De Romance e Resedá
Nas dobras
do tempo se perderam as sutilezas que romantizavam a vida, restando o atual momento
de insípidos vazios espetáculos e explicitações. Mas no momento em que minha
amiga Gracinha me envia uma foto das flores do resedá e conta uma historinha
dos seus avós, o tempo se desdobra e me sinto tomada por suave ternura de
encantamento que os pequenos quase nada da singeleza nos proporcionam.
Gracinha
diz “essas são as flores do resedá, uma plantinha muito antiga.
Tia Angélica me contou que na casa de Vó, no Catu, tinha um pezinho e que Vó
tirava um galhinho e colocava no cinto de tecido na cintura pra estar perfumada
quando Vô chegasse em casa. Ele era chefe do restaurante do trem e saltava no
Catu, uma das estações, depois do trabalho. Delicadeza e muito amor!”
Sim, muito
amor expresso de forma delicadamente sutil e que por ser assim, transcende aos
amantes e enternece também a quem percebe. E minha amiga ainda complementa “Minha
avó era muito doce. Quando ela e meu avô se desentendiam (os desentendimentos
eram raríssimos), falavam baixinho, eu só ouvia ele dizer, baixinho mas
zangado: Senhora! Que era como ele a chamava. E ela, Oscar! Era um barato!”.
Pura
doçura até nas raras zangas. E tanta candura rescendendo o perfume de resedá me
faz lembrar daquelas figuras antigas de enamorados em biscuit ou gravuras
românticas em jardins de muitas flores. Ele oferecendo um ramalhete ou pequeno
buquezinho a ela sentada num balanço também florido a olhá-lo ternamente. Ou,
em outra cena, ela faceiramente prendendo uma flor nos cabelos ou no botão da
blusa sob a fascinada contemplação dele. Era um tempo de poucas palavras, mas
de altas significâncias dos pequenos gestos, longos silêncios, suspiros profundos,
olhares furtivos, discretas declarações, insinuantes demonstrações de amor
Posso
imaginar, uma cidadezinha com sua bela estação de trem, todas estações de trem
são sempre muito belas, igreja num largo em torno da qual se distribuem algumas
ruazinhas pacatas com seus ajardinados bangalôs de varandinhas aromadas de
jasmins e outras flores antigas. Em um deles, no fim do dia, antes do
alto-falante tocar a Ave Maria, uma jovem senhora, banho tomado, cabelos
arrumados, vestido com enfeites de renda alvamente engomado, colhe raminho do
balsâmico resedá e discretamente o põe no cinto para receber o marido, seu
presente de todas as tardinhas, sendo também ela mesma o mimo cheiroso a dar-se
a ele.
Tudo isso
no tempo das sutilezas, no tempo de romantismo, no tempo de resedá, e outras
flores antigas. Até as flores entram e saem de moda? Mas minha amiga tem jardim
com flores antigas e delas ela fala desse jeito: “De resedá eu tenho dois pés.
O primeiro foi comprado na mão de uma senhora, dona Alice, que morava perto da
Igreja S. José, no centro. Ela mesma fazia as mudinhas de um pé que tinha e
depois eu fiz uma muda e plantei no jardim. Na mão dela também eu comprei uma
muda de jasmim estrela, aquele bem antigo e perfumado. Tenho dois pés enormes
dele aqui. Um sobe pelo telhado da frente e perfuma a sala. O outro, é do lado
da casa. Dona Alice já morreu e só vendia plantas antigas. Tenho também o
jasmim bugari, parece uma rosa branca e super perfuma tudo em volta”.
Então eu
me pergunto: será que o romantismo passou porque essas flores desapareceram ou
foi o contrário, estas flores sumiram porque o romantismo terminou? Seja como
for, o caso é que minha querida Gracinha é uma sensível romântica que cultiva flores
antigas e me inspira crônicas assim.




Quanta sensibilidade e beleza nessa crônica que toca o nosso coração e a nossa memória! Muita inspiração com coisas tão simples como um galinho de Reseda! Essa é Gilka Bandeira que Cada dia mais escreve tão lindo!
ResponderExcluirMuito obrigada. Fiquei feliz com tanto carinho. Pena que não se identificou.
ExcluirLinda crônica!! 🤗👏👏
ResponderExcluirParabéns!
Muito obrigada. Pena que não se identificou .
ExcluirQue saudades dos cheiros da minha infância. Jasmins,manga rosa perfumada, murta,
ResponderExcluirFlor de laranjeira alecrim do campo , rosa branca de trepadeira.... deixamos o romantismo para dias específicos e nos deixamos ser envoltos na praticidade dos tempos corridos. Vc faz os sonhos virem à superfície, Villa. Minha alma te agradece.
Oh! Mary, fico feliz por ter conseguido lhe tocar na alma. A minha alma se sente plenamente gratificada.
ResponderExcluirMuito obrigada também pelo seu comentário.