quinta-feira, 4 de março de 2021

 



Mundo Novo

                Os dias vão passando implacavelmente, cada vez mais rápido para quem já acumulou muita idade. O sol continua, com participação primorosa das nuvens e ventos, estreando um novo espetáculo de luz e cor a cada amanhecer e entardecer. E a gente há mais de um ano estagnada nos adiamentos e nas esperas. Adiando planos, consertos, consultas, viagens, encontros, abraços e beijos. Esperando a pandemia passar, a vacina chegar, o governo mudar, a humanidade se transformar.

                E neste compasso a gente busca compensações e nesta busca a gente se entrega ao devaneio. Abre-se a cortina e emerge um mundo resplandecente. Cenário mais que perfeito com muitas árvores, flores, pássaros, águas límpidas, céu azulíssimo. Tudo sem menor sinal de agressão ou poluição. E as cenas se desenrolam. E tudo surpreende e encanta e nos engrandece e nos torna felizes. Cumpre-se o dizer de que após a tempestade vem a bonança. Cumpre-se o axioma de que só se aprende com o sofrimento, coisa que há bem pouco se duvidava vendo-se a contínua reincidência.

                Pela primeira vez cenário e cenas se casam. No belíssimo e dadivoso Planeta azulzinho as encenações humanas já não destoam do pano de fundo. As ações estão em perfeita harmonia com ambiência. Plenamente conscientes da interdependência de tudo que há, convencidos que são servos e não senhores da natureza, os humanos mudaram. Sim, as lições dadas pela pandemia do covid 19, enfim surtiram efeitos. E já não existem pobres e ricos, nem explorados e exploradores, nem raças, nem estrangeiros, nem imigrantes, nem enjeitados, relegados, esquecidos, nem luxo nem miséria nem isso nem aquilo que discrimina, separa, conflitua, infelicita. Divisão, só de bens e de recursos, de partilha. Diferenças, só a diversidade que enriquecem culturalmente.

                As cidades não são mais ilhas de concretos, onde cada um se esconde do medo para viver o individualismo egocêntrico no ilusório conforto da caverna atapetada. Nem o cimento dos viadutos são cinzas lençóis dos sem nada. Os campos não são mais vastos latifúndios nublados de venenos do agronegócio nem espremidas e ressequidas roças familiares de gatos pingados deserdados da sorte. Não há mais grandes fortunas, nem acúmulos de capital, nem especulações, nem consumismo, nem superprodução com seus desperdícios, encarecimentos e exaurição dos recursos da Terra.




Não,  no novo mundo tudo é diferente. As cidades são jardins, onde as pessoas, conhecidas ou não, se veem, se cumprimentam, se sorriem, festejam a alegria, celebram a vida. Os campos são trechos conservados do Paraíso, onde se produzem alimentos sadios para todos em regime de cooperativismo. O mundo é de todos os viventes e não de apenas alguns equivocados gananciosos privilegiados aproveitadores do Planeta. O uso de tudo é comum, dentro da compreensão de que não é preciso reter para dispor. A ordem vigente é o respeito a tudo e a todos, à lei universal. É a harmonia entre os diferentes dentro de Gaia, essa pequena bola sem fronteiras, cheia de vida animal, vegetal, mineral, em que de modo fatal entrelaçadamente vivemos viajando no espaço sideral. 

Sim, enfim, chegou-se à compreensão da interdependência de tudo e de todos, de modo que a real felicidade pessoal depende dos outros indivíduos, sejam esses insetos, plantas e doutores.  A começar pela dependência que os humanos têm das árvores, dos rios, das fontes e das abelhas, sem os quais não têm o oxigênio, água e alimentos de que precisam para existir. A natureza pode dispensar os seres humanos, mas estes não podem viver sem a natureza.  E numa sociedade doentia, na qual predominam as discriminações, o abismo entre escassez e o supérfluo, o desamor, o isolamento, a falsidade, a esperteza, a violência, as poluições, as devastações as doenças,  ninguém consegue ser feliz de verdade, mesmo os ditos “aquinhoados da sorte”. Sobre todos paira a insegurança, o medo a intromissão de um vírus letal a pegar todos de surpresas, fazendo tudo parar e ser repensado.

Após muita relutância, perdas e sofrimentos, a humanidade, afinal aprendeu e construiu o mundo novo.  Passou-se a viver em outra condição com menos coisas e mais serenidade e alegria, tendo por base a simplicidade, a compaixão, a solidariedade, cooperação, a partilha, a fraternidade o amor. “E povo cantando seu canto de paz”.

Mas eis que o telefone toca e o devaneio se interrompe. A gente se dá conta de que sonhou, sonhou demais. Antes que a decepção vire tristeza a gente lembra do documentário assistido há poucos dias, sobre uma comunidade rural em Minas Gerais, que vive nos moldes do que se devaneou aqui. Talvez mero reflexo ampliado do que foi visto e ouvido no filme. Seja como for, a constatação de que tal comunidade existe de verdade, serve de alento à esperança. E a gente continua sonhando com o Mundo Novo que poderia ou poderá vir a ser.

25 de fevereiro de 2021

               


 

 

 

 

8 comentários:

  1. Qual o nome do doc ? Viajei, agora...rss

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    1. As Noivas do Cordeiro depois descobri que tem vários, mas o que assisti acho que foi o primeiro. Vou ver se lhe passo o link no seu Facebook.

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  2. Esperança e/ou Fé são as palavras que significam nosso superamento , nossa sobrevivência de modo positivo. Feliz em acompanhar o seu blog! Desejo sucesso!
    Depois, me conte como é que se faz, também penso em arquivar minhas pesquisas desse modo. Grande abraço.

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    1. Muito obrigada Evinha. Não é dificil fazer blog simples. Quando você quiser posso lhe passar orientações do próprio blogger.

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  3. Maravilha de crônica adorei Gilka.
    Vou divulgar nos grupos que participa

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    1. Muito obrigada. Fico feliz por você ter gostado e pelo compartilhamento

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  4. Um mundo novo, que virá, com certeza, pelo menos nas nossas cabeças e corações. Parabéns!!

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    1. Verdade pena que você não se identificou. Muito obrigada pela sua participação

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