No ócio
Deitada na rede, em meio a
uma tarde de inverno nada invernal, é fácil compreender porque os atenienses preferiam
o ócio em vez do negócio. E não só os gregos, mas também o franco-cubano Paul
Lafargue, que escreveu O Direito à Preguiça, o inglês Bertrand Russell com seu
O Elogio ao Ócio e o italiano Domenico De Masi com o Ócio Criativo.
Ficar sem fazer nada é algo
impensável para as muitas vítimas do corre-corre e bem precioso para quem, como
eu nesta tarde, pode se entregar ao ócio. No não fazer nada é que se faz o que
importa como, por exemplo, ver os nítidos verdes dos coqueiros, cajueiros,
mangueira, pitangueira, limoeiro, gravioleira, pau-pombo, almecegueira,
ingazeira, aroeira, piaçavas, cajazeira ainda sem pressa nenhuma em crescer e
florescer, todas sob céu de azul perfeito a atestar a falta de inverno neste
ano.
Pouquíssima chuva, nem mesmo a tradicional
garoa de São João. Estou pra lembrar quando isso aconteceu. Friozinho sim, ao
cair da tarde, noite adentro e na madrugada a requerer corpos juntinhos e
cobertores, mas durante o dia, quase sempre, céu e temperatura de primavera.
Assim foi em junho, julho e agora em agosto ainda sem os ventos de São Lourenço.
Sim, o “mundo está todo mudado”, já não se pode crer nas previsões. Resta esperar
se na lua nova de setembro veremos o verão que teremos, conforme minha mãe
dizia.
Minha
mãe sabia de muitas coisas, sabia até a fórmula para o dinheiro não faltar. Ao
avistar a lua nova do mês pela primeira vez bastava recitar: “Deus vos salve
lua nova / lua de são Clemente/ quando fores e voltares/ traz-me mais desta
semente”. E aí era só mostrar alguma nota e o dinheiro estava garantido. No
entanto, embora não vivesse na penúria, ela não fez fortuna nenhuma. Com
certeza não era fórmula de enriquecimento, talvez apenas de prover o básico. E não
só de crendices, ela entendia, não. Era
prova de que a sabedoria independe da instrução. Não chegava a ser Sócrates, porém, sem ao
menos ter concluído o primário, conversava com qualquer doutor, tinha suas
teorias e bem fazia tudo que ecleticamente fazia.
A
vida me mostrou vários casos destes. Sujeitos toscos, nascidos e criados na
roça, analfabetos, ignorantes das artes e ciências, mas que tinham bom senso,
perspicácia aguçada, faziam observações originais, apresentavam reflexões
profundas sobre a realidade e desenvolviam filosofia de vida própria. Fora do
alcance da tirania da mídia, blindados contra aproveitadores, avessos a
controles, no meio do rebanho deixavam de ser gado, guiando-se por si mesmo. Os
adágios, chamados acertadamente de sabedoria popular, são uma comprovação
disso.
Certa
feita, ouvi a resposta de um matuto ao pastor que lhe pedira para prestar falso
testemunho numa questão trabalhista: “Não ando com a bíblia debaixo do braço,
mas quando fui posto pra fora, após 20 anos de trabalho, recebi de presente um sabonete
e não botei o patrão na justiça”. Naturalmente ele não mostrou sabedoria por
deixar de reivindicar seus direitos, mas pelo desprendimento e mais, pela
finesse da lição, evidenciando a contradição entre a teoria e a prática
religiosa. Como um seguidor de Jesus, ainda mais sendo um pregador, pode se
valer de falsidades para tirar vantagens ou se vingar?
E a
mente solta no ócio divaga, divaga e indaga. Teria o matuto sido tolo por não
exigir a justa recompensa pelos anos trabalhados? Teria realmente sofrido
perda? Ou que apenas deixara de ganhar? A recompensa monetária compensaria a
trabalheira da lide burocrática? Acostumado com a vida simples, o comodismo do
desprendimento não valia mais que o desassossego para ter dinheiro que na
verdade não tinha e por isso não perdera? Teria intuído que o apego escraviza e
o desapego liberta?
E a contradição. Antes de tudo os humanos são
seres contraditórios. Ah! a grande distância “entre intenção e gesto”; entre
dizer e fazer; entre um peso e duas medidas; entre o ver-se e o apontar; entre
pedir clemência e o julgar; entre viver e matar; entre a inteligência e a
sensatez. Deseja-se a paz, mas faz-se guerra; sublima-se o amor, mas semeiam-se
ódios; quer-se viver, mas matam-se árvores, aterram-se nascentes, polui-se tudo.
E na esteira das incoerências seguem a hipocrisia, a vingança, a falta de
segurança e da confiança, as enfermidades das almas, o mal viver, a
infelicidade.
Mas
eis que chegam as jandaias em algazarras, pousam no cajueiro, bem perto da
varanda. O colorido das plumas se acende pela incidência dos raios do sol, ou
pelo ardor dos afagos e beijinhos em meio ao charlar
agora em surdina. Um gavião passa voando baixo em largos
círculos. Os coqueiros embalançam devagarinho. O céu continua azulíssimo e as
folhas a luzir. As inquietantes ponderações cedem lugar à contemplação do bem e
do belo e no seu rastro, vem a poesia. Então, recorrendo a Carlos Drummond de
Andrade, suspiro dizendo: “Mas a poesia deste momento / inunda
minha vida inteira”. O coração se eleva e a alma
transcende. Para isso serve o ócio.




