A Cainana e
o Gordo
No inicio da sempre silenciosa
manhã daquele condomínio dentro de uma das últimas reservas ambientais da
região, os gritos ecoaram por toda rua. Ela pulou da cama atordoada sem
entender o que ocorria. Só percebia, pelo desespero dos gritos, que alguma
desgraça estava acontecendo, ainda mais, que de entre o alarido emergia frases
aterradoras: “vai morrer”, “Ai meu Deus, vai morrer”, “Acudam, acudam”.
Descendo as escadas o mais rápido
possível encontrou a filha gritando: “Gordo, Goooordo”, “Vai morrer”, “Venha
Gordoooo”, “Sai daí Gordoooo”. Sacudindo a vasilha, jogava um punhado da ração
no chão da varanda. O Gordo indiferente aos chamados tinha olhar fixo na outra
porta de vidro, numa atitude de ataque. Embora fosse difícil imaginar que
aquela triste figura pudesse pretender comprar alguma briga, ali estava ele concentrado,
pronto para o que desse e viesse, ao alcance de uma tremenda cobra de bote
armado.
Triste figura sim, esquálido,
esquelético, ralo pelo arrepiado, rígidas pernas arqueadas, olhos esbugalhados.
O Gordo de gordo só tem hoje em dia a desmedida ironia. Outrora fora um gato
gordo. Começou indo e vindo, não se sabe bem de onde, até se aboletar de vez na nova casa escolhida, talvez por querer
companhia dos outros gatos que o receberam bem. Desafia a natureza, sendo mesmo
um caso para estudo. Muitíssimo idoso, com problemas de fígado, rins, pulmão,
vistas, seu organismo não consegue absorver os nutrientes apesar de comer muito.
Devora a ração, não enjeita nada, até banana da terra cozida.
Não se sabe como ele ainda está
vivo. É um destes enigmas da natureza. Não há o que fazer mais por ele a não
ser dar a assistência carinhosa. Felizmente não sofre e ainda arrisca uma corridinha
toda vez que vai ao banheiro. Noutro dia deu uma carreira nos micos que estavam
no chão da área de serviço e voou atrás dos saguins quando estes pularam na
árvore. Caiu duma altura de desconjuntar gente sã, mas o danado não teve nada.
E, agora acuava a enorme esquisita cobra.
Ao chegar à sala a filha ouviu e
viu a enorme serpente saltar se chocando na porta de vidro da frente. Susto grande,
mas o pior foi ver que o Gordo corria perigo. Ela arrodeou a casa saindo pela
porta do fundo e tentava salvar o bichano. Provavelmente o salto da cobra teria
resultado do ataque dele. Estava enrodilhada, o finíssimo rabo tremendo,
pescoço inchado, preparada para o bote. E o Gordo aguardando para o pulo do
gato como se fosse páreo para uma cobra daquela. Toda preta com rajadas
amarelas esverdeadas pelo corpo, devia ter uns três metros. Era sem dúvida assustadora. Enfim o Gordo se
cansou de esperar preferindo a ração. Atendeu aos chamados saindo do alcance da
cobra, ufa! Livre do gato, a cobra ainda se sentiu ameaçada, desta feita pela gata
que a espreitava através da porta de vidro, e por fim deu o bote contra o
vidro. Aquele não era seu dia sorte.
A esta altura a serpente já havia
sido fotografada, e a foto enviada a Dr. Moacyr para identificação, enquanto se
fazia pesquisas. O Google indicava ser uma Cainana, o que foi logo confirmado
pelo veterinário. Não é venenosa, vive solitária, anda quilômetros se alimenta
de sapos, ratos, ovos, mas é muito ágil, uma das mais ágeis e é capaz de
estrangular animais maiores quando ameaçada.
A gata foi tirada da vista da cobra
e a serpente tratou de rapidamente deslizar para jardim, e cair fora
traumatizada com as pancadas contra o vidro, a perplexidade do obstáculo
invisível e pela ousadia de ser atacada por um bicho decrépito. Mas ela não
podia se queixar, pois afinal foi deixada em paz. E o Gordo, nem te ligo, após refastelar-se com
a dose extra de ração, pôs-se a dormir, como de costume, sentado, sustentando todo
o corpo no focinho apoiado no chão.




