quinta-feira, 6 de setembro de 2018


No ócio



Deitada na rede, em meio a uma tarde de inverno nada invernal, é fácil compreender porque os atenienses preferiam o ócio em vez do negócio. E não só os gregos, mas também o franco-cubano Paul Lafargue, que escreveu O Direito à Preguiça, o inglês Bertrand Russell com seu O Elogio ao Ócio e o italiano Domenico De Masi com o Ócio Criativo.
Ficar sem fazer nada é algo impensável para as muitas vítimas do corre-corre e bem precioso para quem, como eu nesta tarde, pode se entregar ao ócio. No não fazer nada é que se faz o que importa como, por exemplo, ver os nítidos verdes dos coqueiros, cajueiros, mangueira, pitangueira, limoeiro, gravioleira, pau-pombo, almecegueira, ingazeira, aroeira, piaçavas, cajazeira ainda sem pressa nenhuma em crescer e florescer, todas sob céu de azul perfeito a atestar a falta de inverno neste ano.
 Pouquíssima chuva, nem mesmo a tradicional garoa de São João. Estou pra lembrar quando isso aconteceu. Friozinho sim, ao cair da tarde, noite adentro e na madrugada a requerer corpos juntinhos e cobertores, mas durante o dia, quase sempre, céu e temperatura de primavera. Assim foi em junho, julho e agora em agosto ainda sem os ventos de São Lourenço. Sim, o “mundo está todo mudado”, já não se pode crer nas previsões. Resta esperar se na lua nova de setembro veremos o verão que teremos, conforme minha mãe dizia.    
Minha mãe sabia de muitas coisas, sabia até a fórmula para o dinheiro não faltar. Ao avistar a lua nova do mês pela primeira vez bastava recitar: “Deus vos salve lua nova / lua de são Clemente/ quando fores e voltares/ traz-me mais desta semente”. E aí era só mostrar alguma nota e o dinheiro estava garantido. No entanto, embora não vivesse na penúria, ela não fez fortuna nenhuma. Com certeza não era fórmula de enriquecimento, talvez apenas de prover o básico. E não só de crendices, ela entendia, não.  Era prova de que a sabedoria independe da instrução.  Não chegava a ser Sócrates, porém, sem ao menos ter concluído o primário, conversava com qualquer doutor, tinha suas teorias e bem fazia tudo que ecleticamente fazia.
A vida me mostrou vários casos destes. Sujeitos toscos, nascidos e criados na roça, analfabetos, ignorantes das artes e ciências, mas que tinham bom senso, perspicácia aguçada, faziam observações originais, apresentavam reflexões profundas sobre a realidade e desenvolviam filosofia de vida própria. Fora do alcance da tirania da mídia, blindados contra aproveitadores, avessos a controles, no meio do rebanho deixavam de ser gado, guiando-se por si mesmo. Os adágios, chamados acertadamente de sabedoria popular, são uma comprovação disso.
Certa feita, ouvi a resposta de um matuto ao pastor que lhe pedira para prestar falso testemunho numa questão trabalhista: “Não ando com a bíblia debaixo do braço, mas quando fui posto pra fora, após 20 anos de trabalho, recebi de presente um sabonete e não botei o patrão na justiça”. Naturalmente ele não mostrou sabedoria por deixar de reivindicar seus direitos, mas pelo desprendimento e mais, pela finesse da lição, evidenciando a contradição entre a teoria e a prática religiosa. Como um seguidor de Jesus, ainda mais sendo um pregador, pode se valer de falsidades para tirar vantagens ou se vingar?
E a mente solta no ócio divaga, divaga e indaga. Teria o matuto sido tolo por não exigir a justa recompensa pelos anos trabalhados? Teria realmente sofrido perda? Ou que apenas deixara de ganhar? A recompensa monetária compensaria a trabalheira da lide burocrática? Acostumado com a vida simples, o comodismo do desprendimento não valia mais que o desassossego para ter dinheiro que na verdade não tinha e por isso não perdera? Teria intuído que o apego escraviza e o desapego liberta?
 E a contradição. Antes de tudo os humanos são seres contraditórios. Ah! a grande distância “entre intenção e gesto”; entre dizer e fazer; entre um peso e duas medidas; entre o ver-se e o apontar; entre pedir clemência e o julgar; entre viver e matar; entre a inteligência e a sensatez. Deseja-se a paz, mas faz-se guerra; sublima-se o amor, mas semeiam-se ódios; quer-se viver, mas matam-se árvores, aterram-se nascentes, polui-se tudo. E na esteira das incoerências seguem a hipocrisia, a vingança, a falta de segurança e da confiança, as enfermidades das almas, o mal viver, a infelicidade.
Mas eis que chegam as jandaias em algazarras, pousam no cajueiro, bem perto da varanda. O colorido das plumas se acende pela incidência dos raios do sol, ou pelo ardor dos afagos e beijinhos em meio ao charlar agora em surdina. Um gavião passa voando baixo em largos círculos. Os coqueiros embalançam devagarinho. O céu continua azulíssimo e as folhas a luzir. As inquietantes ponderações cedem lugar à contemplação do bem e do belo e no seu rastro, vem a poesia. Então, recorrendo a Carlos Drummond de Andrade, suspiro dizendo: “Mas a poesia deste momento / inunda minha vida inteira”. O coração se eleva e a alma transcende. Para isso serve o ócio.

quarta-feira, 9 de maio de 2018


AROEIRA

Acordo para a faiscância dos tremulantes diamantes salpicados na aroeira pela chuva da noite que nem vi. De imediato me lembro da canção de Dolores Duran e me ponho a cantar “É de manhã, vem o sol / mas os pingos da chuva que ontem caiu / ainda estão a brilhar, / ainda estão a dançar / ao vento alegre que me traz esta canção..” A janela do meu quarto já não se abre para o sempre luzente pau-brasil. Agora a árvore nacional é outra, que dadivosamente florida se oferta aos incontáveis pássaros ávidos pelas florezinhas.
Logo a movimentação é grande. Sabiás e sanhaços de todo tipo, pitiguaris, sebinhos, até o alma de gato, o arredio sofrê e alguns outros que não identifico. Fazem a festa para meus olhos e coração. Da cama fico a observá-los, indo e vindo, dando pulinhos fazendo cair  as gotículas cristais penduradas nas pontas de folhas, equilibrando-se nos galhos fininhos que chegam á beira da janela, quase entrando no quarto. Outro contentamento é ver que a aroeira, semeada por mim anos atrás, cresceu tanto, chegando lindamente ao andar de cima.   
Adoro aroeira, se bem que adoro a mangueira com suas copas densas de verde escuro; a fruta-pão de grandes folhas recortadas, o imponente tamarindeiro quase eterno de finas folhinhas azedinhas, a cajazeira também de copa rendilhada e tronco rugoso usado pelas crianças de antigamente para fazer anéis... Enfim, amo a todas, são belos seres especiais que nos garantem a existência na terra.   E sofro quando as vejo sendo mutiladas e assassinadas, tanto quanto sentiria se fosse uma pessoa.
Contemplando a ramaria se projetando sobre o azul do céu carregada de flores e pássaros, ouço chegar de longe no tempo a cantiga de roda, “Bambu tirabu / Aroeira manteigueira / Tirará alguém / Para ser bambu”.  Daí me levanto e vou pesquisar. E como desconfiava são muitas as referências a aroeira na música e poesia popular.  Luiz Gonzaga compara a comichão que a aroeira brava provoca como o amor, Elizeth Cardoso canta “Ê aroeira já secou / Ê aroeira já secou / Já secou por que?” Jessier Quirino rememora A cumeeira de aroeira lá da casa grande.
E eis que aporto na composição de José Fortuna e não resistindo, transcrevo primeira estrofe: “Esteio de aroeira corroído pelos anos / O vendaval do tempo até hoje tu resiste / Quem hoje vê teu vulto no sertão abandonado / Não sabe que encerras uma história longa e triste / Meu pai que te plantou na terra dura lá da mata / Tu foste a cumeeira do teu rancho pequenino / Só o vento frio da noite e o cantar dos curiangos / Ficaram acompanhando a solidão do teu destino”
Aí lembro de um esteio de aroeira na cerca da chácara de Monte Gordo, que começou a virar árvore. Um dia, o vizinho inventou de tocar fogo no mato bem junto à cerca, queimando o brotado mourão já grandinho. Ele se desculpou, mas fiquei sentida. Contudo, eis que passado algum tempo a aroeira, tal qual a fênix, renasceu das cinzas. O mourão calcinado brotou, voltando a ser árvore, a comprovar a sua fama do dito popular “a madeira da aroeira dura a vida toda e mais 100 anos”. Tanto que, devido a esta capacidade de resistir ao fogo e de rebrotar várias vezes, serve como barreiras corta-fogo. Mas esta é apenas uma das inúmeras utilidades da Aroeira, útil desde como cipó de dar nas costas de quem faz por merecer.
A propósito, uma referência aos ramos de aroeira como chicote se tornou elemento  subversivo decretado pela censura da ditadura militar, quando na época dos festivais de música popular brasileira, Geraldo Vandré cantou “É a volta do cipó de aroeira / No lombo de quem mandou dar”. Antes de ser chicote é árvore medicinal tida como adstringente, afrodisíaco, balsâmico, cicatrizante, depurativo, diurética, laxante, tratando dores ciática, febre, reumatismo, diarreia, feridas, gota, inflamação, ínguas, leucorreia, sífilis, problemas urinários, inflamações de útero, matéria prima de cosmético e madeira de mil e uma utilidade.  O frutinho de sabor peculiar entre adocicado e picante é delicioso condimento, famoso na França como o nome de pimenta vermelha.
Olhando a minha despretensiosa e generosa aroeira, totalmente perfumada das folhas aos frutos me encho de orgulho. E torço para que a sensibilidade e o bom senso cheguem aos administradores públicos, levando-os a arborizar as ruas com aroeiras, árvore ideal para isso: nativa resistente, frondosa, de frutificação duradoura e belíssima com seus lustrosos frutinhos vermelhos em cacho (é a cerejeira nacional), que atraem inúmeros pássaros. E mais, nas palavras do o biólogo Dilson Ferreira, “não arrebenta calçadas, aceita poda, faz pouca sujeira e não atrapalha o trânsito de grandes veículos na rua”.  Espero nunca mais ver o que já vi acontecer: ao se fazer uma praça, em Vilas do Atlântico cortaram todas as aroeiras (e eram muitas) que havia no terreno, substituindo-as por plantinhas decorativas sem copa para sombra, deixando os bancos de jardim ao sol inclemente.
Volto a admirar a minha aroeira carregadinha de flores e passarinhos. Agradecendo a mim mesma por tê-la semeado, vou tomar café cantando “Bambu tirabu / Aroeira manteigueira / Tirará alguém / Para ser bambu”. Vou feliz da vida e sustentando a crença de que o Prefeito de Salvador não cometerá o anunciado assassinato de mais de 500 frondosas árvores para instalação de um obsoleto e inútil BRT.

segunda-feira, 30 de abril de 2018



A saga do sabiá


Parece até sina o tanto que os sabiás têm estado nos meus escritos, mas como não contar esta aventura?  Ainda não eram seis horas, quando tudo começou.  O dia remanchava na barra do nuvioso horizonte outonal quando fui arrancada do sono por uma barulheira no teto do quarto. Se fosse gaulesa teria pensado que os céus caiam na minha cabeça. Naquele instante não pensei, porém o susto não foi menor.
Um pássaro voava batendo-se no forro. Pousou na beirinha da parede que sustenta o caibro bem em cima da cama. Fiquei quieta para não espantá-lo, certa de que logo sairia pela janela lateral por onde devia ter entrado. Mas nada. Andava aos pulinhos, parava, dava novos voos doidos querendo varar o teto. Talvez para ele o branco do forro fosse nuvens. Não se dava conta de que se encontrava numa espécie de alçapão, embora com passagem aberta. Pé ante pé, acabei de abrir a janela para facilitar sua saída. Apesar do cuidado, provoquei novos voos tortos.
Voltei a aquietar-me na cama. Contudo o sabiá de praia, a esta altura já identificado, continuava voando para cima sem olhar para baixo nem pros lados. Agora também pousava na parede da frente, após algumas investidas contra o telhado. Queria muito tirá-lo dessa enrascada, mas como? Qualquer movimento levava-o a se agitar. Começou a piar chamando alguém dele. Talvez fosse filhote ainda sem destreza de voo, apesar do tamanho.
 Imóvel na cama e penalizada pensava. A janela estava bem ali, deixando às vistas os ramos floridos da aroeira a balançar ao vento. Ele não via. Chegou a ficar na beira do armário pertinho da janela, porém manteve-se virado para outro lado, olhos voltados para o alto. Era como os  inflexíveis que relutam em mudar de perspectiva, se apegam a falsas certezas, ou buscam uma única solução longe, quando a tem ao pé de si.  
 O anseio pelo céu era tal, que não podia entender que muitas vezes para se chegar ao topo é preciso antes descer. Mostrava o quanto o pânico turva o raciocínio ao ponto de repelir a salvação. Eu queria muito acudí-lo, mas não se pode ajudar a quem não quer ser ajudado por estar cego pelo medo, ou orgulho, ou outro motivo qualquer. Eu estava na impotência. Como chegar até ele? Como fazê-lo olhar para baixo e ver a saída?
O tempo passava, eu me inquietava, não podia mais ficar imóvel. Precisava ir à fisioterapia. De que modo me arrumar sem espantá-lo? Passou a piar mais alto. Não tinha jeito, me levantei. Ele voou se batendo no teto na direção da porta do quarto, defronte da qual, fica uma janela basculante de bom tamanho e aberta. Pronto, pensei aliviada, agora ele sai. Saiu nada! Pousou na beira da parede acima da janela, sempre olhando para o alto. Terminei de me ajeitar com o máximo de cuidado. Vi que o basculante do banheiro também estava aberto. Ele tinha três possibilidades de saída, mas não enxergava nenhuma.
Minha esperança era que com minha retirada ele se acalmasse e acertasse ir embora.  Mas que nada! Quando voltei o sabiá ainda se encontrava no quarto na mesma agonia. Estava há horas nisto, sem comer nem beber. Lúcia colocou fatia de mamão e vasilha com água na janela na tentativa de atraí-lo para abertura. Deixei-o sozinho novamente à vontade para a refeição e o voo de libertação. Entretanto não deu certo. Depois do almoço voltei para o quarto precisando usar o computador, porém, mais uma vez, para evitar que ele se debatesse demais, fiquei a ler na espreguiçadeira sem me mexer.
Agora em desespero, o sabiá quase não mais parava, ia continuamente de uma parede a outra, sempre bem rente ao teto. De bico aberto mostrava cansaço. A situação já durava cerca de oito horas. A tarde avançava, o bichinho sem descanso e sem comer. Se não conseguira sair até então, não seria ao anoitecer que conseguiria. Alguma coisa precisava ser feita, apelei pra uns e outros, ninguém sabia o que fazer. Na aflição, bestamente, pensei usar uma escada de abrir para tentar pegá-lo ou fazê-lo descer o voo. Ideia que só serviu para Matilde rir e gozar da minha cara.  Enfim, ela sugeriu espantá-lo com uma vassoura em direção a uma das janelas. Resolvemos experimentar.
Ante da vassoura  chegar o basculante do banheiro foi tomado por curiosos expectadores, os micos que ameaçavam entrar e complicava mais ainda a coisa, barreirando uma das possíveis saídas. Nem tivemos tempo de pô-los para fora, a ação vassoural  havia iniciado. O bichim era mais teimoso do que a mula e taurino juntos. Não descia. Voava mais agitado. Só restava uma solução, terminar de cansá-lo. Nem foi preciso muito, exausto  logo caiu, correu para baixo da cama, tentou escapar, tombou na mesinha de cabeceira, onde Lúcia, com maior destreza, conseguiu agarrá-lo.
Não se entregou fácil, não. Debateu-se nas mãos delas e me deu bicadas quando gotejei água no seu bico. Ao chegarmos à janela para soltá-lo, vimos os micos a postos na aroeira e cajueiro, tivemos de espantá-lo, no que fomos ajudadas por um, ou uma, sabiá que os puseram a correr. Seria a mãe, o pai, ou apenas um igual solidário? Soltamos a nossa avezinha, nossa não por posse, mas por carinho. Ufa! Lá se foi para um galho distante do cajueiro. Lúcia ainda desceu do quarto para lá embaixo conferir onde ele fora se alojar. Mas já tinha batido asas. Afinal pôde voar para o céu como tanto tentou durante tantas horas. Conosco ficaram cinco peninhas caídas na labuta do resgate.


terça-feira, 3 de abril de 2018


A casa das grades amarelas






A casa das grades amarelas, de inicio era apenas uma referência de localização da casa sem número na Rua Juracy Magalhães, em Itaparica. Mas logo a expressão ganhou a conotação afetiva para mim e para todos os frequentadores que nela se sentiam muito bem. Dizer a casa das grades amarelas era, e ainda é, referir-se a um refúgio encantado, acolhedor de amigos e afetos. É uma bela casa antiga, como já não se fazem mais. Deve ter cerca de 70 anos.  Nela moramos durante três anos e sete meses, tempo suficiente para incluí-la na sentimental história de vida, que se revela em detalhes muito vivos nas retinas e no coração.
E nesta manhã de outono azul, nas lonjuras em que estou entre árvores e dunas, embarco  na nuvem barco chamado saudade e navegando pelo mar da memória, eu vou.  Chego diante dos muros de pedras encimados pelas famosas grades amarelas, entro subindo a escadinha de pedras ladeada pela mureta corrimão, sigo pelo caminhozinho calçado por largas pedras, que divide o jardim em dois lados, cada qual, com um coqueiro tremulante à menor brisa vinda do mar. À esquerda a vistosa pitangueira, festa dos passarinhos e da gente nas generosas safras, dá as boas vindas como sempre.
Na varanda da frente, atrás da imponente arcada de pedra, estão o velho sofá de um lado e no outro a mesa de vidro e cadeiras de ferro pintadas de branco com almofadinhas de listas amarelas e brancas. Cantinho de contemplação da lua cheia, das cantorias, das muitas conversas e comilanças, especialmente do escaldado dos siris-boias recém-comprados na porta de casa e acompanhado do perfeito pirão de Noêmia e da nossa alegria. Na varandinha lateral, igualmente com arcadas de pedras, a significativa rede e a espreguiçadeira, mirante dos vários passarinhos — que vinham tomar banho no prato de barro e comer as bananas e os milhos quebrados colocados no muro defronte — e dos muitos verdes, sobretudo das velhas enormes mangueiras a transmitir sensação de proteção e paz. 
Ah, mangueiras! Uma floresta delas circunda a casa, pelo fundo e laterais. Da casa mesmo, somente a manga Itiúba, mas nos fartávamos também com as mangas rosas e espadas dos vizinhos. Desconhecendo propriedades privadas e ignorando divisórias humanas, as mangueiras se ofertam abundantemente. No quintal com portões de ferro também pintados de amarelo, ainda estavam as bananeiras, a goiabeira, os pés de acerola e aroeira. Entro e admiro a grossura das paredes, a amplidão dos cômodos, a sala com palaciano piso de ladrilhos pretos e brancos, tabuleiro de damas.
Continuo revendo os peculiares pormenores: a porta da frente em arco e postigo gradeado e a do lavado com inusitado postigo abrindo por fora; as enormes janelas, a da sala com cerca de dois metros de largura por três de altura, através da qual minha centenária mãe acompanhava o movimento da rua. E o janelão de meu quarto abrindo-se para o verde muro coberto de heras e o sempre luzente pau-brasil, ponto de pouso para descanso e cantoria de sabiás e sanhaços. Em quantas felizes madrugadas ficava na cama em sossego a apreciar as cores do amanhecer e o movimento dos pássaros, inspiradores de crônicas e poemas!
Logo aparecem as inúmeras visitas, algumas de amigos não vistos há décadas, de vizinhos, dos novos amigos e os amigos dos amigos, até dos gatos que insistentemente, nos vencendo pelo cansaço, nos adotaram. Sem falar nos frequentadores costumeiros e os de todo dia, entre eles os queridos Antonio Marques e Maria Elisabeth Pardo. Todos de imediato se sentindo confortáveis, apesar da simplicidade do nosso estilo de vida desapegado refletido nos poucos móveis velhos e utensílios de pouco valor, mas com mesa farta da boa comida de Lúcia e, principalmente, de Noêmia que adora cozinhar e cujo pouquinho era sempre muito. Durante e depois das refeições os muitos causos, muitas lembranças, muitas conversas sobre tudo, muitos risos e até cantorias.
Aos sábado chegavam Manu e Chiquinha, as meninas dos mariscos, às vezes a tempo para o café. Gostavam de sentar na soleira da porta, para diversão do quase primo holandês que achou aquilo inusitado. Além dos peixes e mariscos que traziam, havia o bom papo, que nos levava a conhecer muito da comunidade de Baiacu, quase toda vivendo dos pescados e ainda bastante integrada e solidária. Surpreendemente bom foi descobrir o caráter ético e bondoso destas garotas simples, que, por exemplo, ficaram sem receber o defeso por não saberem mentir como a maioria, confessando que apesar de marisqueiras não eram pescadoras de camarão para o qual o defeso é destinado.
E chegam também as emoções alegres e tristes vividas ali, por fim o apagar-se de minha mãe com 102 anos, num inicio da tarde de 27 de fevereiro, dia do aniversário da neta querida e também outras lamentáveis perdas, entre elas a saída da casa e a partida de Itaparica. Saudade acentuada nesta breve revisita à casa das grades amarelas.

Busca Vida, 1º de abril 2018