Aqui vou eu também cumprindo a mesma sina de João Ubaldo Ribeiro. Sina contada por ele em tocante crônica. A sina de sempre voltar à Itaparica e se render de muito bom grado ao seu fascínio. Um não sei quê a nos fazer diferentes. Bem entendo o que Ubaldo quis dizer quando escreveu: “...minha vida, meu pensamento, meus sentimentos e até minha maneira de ver e falar mudam assim que chego, mistério que nunca entendi direito. Passei boa parte da infância na ilha, na casa de meus avós maternos e no meio da vastíssima parentela de todas as extrações. Mas não fui criado lá. Contudo, não sei por quê, é a terra que me prende, da qual nunca me esqueço, onde sempre me sinto bem, onde julgo entender coisas que em outros lugares não entenderia.” No meu caso o mistério é ainda maior pois nem nasci nem passei a infância em Itaparica.
Não adianta buscar explicação. É mistério e pronto. Basta saber, mais que isso, sentir, que, ainda usando as palavras de João Ubaldo, “é sempre bom voltar e é sempre, com perdão pelo lugar-comum que, aliás, nem quero evitar, uma emoção renovada rever as águas veneráveis da Baía de Todos os Santos e começar a respirar o ar da ilha, enquanto nos aproximamos daquela costa de marés mansas,...” E aqui vou eu, com minha amiga Mara, ótima companheira de viagem e de compartilhamento do fascínio de Itaparica, revendo emocionalmente essas calmas águas veneráveis, respirando esse ar encantado, absorvendo os azuis, os verdes, os ouros das acácias e dos pores-do-sol e me tornando outra pessoa, mais sensível, mais amorosa, talvez até um pouquinho sábia e com certeza, mais feliz. Tudo isso enquanto recebo o carinhoso acolhimento dos amigos daqui.
Chegamos à tarde, o mar sempre belo, estava num daqueles dias em que a beleza excede e não resistimos ao insidioso chamado. Mal arriámos as malas, trocamos de roupa e lá fomos nos rebatizar nas águas mornas, transparentes e deliciosas da prainha do balneário. De pronto o reafirmar de duas certezas. Primeiro de que em Itaparica não tem como se ser triste. Segundo, que de muito pouco se precisa para se ser feliz. Mergulhamos, nadamos, boiamos. Maravilha que não se pode descrever, só sentir. O sol descendo dourava os azuis e tínhamos de ir porque logo viriam as queridas Betinha e Randra. Como de fato vieram. E nos abraçamos com carinhos porque as saudades precisavam ser desfeitas e alegrias do reencontro eram sem tamanho. Sentadas ali na amurada da orla ainda sob suspiros do crepúsculo, atualizamos notícias e conversamos sobre a comemoração do aniversário de João Ubaldo Ribeiro dentro do programa Café com Leitura da Biblioteca.
Mais tarde, lá estávamos Mara e eu, saboreando os especiais “bolinhos da vila” acompanhados do bom molho do chefe entre os goles do vinho enquanto nos submergíamos na noite itaparicana. Com alma leve, leve, o espírito em pleno sossego, contemplávamos o piscar de uma boia de sinalização, as luzinhas em colar orlando as terras do outro lado do canal ou da iluminação do mastro de veleiro passante pelo rumorejante mar obscuro. Depois, de volta para o hotel, andando devagarinho pela calçada ao lado do mar. Era possível até ouvir passos e vozes de antanho a nos contar façanhas da época das invasões holandesas ou das batalhas da guerra da independência, ou casos de pescadores, ou cochichar de namorados, ou cantigas de rodas ou doces acalantos. Assim a sedução se cumprindo logo na chegada.
Nos dias seguintes a coisa só fez se intensificar começando cedo no variado café da manhã degustado na varanda arcada quase sobre o mar, com direito à inquietude sonorosa dos sanhaços e bem-te-vis entre os dourados cachos das acácias. Ao largo, um barco pó-pó-pó, se indo pra rotina do dia. Depois, a afetiva recepção sucessiva dos amigos: a elegante delicada Carmem, o sempre gentil Antonio, a carinhosa Noêmia acompanhada de Zete e o pequeno, já não tão pequeno, Pedro, o versátil Raimundo Coelho, o irreverente Yulo coberto de razão e de sentimento de pertencimento a essa terra que adotou; Roberto, vindo da Coroa só para me ver trazendo de presente as mudinhas de junquilho. E por falar em presentes, também recebi mimos de Betinha e de Isabel, a grande amiga mineira-itaparicana-cidadã-do-mundo de há uns quatro anos, mas que não nos encontramos pessoalmente e lamentavelmente ainda não foi dessa vez, pois quando chegou eu tinha saído. Mesmo assim deixou sacolinha com suas dádivas para mim. Ainda faltou gente porque foram apenas três dias.
Houve o jantar no solar dos reis, entre paredes e colunas de pedras, barro e cal feito de conchas marinhas a nos remeter ao pretérito, quando originalmente o casarão foi erguida pelo armador de baleia João Francisco de Oliveira, ou quando serviu de pouso a D. João Vi em sua passagem pela Bahia rumo ao Rio de Janeiro, a D. Pedro I na época da independência e muitos anos depois a Dr. Pedro II. Houve o almoço no Largo da Quitanda contemplando o mar e tendo por sobremesa a taboca, vendida à moda antiga e os sorvetes de coco verde feito com a própria água do coco e o também delicioso sorvete africano, todos sem gordura hidrogenada, da sorveteria do artista plástico Sérgio Saldanha. Em Itaparica é assim, uma sorveteria é de artista plástico e a outra do escritor contador de casos Gregório Gomes, agora, infelizmente, finado.
Houve o encanto do canto de prainha lisa, transparente abaixo ao cais, que além do banho sublime tornou-se ponto de descobertas de interessantes pessoas amigáveis de conversas fartas: Rosângela, a corajosa, desprendida que viera sozinha passar o dia em Itaparica a fotografar tudo e a se fotografar; o maduro casal Cândido e Rosa que apesar de amorosos mantinham a sabedoria de morarem cada um em suas casas, ele em Mar grande e ela no sítio na Misericórdia; a simpática Jane, vinda de Nazaré das Farinhas a revelar lúcida consciência social. Todos surpreendendo nas conversas em que passavam lições de vida.
E ainda teve mais, teve a divertida pescaria da amurada defronte do hotel. Um monte de gente de uma mesma família misturados a vários outros, com varas de pescar, gererê de cabo comprido, tarrafa, todos solidários e entre eles, se destacando pelas observações e dicas, estava Branca. A experiente pescadora, religiosa sem ser alienada e um tanto filósofa com quem batemos bom papo. A folia era grande. Uns gritavam, “olhe a agulhinha”, “vai, vai”. E o do gereré corria tentando pegá-la, mas já na boca da armadilha, a bichinha escapava, apesar da animada torcida. Isso umas três vezes. Alguém se queixava que os robalos apenas abocanhavam os camarões frescos da isca (segundo Branca, robalo só come camarão fresco, se já estiver passando, eles não querem saber) sem se prenderem no anzol. De repente uma tainha saltou e novos gritos de incentivo como acontece numa partida de futebol quando o jogador está na boca do gol. E aí foi a vez da tarrafa ser jogada. Gritos de festejo de vitória, mas qual o que, a noite não estava para pescador.
Dormimos tarde nessa noite, mas muito bem, obrigada, sob os efeitos da fina sedução de Itaparica.
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Estou encantada e emocionada com essa crônica, tão cheia de verdade sobre Itaparica, cada linha escrita, consegui visualizar os momentos, como se eu estivesse a todo tempo com você. Muito obrigada, por me proporcionar essa leitura maravilhosa, e ter lembrado com carinho de mim. Um forte abraço!🥰
ResponderExcluir👏🏽👏🏽👏🏽📚📚📚 Gilka Bandeira, verdadeiramente você é super dotada!
ResponderExcluirGilka Bandeira, Itaparica tem o privilégio de ser divulgada pôr você, essa é uma das formas que você demonstra seu amor pôr ela.
ResponderExcluirObrigado minha amiga querida!
Eu é que agradeço, amigo querido, as suas palavras generosas e gentis e sua amizade
Excluirque maravilha de crônica! Ubaldo sorriu.
ResponderExcluirMuito obrigada e tomara que ele tenha rido mesmo.
ExcluirMeu Deus , quanto amor, sensibilidade, carinho, conhecimento e pertencimento tem esta escritora, bibliotecária e o maior é minha grande amiga. Orgulho de ter sua companhia estes poucos dias, mas muito feliz porque veio. Aí se minha terra a maioria tivesse este carinho, este cuidado com nossa cidade. Obrigada minha amiga.
ResponderExcluirEstá com anônimo mas identifico a minha grande amiga Mara, companheira de algumas viagens, sempre muito delicada. Muito obrigada pelas palavras e pela amizade que vem do tempo de colégio. Pena que as outras três que compõem o grupo não puderam estar conosco.
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