segunda-feira, 13 de junho de 2016



O GRANDE SUSTO DE NOÊMIA


Lua cheia no mês de março, já se sabe, é tempo de maré de extremos. No dia anterior, a maré alta tinha chegado a se esparramar de ponta a ponta em alguns trechos da rua. De manhãzinha a baixa-mar descobrira todas as coroas de areia, promessa de fartura. Para completar a alegria das marisqueiras, era véspera da Sexta-Feira Santa, garantia de vendagem fácil, quando ninguém na Ilha dispensa uma boa moqueca ou frigideira de chumbinho, ou de maria-preta, ou de siri, ou de peguari, e se na casa houver uma Noêmia não será de apenas um ou outro, será de todos, além do peixe, camarão e bacalhaus, porque para ela o muito é pouco.
Noêmia, ou Lourinha como é mais conhecida, é uma dessas pessoas especiais que encontrei em Itaparica.  Gente assim é rara, mas tenho tido a sorte de ter encontrado várias destas raridades, ao longo da vida. Cem por cento itaparicana, Noêmia conhece todo mundo, sabe de tudo que acontece e trabalha como ninguém. Com seus 56 anos de idade é mais forte que muito homem e centenas de jovens juntos. Depois de passar a manhã toda agachada sob sol forte mariscando, põe o balde cheio de conchas na cabeça e sobe ladeira, anda quilômetros pra chegar em casa e depois volta para pegar igualmente pesado saco cheio dos mariscos refazendo todo o trajeto. Parece não se cansar nunca, muitas vezes após a maratona da mariscagem ainda lava roupa de casa, preparar almoço (adora cozinhar e o seu pirão do escaldado de siri simplesmente divino), limpa a casa dela e do filho  etc e tal. 
Certo dia, chegando aqui em casa e vendo as mangas verdes que alguém implorou para eu comprar, ela disse “estas mangas só prestam para umbuzada!” Surpresa eu pergunto: “umbuzada de manga, Noêmia?, umbuzada é de umbu”. Sem perder a certeza ela afirmou: “É sim, mas também se faz com manga, ora”. Diante da minha risada, completou a receita: “faz sim com leite condensado”. Doutra feita  eu aventava a possibilidade da baixa de pressão ser a causa das vertigens que vinha sentindo, e contei que já mediu 10 por 4,5. E ela, sem se dar conta do que dizia, falou: “Se chegar a zero, morre. Foi assim com o finado...” Rindo, eu nem ouvi o nome do finado.  
E tem os resguardos, as comidas reimosas, as superstições...  É muita coisa pra contar desta grande figura humana, solidária, dedicada, engraçada, mas o tema dessa crônica é o aperreio que ela passou há poucos dias. Bem, era tempo bom para mariscagem. Logo cedo Noêmia, sua irmã Neuza, dona Dita e Nanada chegaram ao Porto dos Milagres e encontraram a canoa de Tiúta com lotação completa. A intenção era ir a Ilha do Medo, mas para não se arriscarem com a superlotação, a turma de Noêmia resolveu ficar na Coroa do Limo. Tiúta, que também ia catar peguari no Dourado, seguiu com as outras marisqueiras, ficando de pegá-las na volta.
As horas passavam, o sol esquentava. De cócoras, ou ajoelhadas, ou mesmo sentadas sobre a areia úmida com fina camada de lodo, mudando de lugar de tempo em tempo, elas se entretinham, no silencioso sossego que reina nas coroas marinhas, a raspar o chão com colher de pedreiro ou algo similar, e a recolher os chumbinhos (molusco bivalve, também conhecido como papa-fumo, burdigão, vôngoli e outros nomes), que com a força da lua, praticamente brotavam, quase não precisando se cavar. Enquanto isso, a maré começou a encher, de inicio quase imperceptível. Mas sorrateira e decididamente avançava engolindo pedaços da coroa, indo na direção delas. Mas cadê Tiúta?
Logo elas já não podiam mariscar, porque as águas tinham coberto tudo. E nada da canoa. Começaram a se inquietar. A água de beber havia acabado bem como o lanche. O sol escaldava e o mar continuava a subir. E nada de Tiúta. Quando as águas invadiram os baldes com os mariscos  catados desconfiaram que estavam em apuros e quando sentiram o mar nos  joelhos, a desconfiança virou certeza. A aflição se instalou,  menos para dona Zita, que sendo evangélica, dizia que Jesus as salvaria. Já em pânico Neuza, Nanada e Noêmia disseram: “fique aí esperando Jesus e não grite não. Esqueceu que Deus disse faça sua parte que lhe ajudarei?” e se puseram a gritar e acenar com panos.
Após muitos gritos e acenos desesperados, enfim foram vista por alguém que estava no cais da antiga fábrica de envasamento da famosa água mineral. Em breve foram resgatadas pelos barqueiros Corante e Ferrugem.  É bem verdade que a coroa fica perto da costa, daí terem sido vistas. É perto, mas não havia como elas atravessarem o fundo canal sem uma embarcação. Quando o canoeiro Túita apareceu elas já estavam em segurança no Porto dos Milagres.
 Abr. 2016

terça-feira, 29 de março de 2016

DAS PEQUENAS FELICIDADES NO HOSPITAL



            O outono chegou, mas o verão ainda não se deu conta disso, ou simplesmente resiste em ceder lugar à nova estação. E os dias continuam longamente azuis, tanto que até após a ‘hora do ângelus’ a clara luminosidade permanece. É bem verdade que já se percebe o deslocamento do sol e da lua ao nascer, mas o calor é o mesmo, talvez um pouco mais abrasador com a diminuição dos ventos, de modo que a epidêmica preguiça assola entre os habitantes desta denodada cidade de Itaparica. Levantar-se da rede ou da espreguiçadeira, só mesmo para cair nas águas do mar. Portanto, veio a calhar a recomendação médica para que continue a repousar após passar os oito dias hospitalizada.
            Deitada na rede, que também embalança cálidas lembranças, repasso as pequenas felicidades experimentada durante o internamento. Uma das primeiras lições da arte de viver é aprender a tirar leite das pedras. A primeira felicidade foi transformar o repetitivo som do monitor cardíaco em voz de curiango, sendo transportada para chácara de Monte Gordo, onde na varanda à noite, ouvia-se o curiangar dos bacuraus no meio da escura estrada de barro entre matos que dava acesso à quinta de mil saudades. A segunda felicidade, ainda na UTI, também na base da transcendência do real, aconteceu quando o constrangedor banho-de-gato virou banho de lagoa, ao mentalmente cantar “ela tomou um banho de água fresca/ no lindo lago do amor/ maravilhosamente clara a água/ no lindo lago do amor”.
            A terceira felicidade, foi a chegada da amada filha e do querido amigo depois de quase 12 horas de solidão na fria UTI. Que bom, receber o carinho deles! Qualquer coisa assim como a vinda da primavera, até pude ver flores e ouvir cantar de passarinhos. Tal efeito fez com que no anoitecer deste mesmo dia eu fosse transferida para o apartamento. As persianas estavam fechadas, mas no amanhecer, foram suspensas e pude contemplar uma celestial nesga azul entre dois altos prédios e novamente pude ser feliz. Da cama podia ver as nuvens virem e passarem naquele estreito céu. Bojudas, aos flocos, esgarçadas como asas, alvas, brancas acinzentadas, róseas ao pôr-do-sol, elas passavam e era muito bom ficar assim olhando-as. Senti, parafraseando Alberto Caeiro, que só para ver passarem as nuvens, valia a pena ter nascido. A impressão terminou virando poema sobre nuvens viajeiras. Era a confirmação da influência que a natureza exerce no psiquismo e na disposição d’alma dos enfermos, o que deveria ser considerado pelos hospitais, levando-os a pôr claridades (de preferência naturais) e cores nas instalações, cercando-as de árvores e tendo a janelas dos quartos voltados para elas.
            Não se pense com isso, que tudo correu a mil maravilhas, que me encontrei num mar de rosas. Ninguém permanece num hospital por tantos dias impunemente. Houve momentos de apreensões e tristeza relativas ao problema de saúde e às questões de foro íntimo. Mas tristeza é coisa pra se afugentar e não pra acolher, portanto melhor voltar às pequenas felicidades. Outro momento de especial contentamento se deu quando depois de três dias, o acesso colocado na jugular foi retirado e, com o pescoço livre, pude tomar um maravilhoso banho da cabeça aos pés. O chuveiro de jato muitíssimo forte era uma cascata a massagear o corpo com choquinhos vibratórios. Que felicidade, o contato com aquela deliciosa água, a sensação de libertação e de volta à vida!
            Não era a liberdade total, fiquei lá por mais três dias aguardando o laudo do holter e avaliação final do arritmologista, quando, enfim, pude receber alta. As pequenas felicidades já experimentadas e leitura das aventuras de Alice Através do Espelho, o primor do nonsense de Lewis Carol, tornaram esta espera suportável embora tendo leves crises de arritmia, motivo de alguma preocupação. Por acréscimo, no caminho de volta para casa, deparei-me logo ao desembarcar da lancha, com o pé do abricó-de-macaco florido e já com alguns frutos, na praça de Mar Grande. Belíssima visão que tomei como saudação de boas-vindas. Mais uma pequena felicidade como foi ainda a seguida gentileza do motorista da topic que de longe veio pegar minha sacola e me deixou na porta de casa, além do bom astral dos demais passageiros que compreenderam e tiveram paciência com a mulher que encheu o veículo com materiais de construção, inclusive alisares de portas e janelas. Estava de volta e a minha alegria parecia contagiar a todos.         
Aos poucos vou voltando às minhas atividades normais com a satisfação de ter  experimentado todas estas pequenas felicidades, através das quais se chega à felicidade plena e ao domino da arte de viver.






quarta-feira, 2 de março de 2016

A BORBOLETA AZUL


                             

O sol brilhava, as folhas do pau-brasil rebrilhavam, os sanhaços cantavam à cata das derradeiras frutinhas nos galhos mais altos da pitangueira. Era uma manhã luminosa, mas o dia nada prometia. Havia até certa melancolia no ar. Melancolia advinda talvez do arrefecer da esperança ante as absurdas notícias do mundo, ou da falta que o amado deixara, ou da saudade dos antigos serões com os filhos, ou da sentida solidão que acompanha aqueles que fogem dos padrões instituídos, ou de um monte de coisas ou de coisa nenhuma, talvez sendo apenas um dos muitos inexplicáveis que residem nas almas.
Ensaiou cantar, mas o canto soou triste, embora a canção tratasse de céu e mar. Saiu ao jardim para pôr bananas e alpiste sobre o muro coberto de hera, onde os passarinhos já costumeiramente procuravam o de comer. E foi por ali que o esplêndido inesperado aconteceu. Voltava para dentro de casa, andando sobre a grama, um tanto alheada. Talvez estivesse num raríssimo instante em que nada se pensa (vixe, quanto talvez!). Aí de repente, não mais que de repente, como diria o poeta, tal qual uma aparição, uma borboleta azul passou. Uma borboleta azul do tamanho dum palmo de mão média, voando baixo, bem próxima, sem pressa, serenamente solitária.
Era de um perfeito azul metálico fluorescente, uma borboleta quase extinta de tão caçada para virar paisagens em suvenires de turistas.  Mais surpreendente ainda era ser espécie típica de floresta e, portanto, não comum por estas bandas litorâneas. No entanto por ali passara, vinda não se sabe donde, indo para não se onde, como afinal todos nós apesar das várias conjeturas sem certezas. Como, por que aquela borboleta viera parar, ou melhor, passar por ali? Esta era típica indagação que ficaria no rol das perguntas sem reposta. Não importava.
No rastro do voo azul, como que espargido por varinha de condão, o mundo todo foi ficando azul e uma cantiga muito antiga ecoou: “Voa,/ minha linda borboleta/ Voa,/ Procurando a ilusão! / Voa, / Pois a vida é tão boa / Quando se tem / Um amor no coração!” Ecoou no jardim e mais efetivamente no coração, tal qual acontecerá naquela longínqua tarde no teatro enquanto uma borboleta azul voava pelo palco. Ele não se lembrava de quase nada da peça, que nubladamente lhe parecia ter sido um teatro de bonecos, se bem que se passasse no palco principal. Deste detalhe lembrava-se, assim como do encanto que sentira também ao subir a majestosa escada com tapete vermelho, especialmente se comprazendo com o tinido que sua pulseira fazia ao bater no corrimão de metal dourado. Sabia que ficara embevecida, mas não recordava das cenas, a não ser a do voo da borboleta acompanhado da canção que agora, além do refrão, lhe sobrevinha o começo: “Certa manhã, / Dessas manhãs cheias de luz, / Por entre as rosas do jardim, / Eu vi passar/ Gentil borboleta de asas azuis, / E o seu voo incerto / Me fez pensar .....”
E ela acabara de ver passar uma gentil borboleta de asas azul nesta manhã cheia de luz e se punha a pensar. A singular beleza, realçada pela surpresa, mistério e raridade, encantara, intrigara e transformará o dia, bem nos conformes da simbologia atribuída às borboletas azuis. Sendo lagarta que se transforma em borboleta, inseto que rasteja por um bom tempo e se torna alado e ascende ao espaço, a borboleta é associada aos processos de metamorfose, viagem, libertação, morte e renascimento, à ascensão espiritual.
A larva cumpre estágio ninfal em crisálida, antes de poder voar por sobre onde antes se arrastara. O ser que se dispõe a ascender espiritualmente precisa, com humildade, passar por período de ensimesmamento, de exercitar a paciência, de ter a mesma coragem para romper o casulo, os casulos das convenções, complexos, traumas, preconceitos, ressentimentos, melindres, apegos, medos, e, como a borboleta, ter força para desenrugar as asas e enfim, elevar-se liberto. E voando livre, vai vendo o mundo e a vida de jeito mais sensível, com encantamento, ternura e compaixão. O processo para chegar-se a isso é longo e exaustivo, mas naquele instante, em que uma surpreendente borboleta azul passou num cantinho de jardim bem junto de quem a viu, fez-se instantâneo, ainda que sem garantia da definitiva permanência do estado de graça.



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

CRÔNICA NATALINA



PITANGAS E PRESÉPIOS

A manhã ainda estava no começo quando soou o já desusado pregão, “Olha a pitanga!” Então, à mesa do desjejum, o homem se deu conta de que estava no dia 24 de dezembro e que o vendedor mercando na rua não oferecia as frutas, mas sim galhos de pitangueiras, no afã de não deixar morrer uma das mais singelas tradições natalina, aquela que dava um cunho tropical ao nosso Natal, que o abrasileirava.
Ele não esquecera, o Natal tinha cheiro da nativa pitanga, de tanto que, neste período, as suas folhas recendiam por toda parte. Nas casas eram espalhadas pelo chão coberto de fina areia branca, e distribuídas nos diversos jarros. Nas ruas, os aromáticos ramos, além de passarem úmidos pra lá e pra cá dentro das latas dos vendedores, eram amarrados em postes e nos ônibus. O pitangueiro novamente mercou já mais distante e ele, ainda na mesa do café, ficou no devaneio.
Entendia, agora, que a mesma apregoação ouvida nos tempos idos, se constituía numa versão sonora da Estrela Guia, a conduzir o menino-homem ao menino-deus. O antigo anúncio de venda das folhas, soando em vozes distintas e não no hodierno solo de hoje, era o sinal de que havia chegado a hora de armar o presépio. Presépio onde o deus-menino renascia a cada ano a elevar o humano coraçãozinho encantado com a própria arte e a proximidade do divino.  
No seu tempo de Zezinho — vivendo no lugarejo afastado da capital, entre a ingenuidade, a improvisação e a simplicidade — o presépio se constituía no centro da festa, armado nos lares e nas igrejas. Com a criatividade à solta, não se armavam dois presépios iguais. Se num ano havia morros feitos de pedras, no outro, usava-se papelão ou jornais cobertos de crepom verde. Empregavam-se os mais variados materiais: gessos, madeira, palha, barro, a fim de criar cenários diversos, às vezes rochosos, às vezes campestres, às vezes citadinos, sem nenhum compromisso com a escala de tamanho ou perspectiva.
Neles um mundo de coisas era incorporado, misturando cenas e figuras que nem sempre tinham a ver com a história retratada: pedras, brinquedos, conchas, areias vindas das praias e ou dunas, cessada para ficarem bem branquinha, casinhas de papelão e de caixa-de-fósforos, bonecos de celulóide, patos, galinhas, carneirinhos, o boi, a vaca e o burro, os pastores e pastorinhas A variedade de feição era enorme. Alguns presépios mais engenhosos exibiam cascatinhas, riozinhos correntes, pontes, moinhos e outras invenções de hábeis artistas ou artesãos. No geral prevalecia a singeleza, bem ilustrada pelo, quase obrigatório, caco de espelho formando lago. Em todos, só não podia faltar os ramos de pitanga, a manjedoura, os três reis magos, Nossa Senhora, São José, e claro, o menino Jesus.
Os preparativos começavam dias antes, com o planejamento, recolhimento de materiais e confecção das figuras e objetos. Mas tudo era festa: sair em busca de musgo, das  florzinhas agrestes e das indispensáveis pitangas; ir às dunas pegar areia; catar conchas e búzios nas praias, ou pedras e argila nas beiras de rios; modelar bichinhos de barro; fazer bonecos de palhas ou de saco de aniagem; forrar caixas de fósforo ou papelão, colando telhados portas e janelas, tudo coloridinho.
Ainda não havia sido importado o espalhafatoso e caro Natal americano e, a tradição européia, que havíamos herdado, passara por adaptação, ganhando característica nacional. Assim, além das pitangas e dos presépios, faziam parte da comemoração: as recíprocas visitas aos presépios e ou as casas dos amigos, parentes e vizinhos; a ceia, com bacalhau (não com peru) presunto, queijos, roscas e frutas secas; a missa do galo seguida dos folguedos populares: reisados, ternos de reis ou de pastorinhas, auto de natal, bumba-meu-boi, rodas, boca de forno e demais brincadeiras infantis. Como a epidemia do consumismo ainda não se alastrara, não havia trocas de presentes nem a febre das compras e da pompa.  O Papai Noel foi chegando aos poucos nas cidades grandes, mesmo assim, trazendo os presentes somente para as crianças, normalmente brinquedinhos simples. Então, o homenageado não ficava tão distante.
A esta altura, o antigo Zezinho se lembrou de um episódio daquele tempo, quando seu tio paterno, conhecedor da sua cachaça por presépio, o levou à capital para cumprir a tradição de percorrer várias igrejas para ver os respectivos presépios no dia de Natal. Aproveitava para instruir o sobrinho quanto à arquitetura barroca e às artes sacras. O menino boquiaberto girava em si mesmo para ver tudo, enquanto o tio, orgulhoso chamava atenção para o fausto e os detalhes. Porém, já com seus onze anos, freqüentador da humilde capela da sua aldeia e um tanto quanto familiarizado com os evangelhos, Zezinho perguntou ao seu cicerone, se aquela era mesmo a casa de Jesus e se tudo aquilo dourado era ouro de verdade. Ante a confirmação do tio, o menino realmente perplexo inquiriu, procurando entendimento: “Então toda aquela riqueza era para Jesus? para o carpinteiro pobre que aconselhava a não se juntar tesouros na terra, que até condenava os ricos por se ocuparem em amealhar bens materiais em lugar dos bens espirituais? Será que o Cristo, que nasceu num estábulo, que viveu sem nada possuir, se sentiria bem num ambiente tão luxuoso assim? por que querer homenageá-lo justamente com coisas e modos que o mestre desaprovaria?
Seu tio bem que se esforçou para explicar, mas o aplicado aluno do catecismo interiorano teve dificuldade de compreender e na sua cabecinha as interrogações permaneceram no fundo da memória, sob as muitas outras que foram surgindo e se acumulando no caminhar dos anos. E agora, na manhã da véspera de Natal, no instante em que um vendedor mercava pitanga, elas afloravam junto às boas reminiscências. Constatou que as suas perplexidades só fizeram aumentar. Todo o conhecimento amontoado nas suas seis décadas de existência não fora suficiente para elucidar o ser nem para explicar as incongruências humanas, tais como a transformação da comemoração do nascimento do humilde amoroso sábio de Nazaré em fantástico negócio. Uma ponta de desencanto se insinuou, contudo foi salvo a tempo, pela voz do netinho que vinha correndo com galhos de pitanga na mão a dizer: “vovô veja o que vovó comprou, vamos armar o presépio agora?”
Mais uma vez a versão sonora da estrela guia cumprira a missão. E lá se foram os dois meninos, o grande e o pequenino, ao encontro do menino Deus.  A esperança se refez. Então, o antigo Zezinho teve resposta para uma das suas muitas interrogações: não importava o que os homens fizeram do Natal e de tudo mais, a essência sempre se conserva, até se revela, para quem de coração leve vai ao encontro do divino.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

ALUMBRAMENTOS



ALUMBRAMENTOS


Os dias estão lindos, lindos como soem ser os dias de certas raras primaveras. A vida pulula.  A pujança se manifesta nos movimentos das marés chegando aos máximos extremos, mais até que as marés de março, tanto nas baixas quanto nas preamares, com a lua cheia em máxima aproximação da Terra. Nas coroas de areias, extensas como nunca, os rala-cocos, as marias-prestas, sambás, peguaris, navalhas, mapés, tapus, carangodés, chumbinhos, toda imensa variedade de mariscos desta baía fazem a festa dos marisqueiros. As mangueiras, os cajueiros, as acerolas e pitangueiras cobertas de flores, algumas já com frutos, prometem safras fartas. Há a alegria no ar. É tempo de ser feliz só por existir. Tempo de bom tempo. Tempo de milagres. Tempo propício para o nascer de um novo amor. Tempo de celebração da vida.
Então há uma sincera vontade de se ser um ser pacificado e pacificador e sair por aí a apaziguar os corações conturbados, a desarmar os tomados de iras e equívocos, a neutralizar todas as querelas, a semear concórdia. Ser amorável e amoroso, e amar infinitamente tudo e todos indistintamente, como Cristo, e perdoar os que de alguma forma deixaram de corresponder à amizade, aqueles que por falta de coragem e relutância em admitir os próprios sentimentos fizeram sofrer, a todos que não sabem o que faz e por isso fazem mal. Ser terno, gentil e agradecido à gatinha que nos adotou e agora dorme enrodilhada aos nossos pés; ao galo que anunciando o alvorecer de um novo dia, lembra que mais uma oportunidade está sendo dada, ao solitário mico, aos sabiás, às rolinhas fogo-pagô  e caldo-de-feijão, aos bem-te-vis, aos cardeais, aos sanhaços, aos casacas-de-couro, aos canários da terra, a todos irmãozinhos alados que vêm comer banana e alpiste, fazendo a festa diariamente. Ser como a luz que não se ofende com coisa alguma, que se conserva pura não se contaminando jamais e ainda irradia iluminando.  Ser sábio o suficiente para deixar o coração sempre leve e puro, livre de ressentimentos e mágoas.
E no meio da tarde do lindo dia, há um solo de berimbau muito bem tocado, logo acompanhado por pandeiros, palmas e vozes. Os meninos que tocam na porta do colégio próximo, nem de longe desconfiam a remissão que sua roda de capoeira provoca. Inicialmente remete ao pátio da Escola de Comunicação, à Taba dos Orixás, ao final de uma manhã de sábado no Mercado Modelo, às Festas de Largo, em toda parte, em que na década de 70, se reuniam os estudantes de Jornalismo, os farristas de quase todas as unidades da UFBa e outros agregados, inclusive nas ruas das cidades por onde passava a embaixada ao Festival de Inverno de Ouro Preto. Histórica e aventureira viagem que dentro do inusitado Fumacê, o ônibus, tipo marinete, cujo escapamento furado jogava o monóxido de carbono pra dentro e, que com gerador defeituoso levou quatro dias que chegar ao destino, sendo obrigado a fazer paradas constantes, as quais se aproveitava para apresentação da capoeira, samba de roda e  o impressionante maculelê  de facão comandado pelos irmãos Márcio e Aristides Mercês. Remete também a reencontro recente de velhos jovens amigos de 1970. Os meninos continuam a tocar sem nada disso saber, criando, provavelmente, suas próprias reminiscências futuras.
E há uns olhos cor das águas. A cor das águas do mar. A cor das águas do mar num dia de sol. Num dia de sol de rara primavera. Na transparência calma destas águas passam cardumes, passam canoas, passam veleiros, passam nuvens, embora os mistérios da alma, retidas nas regiões abissais, não se revelem. Nos olhos oceânicos é possível navegar. É possível navegar por mares nunca dantes navegados, ou dentro da baía e lagamares, por entre ilhas, de preferência desertas, surpreendendo quietas enseadas e esquecidas capelas entre matos à beira d’água, ou um mosteiro inteiro, ou ruinas de um outrora opulento engenho ladeado por imponentes palmeiras imperiais.
Nos olhos d’água cessam as tempestades. Os bons ventos vêm de volta repondo aleluias onde havia nostalgia, espalhando brejeirice onde havia sisudez e doçura na aridez da amargura. Há promissão de sossego, descanso, serenidade e segurança, ainda que em meio à instabilidade inerente à condição das águas que não param de passar; mas se peraus existirem que fiquem bem escamoteados sem perigo oferecer, ao menos iminentemente. Quem tem o coração posto nas águas de Kirimurê-Paraguaçu, não refuga uma boa quimera. Quem tem a alma posta nos saveiros que deslizam na Baía com insufladas velas de içar, não perde a oportunidade de navegar ainda que seja em águas de miragem. Quem tem o pensamento nos ventos indo à deriva daqui dali e acolá, vive a fuçar motivos de alumbramentos nas coisas mais simples que há: numa pequenina flor silvestre, no perfume do jasmim, no cheiro das algas, na vela solitária que passa no horizonte incendiado ao crepúsculo, no popopó do barco invisível dentro da noite, no som do berimbau, até nas metafóricas águas dos olhos cor das águas.