sentidos se aguçavam e
as miudezas da vida cresciam em significado: o cheiro vegetal e o da terra seca
aos primeiros pingos da chuva, o colorido voejar das borboletas, a ligeireza
dos colibris e libélulas, as surpreendentes visitas de bichinhos silvestres, os
raios do sol inaugurando o dia entre as névoas friazinhas, a luz da lua se
refletindo na folhagem e nos caminhozinhos de areia branca ou o verde
pirilampejar nas noites escuras. Tudo isto assentava na alma.
Intensa era a alegria ao reunirem-se
parentes e amigos nos finais de semana, mostrando-lhes, com orgulho, a novidade
da orquídea que florira há pouco ou a próxima safra das mangueiras a amadurecer
nos pés, ou ainda do tapete de flores vermelhas embaixo dos jambeiros. Grande a
satisfação em se ir plantando a diversidade do pomar e do jardim ou a renovação
da horta. Maravilha colher cajus, pitangas, mangabas, carambolas, cajaranas,
cajás, sapotis, jenipapos, abacates, goiabas, araçás, ingás, as cheirosas
tangerinas e o andu antes que endurecesse.
Bom observar a destreza de se tirar os bagos de jaca de entre o visgo e,
o melhor, comê-los depois sentados no chão da varanda. Perfeita a folia de se quebrar
as castanhas assadas ou os coquinhos de licuri e piaçava, mesmo ficando com as
pontas dos dedos esfolados.
Bom
apreciar os sanhaços azuis banhando-se no resto de chuva ficado na bica, ou
vê-los, aos bandos, bicando os frutinhos da aroeira. Bom também, ver o vermelho
sangue-de-boi emergir de dentro do amarelo mamão, furado antes de ser colhido.
Gratificante acompanhar o crescimento das mudas plantadas e também quebrar
milho para os pintinhos e vê-los vindo correndo com as galinhas e galos ao
chamado tititititi. Especial a sensação de sentar debaixo da fruta-pão e,
recostada no seu tronco, contar história aos pequenos, ou refugiar-se sob os
compridos galhos, quase chegando ao chão, do tamarindeiro e ficar olhando,
através do rendilhado das folhas, as alvas nuvens navegando no azul do céu. Felicidade
em simplesmente estar entre árvores, sentindo-se em estado de oração.
Em
estado de oração, sim, já que qualquer aglomerado de plantas — sejam florestas,
matas, bosques, pomares ou meros quintais e jardim — constitui um santuário da
vida, um reservatório de energia, um recanto encantado, protegido por elfos,
duendes, gnomos, dríades, fadas, caiporas (para temor e alegria da criançada), um
local aonde se chega mais perto de Deus. “Mais do que dar
sombra e beleza, uma árvore proporciona um grande bem-estar, talvez pelo fato
de transmitir vigor, serenidade e frescor... As
árvores são as grandes alquimistas da
nossa terra... fazem a ligação Céu e Terra”, como salienta Sandra
Siciliano no artigo A
magia das árvores. Então, dando-se a plena simbiose dos humanos, com os
distintos seres, com toda a natureza circundante, a chácara
era um sacrário.
Entretanto
o tempo foi fazendo o que sempre faz: passando e provocando mudanças. Os
meninos cresceram, os pais envelheceram, a cidade cresceu, e a ganância mais
ainda. E de um dia para outro, em menos de uma semana, todas as árvores, todas
mesmo, sem dó nem piedade, foram abatidas e com elas todo um mundo sutil. Há
anos, ninguém morava na chácara, mas as árvores ainda mantinham as antigas
vibrações dos sonhos, das alegrias, das emoções, dos sustos e encantamentos, de
tudo que ali fora vivenciado. Mas agora, nada mais restava, aumentando o buraco
da pobreza existencial ou da desesperança.
É
setembro, mês em que se inicia a primavera e que tem um dia dedicado às árvores,
embora quase não haja o quê comemorar, onde acontece o holocausto de árvores vítimas
da deplorável da insensibilidade dos que só valorizam o dinheiro e vão
promovendo, ou permitindo, a esterilização da Terra. A propósito do fascínio do
dinheiro convém lembrar o instrutivo mito
do ganancioso Midas. Ele era um rei já rico, mas queria mais, muito mais. Certa
feita Baco (ou Dionísio) lhe ofereceu a realização de um desejo, como
recompensa por ter cuidado do mestre Sileno. Midas pediu o poder de transformar
em ouro tudo o que tocasse.
Baco atendeu,
embora visse não ser um pedido sábio. Regressando ao seu reino, Midas foi
testando o novo poder: tocou uma pedra que imediatamente virou enorme pepita de
ouro. Pegou num galho de árvore e ele se converteu numa barra de ouro. Tudo o
que ele tocava virava ouro. Seus cavaleiros ficaram exaustos de tanto carregar
ouro. Feliz, ao chegar ao palácio, mandou servir um lauto jantar. Mas assim que
tocou, o pão virou ouro, bem como os demais alimentos que seus lábios tocavam,
inclusive a água que tentou beber. Então percebeu a sua loucura. Não podia se
alimentar, nem dormir num leito macio nem tomar banho numa banheira. Desesperado Midas foi procurar Baco, pedindo-o para que lhe tirasse
aquele poder. O Deus do Vinho mandou-o lavar-se nas águas do rio Pactoros e,
com efeito, se livrou do nefasto dom e da ambição desmedida. Eis aí um alerta aos
novos Midas. Assim que devastação se conclua, sobrará o dinheiro acumulado para
comer e beber.
E em homenagem
às árvores imoladas, espero que os antigos
Druídas estejam certos ao afirmarem que quando uma árvore é cortada, se ouve, a
longas distâncias, os gritos de dor e agonia de uma Dríade (espíritos femininos,
guardiãs da natureza, que habitam as árvores e se tornam parte delas) ao
“morrer”. Que estes gritos possam ecoar eternamente nos ouvidos dos matadores
de árvores.


Comecei a ler o seu texto e me tomei de saudade da nossa chácara, fazendo-se surgir um imenso verde - frutíferas e ornamentais variadas - onde era apenas o capim crescido em uma velha plantação de soja. Ao final, me conduzi a Aquarius, o significativo filme que assisti esta semana e traz mensagem semelhante à sua. Obrigado.
ResponderExcluirObrigada a você pela leitura e comentário. Fico feliz por lhe levar à reminiscências. Você como poeta que é, bem sabe como é gratificante quando o leitor se identifica com o que escrevemos. Um grande abraço
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