Sim, é possível
Eis
que, por obra da magia da vida, me vi no reino das histórias de fadas. Por
efeito de magia, sim, resultante da surpreendente generosidade de Trees e Pieter, casal de
amigos, não tão íntimos (ela nunca vista pessoalmente), e de uma historinha de
muitos anos atrás, também coisa do “era uma vez”, já contada numa crônica
anterior. Não poderia prever tal viagem, mas lá estava eu. Ia por estradas
margeadas de flores e flores, enveredando por túneis de árvores, atravessando
bosques, alguns, quase florestas do lobo mau.
Ia
aos castelos de grossas muralhas de pedras encimadas por ameias, altas torres quadradas
e pontiagudas, escondidos nas matas, com antiquíssimas pontes levadiças, sobre os
defensivos fossos circundantes, também largos lagos para os cisnes. E lá estando,
ia da cocheira, à igreja com santa pendurada parecendo enforcada. Subia à torre
de Rapunzel pela escada caracol feita de blocos de pedras encaixadas e descia aos
calabouços. Adentrava ao misterioso laboratório de alquimia. Percorria salões, entre
relíquias mis, mas não encontrava ninguém, embora estivessem ali: o príncipe
encantado na estatuazinha do sapo coroado, os cavaleiros andantes dentro das
armaduras de aço pesando 30 a 50 quilos com elmos, couraça, grebas, manoplas,
espaldar, escarpe, ou na túnica de cota de malha. E as rainhas, reis,
princesas, magos, servos transformados em bonecos de cera ou rondando como
fantasmas.
Do
ressoar dos meus passos sobre ladrilhos enxadrezados ou de pedras lavradas emergiam
gritos de batalhas, gemidos de enfermos, suspiros de amor, bramidos de paixões,
tilintar de guizos dos bufões, vozes de acalanto, fala do espelho mágico, risada
da bruxa após uma maldade qualquer, cicio de passos furtivos, praguejar de
injuriados, súplicas de condenados, trovejar de vociferações, murmúrios de colóquios,
sussurros de intrigas, sibilar das traições, versos e cantigas de menestréis a
contar histórias e histórias reais e inventadas. Enfim, o reverberar das eras e
sucessivas vidas.
O
peso dessas reverberações impelia à atmosfera amena dos jardins. Então
enveredava por labirínticas sendas entre arbustos podados, sentindo-me sob
espreita. Seguia entre profusão de flores de todos os formatos e todas as cores,
cercando esculturas, beirando regatos limosos. Via o quiosque cônico coberto
por colmo e, atrás de moita de
hortênsias, um gnomo parecia aplaudir o idílio do jovem casal de trajes
bufantes. E ouvia a brisa passar, sentada num grande banco de pedra debaixo de folhagens
pendentes e ladeado por leões. E seguia curiosa por comprida aleia, para lá no
fim encontrar um grande símbolo fálico. E mais flores, e mais árvores e mais
encantamento.
Deixando
as terras do castelo, entrava e saía em aldeias e cidades cheias de chalés
floridos tal qual a casa de chocolate de João e Maria. Todas semelhantes, mas
nenhuma igual à outra. Navegava pelos
canais, ora margeados por matas em barco medieval, ora por imponentes prédios
históricos e casas barcos. Passava por campos com vaquinhas malhadas e muitas ovelhas,
entre plantações de batatas em branca florescência, milho, juncos ou colmos,
tulipas, e outras flores. No caminho havia Moinhos de vento e água a desafiar
Dom Quixote. Dentro de um deles, o moleiro e sua família calçando tamancos de
madeira, os eixos e engrenagens, a providencial lareira também usada como fogão
e secador de roupa, os utensílios peculiares, as pequenas camas, onde dormiam sentados,
recostados em travesseiros, para não serem perturbados pelos maus
espíritos.
E
tinha festa do queijo em Horn, concerto em palco flutuante debaixo de sol forte
em Klein Belties, crepúsculo às 22 horas na praia de Castricum; Tico-tico no Fubá
e Aquarela do Brasil, tocadas por músico búlgaro na porta de um supermercado; mercadinho
pegue-e-pague (sem vendedor nem vigias) em Blokzijl; festas de aniversários, com
muitas tortas e doces deliciosos, ao ar livre apesar do frio forte, porque era
verão (e no verão vive-se fora de casa não importa a temperatura), uma dessas festas
numa fazenda de nome convidativo “Schuif Eens Aan” (“Venha se juntar a nós por um
tempo”). E ainda tinha os museus, as feiras e tantas outras coisas...
Sobretudo
a descoberta de que para além do Reino da Fantasia, o mundo real também tinha
se encantado. Havia um arranjo social, em que se dava prioridade à educação, ao
bem estar das pessoas, à alegria de viver com saúde, segurança, harmonia e
beleza. Havia a compreensão de que é impossível ser feliz sozinho e tratavam de
evitar a miséria alheia. O governo oferecia moradias sociais de qualidade em
meio a parques arborizados e pagavam 70% do valor do salário mínimo aos desempregados
pelo tempo que fosse necessário, além da educação inteiramente gratuita e o
hospital público, sem filas, com salas de espera entre jardins internos,
instalações amplas e claras, mais eficiente e bonito do que os particulares de
outros lugares.
Entendiam
que a beleza e a interação com a natureza constituíam elementos favorecedores
da sanidade pessoal e do bem estar social. Então se enchiam de flores até em
telhados, circundavam-se de bosques e praças.
Mantinham a bela arquitetura tradicional, livre de espigões, de viadutos
e de shopping center. Aprendiam a ser solidários, a serem simples, a não
ostentarem, a respeitar os semelhantes, o meio ambiente e a si próprio,
ajudando-se mutuamente, reciclando o lixo, usando energia eólica e solar e
muita, muita bicicleta. Num enorme camping cheio, ninguém incomodava ninguém e
as instalações, inclusive as sanitárias, eram impecavelmente organizadas e
asseadas. Daí via presídios sendo destruídos, e as pessoas vivendo
despreocupadamente satisfeitas, inclusive os idosos, com vida ativa, indo e vindo
a toda parte, a pé, de bicicleta, carrinhos motorizados, metrô, bondes, trem,
barcos, andadores rolantes e mesmo
cadeiras de roda elétrica.
Portando,
sobretudo havia a grata e animadora constatação de que outro mundo é possível,
sendo a Holanda um exemplo disso. Pequeno consolo para as aflições deste tempo
de trevas em que o Brasil se desmantela sob ação de inconsequentes gananciosos
traidores e de enlouquecidos demônios.








Belas fotos e textos, Gilka. Fiz uma viagem literária em suas palavras. Que os encantos dessas andanças fixados em suas retinas permaneçam sempre vivos, animando-a para novas aventuras mundo afora. Abraços!
ResponderExcluirObrigada, amigo. Com certeza guardarei estes encantos,foram incorporados a minha história de vida.
ExcluirMinha amiga, que maravilhoso país. Sua crônica me fez estar em cada momento que descreve com tanta maestria e conhecimento. Lindo, emocionante sua viagem e que nos faz estar juntos. O sapo, às pessoas, o modo de vida e como são tratadas. Inveja amiga, nosso país se acabando e nos parados sem poder fazer nada. Parabéns vc merecia e merece viagens como esta
ResponderExcluirMuito obrigada amiga, esqueceu de assinar, mas pelas palavras sei que é Betinha. Eu bem que gostaria de ter lhe levado junto.
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirCrônica maravilhosamente lúdica, encantadora como um verdadeiro conto de fadas num mundo real.
ResponderExcluirMuito obrigada Jair, é bem isso, um conto de fada num mundo real. Isso existe
ExcluirFantástico! Essa viagem foi uma experiência bastante inspiradora e pra uma brasileira tipo exportação, cheia de bagagem como você, ganhamos nós. Ponto alto da crônica "o mundo real tinha se encantado", detalhe polêmico "serviços hospitalares melhor que particulares de 'outros lugares '", tragicômico kkkkkk
ResponderExcluirDeleitei-me em sua bela crônica sobre a Holanda.Fiquei a questionar porque minha querida nora, uma holandeza maravilhosa, teve a coragem de trocar a sua pátria para morar em Portugal, onde, no momento, encontra-se em dificuldades de parto. Na verdade, a meta dela é obter a cidadania brasileira!!!, tão logo possa vir morar no Brasil. Ao questiona-la sobre a intenção, analisando diversos aspectos sócio-politicos e das dificuldades no mercado de trabalho (ela é assistente social),não vê barreira nisso e acenou com a experiência adquirida ao lidar com jovens viciados. Por isso, sente-se habilitada a contribuir bastante com o controle desse problema na Bahia. Ademais,acha o Brasil um país privilegiado de belezas naturais, belas paisagens, mares e rios e riquezas naturais. Quanto a questões sócio-políticas,que tanto nos envergonham, diz que cada povo tem sua dialética própria e dinâmica particular.Bastando que se busque um viés educativo onde cada um tome consciência do seu papel na história e nos avanços do país. Ademais, acha que somos bastantes privilegiados pela natureza.Pena que não nos damos conta disso. Na Holanda milenar, todos têm consciência disso e zelam dos seus u
ResponderExcluirVlegados naturais e arquitetônicos.
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