quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

 

Ô Dona da casa

(Ao Mestre Aristides que me contou sobre o samba de Regina)

 Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

 (Samba da Bênção - Vinicius de Moraes) 


 

                                          [[Imagem:Lavagem do Bomfim (2010) (a).jpg|thumb|180px|Legenda]]

Hoje, segunda quinta-feira do mês de janeiro, é o dia da Lavagem do Bonfim. Quem mora na Bahia, ou é brasileiro de qualquer lugar, bem sabe a que me refiro. Mas para quem não sabe, eu digo. Trata-se de uma das maiores e principais manifestações populares dessa terra que se diz abençoada por Deus e bonita por natureza feita de contrastes e misturas. Não é feriado, mas quase ninguém trabalha nesse dia. É dia de subir a “colina sagrada” e lavar as escadarias da igreja com águas de cheiros levadas nos potes de barros adornados com fitas e flores pelas mães e filhas de santo, ou simplesmente baianas, de torço na cabeça, vestidas com alvíssimas bordadas saias rodadas, batas e panos da costa e enfeitadas com muitos colares e pulseiras de contas. Vão acompanhadas pela multidão de devotos ou festeiros, quase todos também com roupas brancas. O cortejo, saindo da Igreja da Conceição da Praia, percorre cerca de seis quilômetros estendendo-se como longuíssimo lençol pela Ruas do Comércio. Vão cantando, bebendo sob espocar de fogos e as saudações dos que não podendo ir se aglomeram nas calçadas, nas sacadas e janelas. É ritual e festa. Festa do Senhor do Bonfim católico e de Oxalá, orixá maior do candomblé. É festa religiosa e profana. Ao lado da igreja, inúmeras barracas rodeadas de mesas e cadeiras vendem comidas, petiscos, refrigerantes, águas e, sobretudo, cerveja e outras bebidas alcoólicas. E por ali se fica na folia até o fim do dia, ou mesmo, varando a noite. 

 


Bem, como era dia da Lavagem do Bonfim, amanheci sob enxurrada de cards e vídeos no WhatsApp com imagens do Crucificado, ironicamente, o Senhor do Bonfim; da sua igreja em todos os ângulos, tendo o famoso hino por trilha sonora e votos de bênçãos. Agradeci e pensando nos janeiros dos anos 70 do século passado, escrevi para um amigo: “Hoje era dia... Antigamente”. Sim, era dia de reunião dos amigos na “sagrada colina”, de cervejas e atabaques zoando, a gente cantando, batendo palma, sambando, sambando, sambando... Ainda não tinham botado trio elétrico nas Festas de Largo. Naquela época havia época pra cada coisa e trio elétrico era coisa de carnaval, como forró era coisa das Festas Juninas e o samba era coisa das Festas de Largos. Cada qual com sua música típica.

De imediato uma enfileira de sambas de roda me veio à cabeça:

Oi Inácio, ou Inácio, 
Mulher parida não come,
Oi Inácio, ou Inácio
Farinha do mesmo dia.
Oi Inácio, ou Inácio
Se ela come ela morre
Oi Inácio, ou Inácio
E o filho não se cria...
***
Marimbondo me mordeu,
Me mordeu foi no umbigo
Se ele morde mais pra baixo,
O caso tava perdido
Marimbondo me mordeu,
Foi no umbigo
Marimbondo me mordeu,
Foi no umbigo...
***
Que menina é aquela,
Que entrou na roda agora?
Ela tem um remelexo,
Que valha-me Deus,
Por Nossa Senhora…

E outros, e outros, e outros. Daí, deu vontade de cutucar os amigos e fui para o YouTube buscar vídeos de samba de roda para compartilhar. E cutucando me deparei com a história que eu já queria contar antes de tantos arrodeios. Mas, compreendam, quem escreve tem por dever construir um enredo, botar uma certa ordem no desenredo do mundo, alimentar o faz de conta da lógica que a vida não tem. E foi assim que quando recebi os vídeos que enviei ao meu amigo, velho mestre de capoeira, dei de lembrar e cantar vários sambas de roda no WhatsApp. Como se sabe, e se não sabia fique agora sabendo, Capoeira e Samba de Roda costumam andar agarrados, ao menos nas capoeiras de ruas. Toda roda de capoeira terminava com bom samba de roda. E de repente ele disse: “Eu vou contar para você o que eu me lembro de um samba que tinha no Alto das Pombas na casa de Regina.” E contou

 

No final da década de 50 do século XX, quando não existia celular, televisão, nem mesmo luz elétrica em muitos lugares, numa roça bem bonita com muitas árvores frondosas, mangueiras, jaqueiras tamarindeiros sapotizeiros, havia uma casinha de taipa com duas janelas e uma porta. Nela morava Regina, uma sambadeira e puxadora de roda. Sambadeira de primeira tanto na roda como no gogó. Cantava como ninguém, parecia até uma sabiá, quando abria o bico para cantar. Regina era ouvida de longe. E com aquele sorriso alegre recebia todo mundo de braços abertos.


 

— No período, que começava na festa de São José (19 de março) e acabava na festa de São Pedro (29 de junho), passando por maio, mês de Maria, pelo Santo Antônio e São João, toda sexta-feira à noite e sábado depois do meio-dia tinha uma roda de samba na casa de Regina. Nessa ocasião os homens e as mulheres rezavam as novenas diante de um altar improvisado com caixote forrado de papel crepom. E enfeitado por grandes flores também feitas de papel crepom enfiadas na areia dentro das latas de leite forradas por papel de embrulho colorido. Mas depois da reza o samba caia no terreiro e só parava lá pelas tantas. O terreiro ficava na frente da casa, era de terra batida e ali, à luz de fifó, ou da lua, quando lua havia, ou mesmo às escuras, todo mundo se reunia embaixo de uma mangueira, pra cantar e sambar.  

Naquele tempo não havia esse negócio de grupo de samba organizado com todo mundo vestido igual, uniformizado, feito para apresentações em troca de trocados. E o samba era divertimento nas casas, em festejos de aniversários, nos carurus de Cosme e Damião e Santa Bárbara; era diversão também nos largos e praças nos dias das festas populares da Conceição da Praia, Santa Luzia, Boa Viagem, Lapinha, Bonfim, Segunda-feira Gorda da Ribeira, Yemanjá, no Rio Vermelho, na Pituba e Itapuã, estendidas no verão inteiro, só parando para o carnaval que também tinha samba em meios as marchinhas e frevos. E tinha samba no trabalho, servindo para aliviar a fadiga, dar ritmo ao que era feito e comemorar o fim da labuta, principalmente nos trabalhos feitos em mutirão. Tanto que há o samba barravento, próprio de amassar barro para fazer as casas de sopapo, ou de taipa como também se diz, ou virar panelas, potes, moringas nas olarias. Em cada lugarzinho do grande Recôncavo Baiano, onde indígenas e negros escravizados deram duro, há um jeito peculiar de fazer samba, mas sempre guardando semelhanças que os identificam como samba de roda. E um dia, saindo da Bahia de Todos os Santos, o samba de roda chegou a outras baias, e ganhou novas feições. 


O samba de Regina era feito com prato esmaltado tocado com faca, pandeiro e tamanco. O tamanco, você sabe que é um calçado de madeira e se fosse bem gasto dava um som bem seco bem fininho parecendo aquelas madeirinhas que são usadas em outros cantos do Recôncavo para acompanhar os sambas de lá. Só que o som do tamanco é mais agudo. O tamanco era batido com as mãos. Elas calçavam os tamancos na mão e batiam como se fossem palmas e o ritmo era o mesmo das palmas, às vezes com algumas inovações. Quando Seu José ia, levava a viola, mas só nos dias de sábado que ele aparecia.

 


O samba era muito animado e todo mundo que chegava podia cantar e sambar. Como Regina dizia, ela era só a dona da casa. E o que acontecia na casa de Regina era sempre regado por pinga e licor de jenipapo. Não sei como é que ela arrumava tanta cachaça. E não faltavam tira-gostos. Eu acho que todo mundo ajudava, as comadres, como diziam os antigos. E o povo cantava assim:

Ô dona da casa
Por nossa senhora
Me dá o que beber
     Qu’eu cheguei agora…

 

Ô dona da casa
Por nossa senhora
Me dá o que beber  
   Se não eu vou embora…

E como o de beber nunca faltava, ninguém ia embora e o samba não tinha hora de terminar. Era assim nos bons tempo. As crianças todas ficavam em volta espiando aprendendo e dançando, imitando os mais velhos. E alguns se tornavam mesmos bons sambadores.

Como você? — Perguntei ao Mestre de Capoeira, meu amigo, também bom contador de causos, como se vê. E ele respondeu:

Acho que sim. De qualquer forma, quando adquiri o gingado da capoeira já tinha o molejo do samba de roda pra o depois do jogo. Agora chega já lhe dei a régua e o compasso é só você botar no traço. Igualzinho ao traço da massa de barro para fazer a casa de taipa. E dá licença que vou na Ribeira sambar.

Você matou
Meu sabiá,
Rosa morena
    Eu vou na Ribeira, sambar 

Já? O samba na Ribeira não é na segunda-feira gorda?

— Até parece que você nunca emendou o Bonfim com a da Ribeira... Me deixa, viu.



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