sábado, 18 de julho de 2020


Mas as flores nascem


Há pouco estávamos em março. As três amigas aproveitavam os últimos dias de verão na bem amada Itaparica. E eram banhos naquelas claras, mansas, mornas águas da Praia do Forte. E eram cervejinhas acompanhando os petiscos de Simone e Mario. Eram intermináveis conversas. Eram caminhadas e contemplações e jantar na calçada do cais com Betinha e Antônio  entre muitas risadas, alegria solta.
Veio abril, veio maio, junho, e agora julho. Veio o outono e passou, chegou o inverno e vai passando, vai passando sem que a gente confinada perceba essa passagem.  Desde março, quando a pandemia do coronavírus chegou por aqui, os dias parecem todos iguais nesta quarentema que já dura 120 dias. Parecem, apenas parecem, porque estamos em estado de suspenção e espera vivendo de maneira diferente.
No entanto tanta coisa tem acontecido! Ontem, por exemplo, foi um dia pródigo de novidades. À tarde descobri o menor beija-flor do mundo. Até então achava que o menor era um verdinho, de verde metalizado com rabo curto (Chlorostilbon lucidus, se não me engano), mas eis que estando na varanda após almoço, vimos a criaturinha marrom, minúscula, quase só bico, colibriando entre as flores do clerodendro vermelho, ou lágrima de cristo. E foi muito bom ficar olhando aquele serzinho, ir pra lá, ir pra cá, voar pra frente, voar pra trás, parar no ar, refestelando-se de néctar, dando encanto a uma tarde trivial.


Pouco depois do jantar, a novidade ficou por conta do apagão, revelando a noite verdadeira. Fazia frio, havia brisa a embalar as folhas adormecentes sob o acalanto do mar distante. No céu, sobre o silêncio, algumas estrelas espiavam por entre o esgarçamento das nuvens clareadas por um resto de lua minguante semicoberta. Mas, havia mais. Na escuridão, por toda parte acendiam-se pontos de luz como fagulhas. Eram os vagalumes pisca-piscando a nos deixar felizes. Logo havia violão, cálices com vinho do porto e cantoria até a energia elétrica voltar e apagar a noite com suas luzes artificiais.



E hoje, ao meio dia, mais outro acontecimento inusitado. De repente um grito e um susto de fazer pernas tremer por horas. A gata Tuca atacava uma grande cobra verde, obviamente com risco de ser picada. Grita daqui, chama de lá até a gata sair do alcance da serpente. Ufa! Mas a cobra continuava no quintal, bem perto da casa. Era grande, talvez um metro e meio, toda verde, belo verde lustroso. E não dava mostras de querer ir embora. Assustada quando nos viu, subiu numa árvore. Ficamos acompanhando o rápido deslocamento dela nos galhos. Às vezes perdíamos de vista. De novo a víamos esticar-se, ficar dependurada, dar pequenos saltos. De galho em galho, passando do pau pombo pra o cajueiro e deste para piaçavas se dirigia à matinha atrás da cerca. A essa altura, já sabíamos que era a ágil cobra cipó, que embora tendo veneno não envenena. Mas mordida de cobra sempre é mordida de cobra e faz algum estrago com a boca suja que elas têm.
Quando pensávamos que já tinha ido embora, eis que a vimos voltar. Nisto um mico anunciou perigo na área e logo o bando todo, uns 10 que vivem aqui, partiu contra a cobra. Mais que depressa ela desceu, foi pra o chão e novamente se aproximou da casa, se meteu por debaixo do degrau, se enfiou num buraco na areia e sumiu por instante, para aparecer adiante já na raiz da árvore. Ou seria outra? Dizem que cobras andam em pares. Percebendo a relutância dela de se afastar, suspeitamos que ali tinha algo que a prendia, talvez um ninho. Mais tarde, lendo as notícias do dia, achei a explicação para a insistente visita. 16 de julho é o Dia Mundial da Cobra e ela ou elas ou o casal  vieram comemorar conosco que já recebemos várias visitas destas e não as matamos.


Bem verdade que vivemos um período trágico entre a pandemia do vírus e as loucuras do endemoninhado presidente e seus asseclas. Mas, um amigo  realizou um velho acalentado sonho e ficou feliz;  o segundo se curou do covid 19 e festejou igualmente feliz; o terceiro avisou que estava vendo a  chuva e me lembrava que um dia de chuva é inspirador e tão belo quanto um dia de sol; uma amiga viu as belas velas das embarcações do Recôncavo e me mandou as imagens também para me inspirar; a outra aprendeu valiosas lições com a solidão. E os bulbos da angélica brotaram viçosamente, poucos dias depois de plantada, a dizer que a beleza da vida persiste para além das feiuras espalhadas por insensatos humanos. Sim, as angélicas nasceram e logo estarão perfumando os ares daqui e comovendo os olhos dos que as virem com o coração.



11 comentários:

  1. Que lindo Gilka! Qta coisa linda acontecendo enquanto vivemos esta estranha forma de vida, que de estranha ñ tem nada porque é a nossa vida mesmo que vamos vivendo e aprendendo sob o sol e o chapéu da noite cheio de buracos, como falou Neruda. Bjo

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  2. Inspirador. Traduzir o intangível em palavras é divino.

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  3. Sou sua seguidora histórica . Um dia, pretendo aprofundar com calma sua palavras. Vamos andando querida , sempre em movimento .

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  4. Adorei. Continue a nos presentear com seus textos.

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  5. Que lindo! Enquanto a vida acontece lá fora,sua sensibilidade nos brinda com esse registro comovente e delicado.Amei.

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    1. Oi Ana, que bom que você gostou desta tentativa de aliviar o peso deste tempo assombroso. Beijos

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  6. Bom.dia queridas e queridos anônimos rsrsrs, muito obrigada, fico muito feliz com seus comentários mesmo sem saber quem fez.

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  7. Evanice:Que honra ter uma amiga assim, sensivel e atenta a fatos e coisas que a outros seriam banais. É uma prova de que so se ver bem com a lente da alma. Quem tem é um agraciado. E deve compartilhar sempre. Deus se alegra.

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  8. Digitei um comentário mas não sei para onde ele foi
    Bom já que não sei vou comentar de novo
    Eu estava dizendo, que você é uma pessoa extremamente criativa
    E que suas crônicas transportam a gente de forma tal, que parece que a gente estava ali presente vendo todas aquelas cenas que você demonstra nas suas palavras
    Muito lindas as que eu já tive oportunidade de ler

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  9. Mais uma vez fico deslumbrado quando leio e releio as suas crônicas.
    Parece que cada vez que leio, outros cenários se formam na minha imaginação.
    Por isso cada vez que eu ler farei no comentário, dizendo sempre que adorei

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