A roseira da casa velha
A roseira da casa velha
Triste sina das belas casas de outrora, perdidas nas medrosas
acimentadas cidades verticais de agora. Tanto fausto, tanto esmero já não
formoseiam as ruas. Atrás dos gradis enferrujados, debaixo dos estuques
quebrados, elas quedam sem risos, lágrimas, festas, dramas, vozes ou movimentos.
Guardam segredos, viram mistério e apenas restam de pouso aos discretos
fantasmas.
Agora, silenciosas, escuras,
descascadas só suscitam dó de olhares sensíveis como os da minha amiga Gracinha
que me confessou: “Tenho pena de casas assim e do fim que têm. Aqui no
centro da cidade tem umas. Algumas abandonadas, outras demolidas. Uma delas,
perto do prédio onde tenho a minha sala, virou arquivo. Fico olhando, olhando.
Nesses tempos de pandemia não sei como está”.
Nem sempre tudo é somente ausências e
fim. Às vezes, numa casa decrépita, aparentemente sem vida, uma roseira
permanece a ornar a velha escada de pedra e a perfumar os ares. Flores
florescem sobre túmulos em homenagem ou simplesmente para atestar que a vida
continua e bela. E Gracinha continuou a
me contar: “Mas, uma vez eu pedi a um segurança um galhinho de uma roseira
antiga que tem lá. Cuidei, cuidei, ela pegou, dá umas rosas lindas, antigas,
perfumadas. Por esses dias ela, que sempre dá uma rosa só, deu um buquê
com seis! Hoje Zé levou pra Beatriz junto com o almoço que preparei pra eles e
ela ficou encantada com a beleza e o perfume. Fiquei muito feliz!”
E eu também fiquei feliz e vou passando essa felicidade através “dessas mal traçadas linhas”. As mãos que plantaram a roseira na casa antiga provavelmente já não existem, mas ainda promovem alegria numa triste manhã de pandemia. Vão no mimo que a mãe confinada envia à filha, firma-se no encantamento de quem recebe a beleza perfumada, prossegue na felicidade que espalha. Sem o saber, essas mãos desconhecidas, e agora invisíveis, cumpriram o dizer de Cecília Meireles: “É bom deixar/ um pouco de ternura e encanto indiferente/ de herança, em cada lugar.” Assim dá-se a permanência para além das vistas, para além das existências.
No escondido e encadeados das coisas faz-se o milagre. Num dia que não se sabe, alguém plantou uma roseira para mais embelezar casa já bela. O tempo passou, o alguém se foi, a casa abandonada, envelheceu sem cuidados até parecer morta na mudez da decadência. Mas, ali estava a roseira como coração da casa ainda a pulsar. E minha amiga Gracinha a viu e levou um galhinho para seu jardim. E o galinho virou roseira. E a roseira deu rosas rosadas, mimosas e perfumadas com soluços, suspiros, sorrisos, sussurros, rumores, impregnadas com todo âmago da casa de outrora. E as rosas fizeram a gente feliz e a casa continuar viva.


Maravilha, como você consegue imaginar a vida dentro de uma casa velha!
ResponderExcluirEu também conheço uma história de uma casa velha, aonde o piso da sala e dos quartos eram de madeira embaixo deles tinham socavão e quem morava lá eram os ratos, nós morávamos em cima do porão
Essa foi a casa que eu morei na Joaquim Nabuco quando eu tinha 5 anos com a minha mãe era na avenida sete bem ali nas Mercês
Já tinha lido esta crônica, mas cada vez que eu a releio consigo viajar nas vidas que viveram por muitos anos nestas casas
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